A Revolução Chinesa como síntese civilizacional: socialismo, tradição e rejuvenescimento nacional na Nova Era.
Por Marcos Verlaine – de Brasília
A revolução como continuidade histórica, não ruptura destrutiva. Esta pode ser a síntese do chamado socialismo chinês, que é uma das experiências mais originais dos séculos 20 e 21, porque não se limitou a repetir modelos europeus.

Ao contrário. A Revolução Chinesa, de 1º de outubro de 1949, inaugurou trajetória própria: socialismo enraizado na longa história de civilização milenar, capaz de combinar transformação radical e continuidade cultural.
Diferentemente da Revolução Russa (1917), marcada por expurgos prolongados e por lógica de eliminação física sistemática dos divergentes, a partir da ascensão de Stálin ao poder, a Revolução Chinesa construiu seu caminho com outro horizonte: unidade nacional, reconstrução civilizacional e centralidade do povo como sujeito histórico.
Essa observação, naturalmente, não apaga a grandeza histórica da Revolução Russa nem tampouco suas contribuições decisivas para o século 20. Trata-se apenas de encarar, com honestidade, os limites e equívocos do processo russo-soviético, que desembocaram na derrocada do chamado socialismo real no Leste Europeu, marcada pela queda do Muro de Berlim (1989) e, pouco depois, pela dissolução da União Soviética (1991).
Essa diferença não é detalhe. Revela que o socialismo chinês não é mera aplicação de manual ideológico, mas processo histórico profundamente situado na realidade chinesa.
A China era mais pobre que o Brasil: e escolheu o socialismo como projeto nacional.
Até a década de 1980, a China era um país economicamente menos desenvolvido que o Brasil. Sua base era majoritariamente agrária, marcada por séculos de fragmentação, invasões estrangeiras e subordinação imperial.
O socialismo chinês emerge, portanto, como projeto de libertação nacional e desenvolvimento soberano, não apenas como disputa abstrata entre classes sociais.
A revolução não foi somente a tomada do poder: foi a reconstrução de Estado capaz de garantir:
Independência; Planejamento; Industrialização; Combate à miséria; e Elevação histórica do povo chinês.
O “socialismo com características chinesas”1 nasce dessa necessidade concreta: modernizar sem se submeter ao capitalismo dependente.
Revolução Cultural
O período maoísta foi decisivo para consolidar a soberania chinesa e construir as bases iniciais do socialismo. Mas também foi atravessado por profundas tensões internas, especialmente durante a chamada Revolução Cultural (1966-1976)2.
Esse momento representou tentativa de acelerar a luta ideológica contra elementos considerados “burgueses” ou “feudais”, incluindo o confucionismo, visto então como herança da opressão tradicional.
Foi nesse contexto que figuras centrais do Partido sofreram punições políticas — entre elas —, Deng Xiaoping3, que havia sido um dos principais dirigentes do Estado revolucionário.
Deng foi afastado, acusado e enviado para “reeducação política” durante a Revolução Cultural, simbolizando como aquele período também produziu rupturas internas severas.
No entanto, a própria história chinesa demonstraria capacidade singular de correção e reorientação estratégica.
Deng Xiaoping: reabilitação e início da grande modernização socialista.
Após a morte de Mao, em 19764, e a prisão da chamada “Gangue dos Quatro”5, a China iniciou novo ciclo. Deng Xiaoping foi reabilitado politicamente em 1977, e retornou ao centro da direção do Partido e do Estado.
A partir de 1978, Deng tornou-se o “grande arquiteto” da nova fase histórica: a política de Reforma e Abertura (gaige kaifang)6, que inaugurou o caminho do “socialismo com características chinesas”.
Deng compreendeu que a revolução precisava avançar não apenas pela mobilização ideológica, mas pela elevação concreta das forças produtivas, pelo desenvolvimento científico e pela modernização econômica.
Seu lema pragmático tornou-se célebre: “Não importa se o gato é preto ou branco, contanto que cace ratos.”
Sob a liderança de Deng, a China iniciou: industrialização acelerada; abertura controlada ao investimento externo; fortalecimento do planejamento estatal; criação das Zonas Econômicas Especiais (a partir de 1980); e redução histórica da pobreza.
