Rio de Janeiro, 12 de Setembro de 2026

Vorcaro viveu tudo o que pode, antes da prisão iminente

Vorcaro parecia prever que o golpe bilionário contra o sistema financeiro nacional tinha prazo de vencimento.

Sábado, 12 de Setembro de 2026 às 15:59, por: CdB

Vorcaro parecia prever que o golpe bilionário contra o sistema financeiro nacional tinha prazo de vencimento.

Por Redação – de Brasília

O hoje ex-banqueiro Daniel Vorcaro, 42, preso preventivamente no Complexo da Papuda, viveu a vida dos sonhos de qualquer playboy bilionário ao longo de ao menos um ano, antes dos negócios escusos começarem a ganhar o noticiário policial. Foram US$ 55,3 milhões, quase R$ 300 milhões — o equivalente a cerca de 2 bilhões de refeições servidas nos refeitórios das escolas brasileiras — gastos em serviços de turismo, hospedagem, eventos e atendimento personalizado de alto padrão de dezembro a dezembro, entre 2024 e 2025.

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O ex-banqueiro Daniel Vorcaro chegou a ficar noivo de uma modelo gaúcha, antes de ser preso

Vorcaro parecia prever que o golpe bilionário contra o sistema financeiro nacional tinha prazo de vencimento. Além de formar uma teia para a suposta proteção junto aos mais graduados canais políticos e jurídicos do país, ao custo estimado do dobro do que gastou no ano sabático, o economista com MBA pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) calculou milimetricamente as margens de erro dos negócios em curso.

Em algum momento, o castelo de cartas cairia, como de fato ocorreu com a saída do então presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto e o fim do tempo em que prosperou no salto para a notoriedade, e a chegada de Gabriel Galípolo, que já o havia colocado na mira das auditorias internas da autoridade monetária.

 

Bahamas

Ciente dos riscos de corria, Vorcaro não economizou no bem-estar dos passeios, festas e bacanais que, logo adiante, perderia para uma cela lúgubre em algum presídio brasileiro. Um relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), reveladas na véspera após a liberação de documentos do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), mostra que os recursos tiveram como destino a Signature Luxury Services LLC.

Os documentos liberados na noite passada pelo ministro André Mendonça, do STF, também trazem informações fornecidas pela própria Signature Luxury Services e nos relatórios da Polícia Federal (PF). A empresa descreveu Vorcaro como um dos clientes mais abonados e frequentes, com um nível elevado de demanda por serviços exclusivos.

Os pagamentos analisados pelo Coaf ocorreram entre novembro de 2024 e dezembro de 2025. Segundo o relatório, uma corretora de valores mobiliários sediada nas Bahamas, a Mosaic Financial Ltd., realizou as transferências relacionadas a hospedagens, viagens e contratação de artistas do setor de entretenimento. Neste meio tempo, chegou a ficar noivo da modelo gaúcha Martha Graeff, 40, que depois negou saber de onde vinha tanto dinheiro gasto por seu par.

 

Alto padrão

A Signature Luxury Services atua na organização de viagens e eventos; além de oferecer locação de aeronaves privadas, barcos certificados pela MYBA, imóveis para temporada, pacotes turísticos e serviços de concierge. Tudo do bom e do melhor. Em manifestação encaminhada ao STF, a empresa detalhou o perfil das contratações feitas pelo ex-banqueiro.

“O Sr. Daniel Vorcaro, que integra o perfil de contratantes dos serviços prestados pela Peticionária, figurou entre os clientes mais assíduos da empresa. Suas contratações compreendiam viagens e eventos de lazer, primordialmente privados, com foco no atendimento de concierge e serviços personalizados de alto padrão”, declara o documento da empresa.

A companhia também afirmou que Leonardo Serrano Giunchetti, gerente da empresa, mantinha contato direto com Vorcaro para atender às solicitações.

“Dado o elevado nível de exigências na execução dos serviços contratados, as solicitações do Sr. Daniel Vorcaro, em grande parte, passavam pelo Peticionário, o Sr. Leonardo Serrano Giunchetti, na qualidade de gerente da Peticionária – com quem os clientes mais demandantes estabelecem um canal direto de comunicação, garantindo-se, assim, um atendimento contínuo e preciso às solicitações reportadas”, detalha a empresa.

 

A nata

Pressionado por seus pares, no STF, o ministro André Mendonça liberou o sigilo de novos documentos ligados às investigações do caso Master. Entre os procedimentos alcançados pela medida aparecem apurações relacionadas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ao governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), ao senador Jaques Wagner (PT-BA) e ao empresário Thiago Miranda.

