Rio de Janeiro, 08 de Maio de 2026

Depois de Ciro Nogueira, PF assombra a ‘bancada do Vorcaro’

A Operação Carbono Oculto revela a participação de autoridades no esquema do Banco Master, com delações e investigações em andamento. Descubra os detalhes.

Sexta, 08 de Maio de 2026 às 20:25, por: CdB

Com o avanço das investigações, Vorcaro entregou à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR), uma série de provas que detalham a participação de autoridades no esquema do Banco Master.

Por Redação – de Brasília

A ‘bancada do Vorcaro’, um grupo informal de parlamentares e políticos influentes que, segundo relatos levados à Polícia Federal (PF), agiram em defesa dos interesses do ex-empresário Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, passa a viver um verdadeiro pesadelo causado pela Operação Carbono Oculto. A rede de influência começa a ser dissecada, em meio às investigações e propostas de delação premiada sobre o escândalo.

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Alcolumbre nega que tenha pedido para que Lula interviesse nas investigações da PF

O grupo agia para evitar o naufrágio do Banco Master e de seus ativos, o que de fato termina não acontecendo, uma vez que o inquérito sobre os cerca de R$ 40 bilhões obtidos por meios fraudulentos pelas empresas do ex-banqueiro — preso atualmente, em Brasília — segue adiante, com prisões e cumprimentos de mandados contra políticos de peso, a exemplo do presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI).

Com o avanço das investigações, Vorcaro entregou à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR), uma série de provas que detalham a participação de autoridades no esquema do Banco Master em meio a um “lobby pesado” no Congresso para proteger o ex-banqueiro. A defesa de Vorcaro, liderada por advogados como José Luís Oliveira Lima (o ‘Juca’, como é conhecido), no entanto, voltou a negociar com as partes, no processo, por insuficiência de dados expostos por seu cliente.

 

Nota

O senador Ciro Nogueira veio a público, nesta sexta-feira, manifestar-se sobre a operação da PF da qual foi alvo na véspera. Ele disse estar “completamente indignado” e se considera uma vítima da perseguição política de adversários, por ser um ano eleitoral.

“Sobre a tentativa de manchar a minha honra pessoal que aconteceu nessa semana, vale lembrar algo: todo ano político é a mesma coisa. Tentam parar de todas as formas quem lidera as pesquisas de intenção de votos. Isso aconteceu comigo em 2018, faltando 15 dias para a eleição. Mas o povo do Piauí sentiu a perseguição política e o efeito foi contrário: crescemos 6 pontos na pesquisa e vencemos aquela eleição”, diz trecho da nota publicada no seu perfil do Instagram.

Mais adiante, no texto, ele acrescenta que “suportar esse tipo de pressão só é possível pra quem nasceu pra servir o povo”. Ele terminou assinando o texto como “um cidadão completamente indignado”.

 

União Brasil

Em outra frente das investigações, a PF mira aliados do presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), citados na Operação Carbono Oculto. A colunista Malu Gaspar, do diário conservador carioca O Globo, apurou que Alcolumbre teria procurado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) duas semanas antes da votação que rejeitou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).

No encontro, segundo relatos à jornalista, Alcolumbre teria pedido ajuda para se proteger das investigações conduzidas pela PF e, mais adiante, de uma possível delação do banqueiro Daniel Vorcaro. A reunião teria acontecido nos bastidores da posse do ministro José Guimarães na Secretaria de Relações Institucionais, pasta responsável pela articulação política do governo, à qual também compareceu também o presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (PP-PB).

Alcolumbre, conforme escreveu Gaspar, teria dito a Lula que seria alvo de perseguição política, da mesma forma que alega Ciro Nogueira, e se mostrou bastante preocupado com o conteúdo de uma possível colaboração premiada de Vorcaro. Segundo o presidente do Senado, a delação conteria “muitas mentiras e injustiças” a seu respeito, quando apelou ao presidente Lula para que o ajudasse a evitar ser atingido pelas investigações.

 

Não absoluto

A resposta, no entanto, caiu feito um balde d’água gelado na fervura dos acontecimentos. Lula negou que tivesse como interferir no trabalho da PF, do Ministério Público Federal (MPF) ou do STF. Teria dito também que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, vem atuando com responsabilidade para impedir injustiças ou mal entendidos.

A réplica de Alcolumbre, depois de ver que Lula não o protegeria, teria ocorrido apenas alguns dias depois da conversa, quando o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF, em uma derrota histórica para o governo. Nos bastidores do Palácio do Planalto, aliados de Lula passaram a interpretar a articulação liderada por Alcolumbre como uma reação à falta de apoio diante das investigações que cercam o senador.

Lula, por sua vez, não foi à tréplica ainda, e chamou Alcolumbre para uma nova conversa, nos próximos dias, na tentativa de acalmar os ânimos no Congresso. Traços dos descontos indevidos em aposentadorias do INSS e os investimentos de cerca de R$ 400 milhões do fundo de pensão do Amapá em títulos financeiros do Banco Master, executado por um indicado de Alcolumbre para o cargo, no entanto, acompanham o senador.

 

Medo

Ficou evidente para os colegas de Alcolumbre a sua preocupação com o avanço das investigações tanto sobre o INSS quando no Banco Master, mas interlocutores do político negam que a rejeição ao nome de Jorge Messias tenha sido diretamente motivada pela tentativa de obter proteção política junto ao governo, na tentativa de manter uma janela aberta com o presidente Lula.

— O fato é que o Davi (Alcolumbre) está com medo — disse uma fonte à colunista.

Em nota pública, a assessoria de Alcolumbre negou qualquer conversa com Lula sobre o Banco Master ou pedidos relacionados a investigações, ao afirmar que “o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, jamais tratou do Banco Master com o presidente Lula e muito menos fez qualquer queixa ou alegação nesse sentido”. O senador também declara que “não possui qualquer relação com o Banco Master e não é investigado, citado ou arrolado, sob nenhuma forma, em qualquer apuração relacionada ao caso”.

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