Processos de Heitor dos Prazeres, Tia Ciata e João da Baiana expõem patrimônio, obras e a resistência cultural da Pequena África na formação do Rio.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
A história do samba e do carnaval do Rio de Janeiro ultrapassa os limites da Marquês de Sapucaí e também está preservada em documentos judiciais. No Arquivo Central do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), processos históricos revelam novas perspectivas sobre a trajetória de personagens essenciais para a cultura brasileira.

Inventários e partilhas de nomes como Heitor dos Prazeres, Tia Ciata e João da Baiana ajudam a compreender transformações urbanas, questões relacionadas à censura e disputas por direitos autorais. O acervo permanente é mantido pelo Departamento de Gestão de Acervos Arquivísticos (Degea).
Os registros mostram fragmentos da vida de sambistas que consolidaram o gênero na região entre a Praça Onze e a Praça Mauá, abrangendo bairros como Saúde, Gamboa e Santo Cristo, área conhecida como Pequena África e considerada um dos principais territórios de presença negra nas Américas.
Documentos
A relevância desse patrimônio documental ganha ainda mais destaque no momento em que a Unidos de Vila Isabel levou para a Sapucaí o enredo Macumbembê, samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África, em homenagem a Heitor dos Prazeres, um dos artistas com registros preservados no arquivo.
De acordo com o diretor da Divisão de Gestão de Documentos, Gilberto de Souza Cardoso, esses processos são fundamentais para a memória cultural do país e simbolizam a resistência da região da Pequena África.
O inventário de Heitor dos Prazeres apresenta a dimensão de sua produção artística ao listar composições, partituras e obras plásticas que retratam o cotidiano das comunidades negras, com festas, rodas de samba e manifestações religiosas. Entre os clássicos está O Pierrô Apaixonado.
Tia Ciata
O processo de partilha de Tia Ciata traz informações sobre sua estrutura familiar, condição de viúva e uma estabilidade financeira considerada modesta, além de apontar a divisão amigável da herança entre quatro filhos — embora pesquisas indiquem que ela teve 14 descendentes.
O documento também registra que sua morte foi causada por colapso cardíaco. Foi no quintal da matriarca que nasceu Pelo Telefone, reconhecido como o primeiro samba gravado da história.
Já o inventário de João da Baiana destaca os direitos autorais de obras como “Batuque na cozinha” e episódios marcantes de sua trajetória, como o pandeiro recebido do senador Pinheiro Machado. O instrumento funcionou como um salvo-conduto em um período em que o samba era criminalizado e o músico chegou a ser detido por tocar nas ruas.
Acervo
Com mais de oito milhões de processos cíveis e criminais, o Arquivo Central do TJRJ guarda não apenas a história do Judiciário, mas também parte significativa da memória social do Rio e do Brasil.
Segundo a historiadora Jéssica Siqueira, do Serviço de Gestão de Acervos Arquivísticos Permanentes (Segap), esses autos materializam a memória da escravidão e das formas de resistência no período pós-abolição.
Ao registrar figuras como Tia Ciata, Heitor dos Prazeres e João da Baiana, os documentos evidenciam como a herança desse período se transformou em protagonismo negro na construção da identidade cultural carioca.
Pesquisadores interessados em consultar a documentação histórica podem solicitar acesso ao Arquivo Central do TJRJ por meio do e-mail diged.pesquisadores@tjrj.jus.br.