A abertura do conteúdo revelou mais detalhes sobre a movimentação financeira de Vorcaro e sobre viagens internacionais que integram a apuração da PF. Entre os deslocamentos analisados aparecem uma passagem por Nova York, nos Estados Unidos, em maio de 2024, e uma viagem a Courchevel, na França, em janeiro de 2025.

A PF analisou uma viagem de Vorcaro a Nova York durante uma semana marcada pelo evento ‘Person of the Year’, promovido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. O senador Ciro Nogueira acompanhou o empresário no período. A Signature Luxury Services informa ter recebido a contratação para cuidar da logística da viagem, dos convidados e dos eventos relacionados à programação.

 

Premiação

“O objeto da contratação era organizar tudo para que seu cliente e seus convidados participassem tranquilamente do evento ‘Person of the Year’, concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, amplamente conhecido no meio empresarial. Era o momento certo para brilhar, antes da devastação que sofreria o frágil império do mineiro de Belo Horizonte.

Durante a semana da premiação, é costume de muitos empresários levar convidados e realizar, durante esta semana, diversos outros acontecimento, “pelos quais a Peticionária também ficou responsável”, acrescenta o relatório. A empresa declarou ainda que administrou pagamentos relativos às atividades organizadas durante a permanência do grupo nos Estados Unidos.

“Assim, no escopo do serviço então contratado, a Peticionária ficou responsável pela realização de pagamentos de despesas diversas atreladas ao contratante e seus convidados, todas discriminadas”, afirmou a empresa, que prestou informações detalhadas sobre os gastos.

 

Manhattan

Os investigadores levantaram que Ciro Nogueira ficou hospedado em um hotel de alto padrão e participou de jantares em estabelecimentos classificados pela investigação como de elevado padrão. Os dados levantados atribuem a Vorcaro o pagamento dessas despesas.

A Signature detalhou parte dos serviços vinculados ao período. “Dentre as referidas despesas, verifica-se: seguro-viagem; preparação de eventos com whiskey e charutos; a colocação à disposição de um time de viagem ‘in loco’ para auxiliar na preparação dos eventos de Nova York entre os dias 12 e 18 de maio; a produção, decoração e organização geral do evento dos dias 14 e 15 de maio; uma reserva no ‘The Carnegie Club’ e outros”, relatam os promotores.

Documentos avaliados pela PF registram ainda reservas feitas por Vorcaro no Park Hyatt New York, em Manhattan. A Signature confirmou a contratação relacionada à hospedagem.

 

Courchevel

Em janeiro de 2025, ainda no auge das operações fraudulentas, Vorcaro e Ciro Nogueira viajaram para Courchevel, nos Alpes franceses. A estação de esqui integra o conjunto de deslocamentos internacionais sob análise dos investigadores.

Segundo a PF, Vorcaro arcou com despesas do senador durante a viagem. A investigação inclui gastos com restaurantes e roupas para o frio entre os valores atribuídos ao ex-banqueiro.

A PF calcula que Ciro Nogueira recebeu ao menos R$ 468 mil em benefícios econômicos relacionados a viagens internacionais pagas por Vorcaro. O montante reúne despesas registradas em Nova York, Courchevel e outros deslocamentos analisados pelos investigadores.

 

Vantagens

Em representação enviada ao Supremo, a Polícia Federal afirmou que a relação entre Vorcaro e o senador tinha caráter “funcional e instrumental”. Segundo a linha de investigação apresentada pelos agentes, Ciro Nogueira atuaria em interesses ligados ao banqueiro ao mesmo tempo em que recebia vantagens financeiras e despesas custeadas por ele.

Mas o dinheiro não era infinito e, por mais que desviasse fundos com lastro no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o montante não era suficiente e o senador tinha a missão de elevar os limites para que o parceiro pudesse operar com alguma folga. Mas deu tudo errado. O Senado não aprovou a chamada ‘Emenda Master’ e o castelo de cartas perdeu, ali, seu principal esteio.

A liberação dos novos documentos pelo STF amplia o material disponível sobre as movimentações financeiras e as relações investigadas no caso Master. As informações do Coaf, da PF e da própria empresa de turismo entram para o processo como um dos principais agravantes na breve história do banqueiro falido, que viveu dias de glória inesquecíveis, que hoje lhe servem de consolo nas noites assustadoras de uma prisão que tende a ser muito longa, a permanecer o atual presidente no cargo. Ou breve, caso seus parceiros reassumam o poder no Palácio do Planalto.

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