Deng simboliza, assim, o início da fase modernizante da revolução: socialismo que se adapta, amadurece e se projeta no longo prazo.
Confucionismo: não obstáculo, mas fundamento civilizacional da coesão socialista
Antes da revolução, o confucionismo7 estruturava a sociedade chinesa há mais de 2 mil anos. Seus princípios centrais eram:
Harmonia social;
Responsabilidade coletiva;
Respeito às hierarquias comunitárias;
Ética pública e virtude governante; e
Primazia do bem comum sobre o individualismo.
Durante o período maoísta, especialmente na Revolução Cultural, houve rejeição radical ao confucionismo, visto como herança feudal.
Mas a história não é linear. A revolução chinesa amadureceu e compreendeu algo decisivo: não se constrói socialismo duradouro sem raízes culturais profundas.
O confucionismo, então, deixa de ser lido e visto como “passado a ser destruído” e passa a ser compreendido como patrimônio civilizacional incorporável ao projeto socialista.
Socialismo com características chinesas: sinização criativa do marxismo
O marxismo nasceu na Europa industrial. A China, ao adotá-lo, não o copiou: o transformou.
O que se chama “sinização do marxismo”8 significa exatamente isso: a fusão entre a ciência revolucionária moderna e a tradição histórica chinesa.
O confucionismo fornece: ética de governança; cultura de responsabilidade social; visão de longo prazo; e ideal de harmonia como estabilidade progressiva.
Enquanto o marxismo fornece: horizonte socialista; papel dirigente do PCCh; planejamento econômico; e centralidade do povo trabalhador.
Essa síntese não é contradição: é força histórica.
Harmonia não é imobilismo: é estabilidade para o desenvolvimento popular.
Um dos conceitos mais mobilizados na China contemporânea é o de “sociedade harmoniosa”.
No pensamento confuciano, harmonia não significa ausência de transformação, mas sim: equilíbrio social; redução de conflitos destrutivos; prioridade ao coletivo; e estabilidade como condição do progresso.
Na Nova Era, sob Xi Jinping, essa ideia se articula ao objetivo do “Grande Rejuvenescimento da Nação Chinesa”9.
A harmonia torna-se fundamento de socialismo que busca: erradicar a pobreza extrema; consolidar a prosperidade comum; evitar o colapso social; e sustentar o planejamento estratégico.
O socialismo chinês entende que desenvolvimento não é espontâneo: é construção histórica orientada.
Virtude pública e combate à corrupção: Confúcio como ética do Partido
Confúcio insistia que o governante deve ser virtuoso, responsável e exemplar. Essa tradição fornece ao PCCh (Partido Comunista Chinês) dimensão ética: governar não é privilégio, é dever; liderança é responsabilidade moral; e corrupção é traição ao povo.
O combate à corrupção, central na atual fase chinesa, também se apoia nessa concepção: a autoridade não é arbitrária, é legitimada pelo serviço público e pelo compromisso com o bem comum.
Socialismo chinês como alternativa civilizacional ao individualismo neoliberal.
A China contemporânea apresenta ao mundo mensagem histórica poderosa: existem múltiplas modernidades possíveis.
O socialismo chinês afirma que:
O desenvolvimento pode ser planejado;
A soberania não é negociável;
O coletivo não é inimigo da liberdade, mas condição da dignidade; e
A tradição e a revolução podem caminhar juntas.
Confúcio, transformado de “inimigo feudal” em “sábio nacional”, é parte dessa alternativa civilizacional: modernização socialista que não precisa romper com a alma cultural do povo.
Confúcio
A relação entre o confucionismo e a atual fase da revolução chinesa é estratégica e profunda porque a China compreendeu que o socialismo não é apenas economia ou partido: é civilização, cultura e projeto histórico.
Confúcio fornece: coesão moral; continuidade cultural; ética pública; e harmonia como princípio coletivo.
O marxismo fornece: horizonte socialista; emancipação nacional; planejamento estatal; e centralidade do povo.
