Rio de Janeiro, 04 de Março de 2026

As bolhas de uma sociedade de classes

Reflexões sobre as bolhas sociais e a realidade brasileira através da perspectiva de Urariano Mota.

Quarta, 04 de Março de 2026 às 09:43, por: CdB

Nos surpreendemos que existam indivíduos tão estúpidos, primários, que formam a manada bolsonarista.

Por Urariano Mota – de Brasília

No café da manhã, conversava sobre as bolhas em que as pessoas vivem. Habitando nessas bolhas, todos achamos que o mundo todo é igual.

As bolhas de uma sociedade de classes | Witches Flight por Francisco de Goya
Witches Flight por Francisco de Goya

E de repente, nos surpreendemos que existam indivíduos tão estúpidos, primários, que formam a manada bolsonarista. A surpresa, no entanto, não deve nem pode evitar uma reflexão sobre o Brasil do atraso que sobrevive.

Mas no café, como sempre, falamos mais sobre o que está em nossa memória.  Então ao pensar em bolhas, lembrei de uma estudante de História, jovem, bonita, que me perguntou em frente ao Bar Mustang, em 1979, pelo número do meu telefone. Respondi-lhe:

– Eu não tenho telefone, amiga.

A jovem ficou estarrecida. No mundo dela, todas as pessoas tinham telefone. Como poderia haver alguém que não o tivesse? Ela só não perguntou pelo meu zap ou Instagram, porque à época tais avanços não haviam chegado.

Afogados

A mesma jovem exclamou, em outra oportunidade, ao ouvir o imortal Gordo contar sua vida popular em Afogados, porque ele morava na Rua da Lama:

– Gordo, como eu queria morar nesse lugar!

E o Gordo:

– Já eu quero sair.

E finalmente, certa vez lá no Janga, eu conversava com ela à beira da pista, enquanto esperávamos um ônibus. Avisada, ela sempre deixava o carro em casa, para melhor “integração”. Ela de calça jeans importada, eu com a bem mais barata US Top (que nome). Ela, bonita, bem nutrida. Eu, muito feio na época…, cabelos crespos assanhados, barba por fazer. Então, ao nos ver assim tão “integrados”, o inesquecível Luiz Paulo observou:

– Cuidado com os donos de carros que passam! Eles vão dizer que o terrorista sequestra a burguesinha.

Eu sorri amarelo. Ela sorriu vermelha. 

 

Urariano Mota, é Escritor e jornalista. Autor do Dicionário Amoroso do Recife, Soledad no Recife, O filho renegado de Deus e A mais longa duração da juventude (traduzido para o inglês como Never-Ending Youth). Colunista do Portal Vermelho e do Brasil 247. Colaborador do Jornal GGN.

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