O resultado é experiência singular: socialismo civilizacional, enraizado, pragmático e historicamente vitorioso, capaz de tirar centenas de milhões da pobreza10 e reposicionar a China como protagonista do século 21.
A Revolução Chinesa segue em movimento. E talvez sua força esteja justamente nisso: não destruir a história, mas transformá-la em motor do futuro.
No século 21, a Revolução Chinesa poderá desempenhar para o mundo papel semelhante ao que a Revolução Russa exerceu no século 20, porém sem repetir os graves erros estratégicos cometidos pelos soviéticos.
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1 O sistema teórico do socialismo com características chinesas é termo amplo para teorias e políticas que são vistas por seus defensores como representativo do chamado marxismo-leninismo adaptado às circunstâncias chinesas e a períodos específicos.
2 A Revolução Cultural Chinesa, oficialmente conhecida como a Grande Revolução Cultural Proletária, foi movimento sociopolítico lançado por Mao Tsé-Tung que ocorreu entre 1966 e 1976. O movimento visava reafirmar a liderança de Mao sobre o PCCh e “purificar a ideologia socialista” no país, combatendo influências capitalistas e “elementos considerados burgueses” no Partido e na sociedade chinesa.
3 Deng Xiaoping (1904-1997) foi o “Arquiteto Chefe” da modernização da China, liderando o país de 1978 a 1989. A ele é creditado a transformação da nação agrária e empobrecida em potência econômica global por meio da política de “Reforma e Abertura”.
4 Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular da China e líder do PCCh, faleceu em 9 de setembro de 1976, aos 82 anos, em Pequim, após meses de saúde debilitada e 3 ataques cardíacos naquele ano. A morte dele encerrou período de 27 anos de governo, que gerou uma semana de luto nacional, comoção popular e vácuo de poder.
5 A chamada “Gangue dos Quatro” foi uma facção política radical de alto escalão do PCCh, liderada por Jiang Qing (mulher de Mao Zedong), que exerceu grande influência durante a Revolução Cultural (1966-1976). O grupo, composto também por Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan e Wang Hongwen, foi responsabilizado pelos excessos da revolução e preso após a morte de Mao em 1976.
6 A política de “Reforma e Abertura” (gaige kaifang), iniciada por Deng Xiaoping em 1978, marcou a transição da China de economia planificada e fechada para o chamado “socialismo de mercado”. Focada nas “Quatro Modernizações” — agricultura, indústria, defesa, ciência/tecnologia —, promoveu abertura ao capital estrangeiro e zonas econômicas especiais, transformando a China em potência global.
7 O Confucionismo é um sistema ético e filosófico chinês que enfatiza a moralidade pessoal e governamental, a justiça, a sinceridade e os procedimentos corretos nas relações sociais. Desenvolvido a partir dos ensinamentos do filósofo Confúcio (551-479 a.C.), não é religião tradicional, mas sim código social e fonte de valores que influenciou profundamente a cultura e a história chinesa por mais de 2 milênios. Faz parte, com o marxismo, da base filosófico-político-ideológica do PCCh.
8 A “sinização do marxismo” é um conceito do PCCh, que funde a teoria marxista-leninista com a cultura, história e realidades nacionais da China. Esse processo adapta o marxismo ao contexto local, que resulta no “socialismo com características chinesas”, que abrange desde o maoísmo até o desenvolvimento econômico de Deng Xiaoping e o atual pensamento de Xi Jinping.
9 O “Grande Rejuvenescimento da Nação Chinesa” é o slogan político central do PCCh, criado por Jiang Zemin em 2001, e popularizado por Xi Jinping como sinônimo do “Sonho Chinês”. Visa fortalecer a China, tornando-a potência desenvolvida e moderna até 2049, com foco em desenvolvimento econômico, militar e tecnológico.
10 A China retirou cerca de 800 a 850 milhões de pessoas da extrema pobreza ao longo dos últimos 40 anos — desde o início da década de 1980 até aproximadamente 2019/2020. Este processo, considerado o maior sucesso na erradicação da pobreza da história, reduziu a taxa de extrema pobreza de quase 90% para perto de 0%.
Marcos Verlaine, é jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap.
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