Trump retoma a versão mais estridente do intervencionismo estadunidense, mas isso não significa que tenha abandonado as táticas mais veladas.
Por Thiago Rodrigues – de São Paulo
Uma das mais famosas reflexões de Karl Marx é aquela em que afirma, retomando Hegel, que fatos e personagens ocorrem duas vezes na história, a primeira como tragédia e a segunda como farsa. No caso do intervencionismo dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, foram muitas as ocorrências e, em todas elas, houve um tanto de tragédia e de farsa.

O que vimos na Venezuela neste início de 2026 afronta o direito internacional, humilha uma nação e torna a todo um continente refém dos Estados Unidos. No entanto, não há nada de especialmente novo no episódio da captura de Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores. O tal “corolário Trump” da Doutrina Monroe – como tem sido chamada a estratégia atual da Casa Branca para o continente americano – sequer inova nas desculpas para uma intervenção militar. As acusações que pesam contra Maduro são um remix de justificativas para intervenção criadas pelos EUA desde o final da Guerra Fria.
Dentre os muitos exemplos, existe o de Manuel Noriega que, em 1990, foi abduzido do Panamá por tropas estadunidenses após ser condenado à revelia na Florida por “narcotráfico”; o de Saddam Hussein, derrubado em 2003 por “dar apoio ao terrorismo” e por “ser ditador”; o dos “autocratas” nos Bálcãs ao Cáucaso que, entre os anos 1990 e 2000, foram removidos por revoluções coloridas decididamente fomentadas pela inteligência dos EUA e o da derrocada e assassinato de Muamar Gaddafi na Líbia em 2011, após intervenção da Otan impulsionada pelos EUA. Em todos esses casos, porém, o que de fato importava era remover um governante – usualmente, um antigo aliado – que já não favorecia os interesses econômicos e geopolíticos da hiperpotência.
O que sempre esteve em jogo para os EUA em todo o mundo, e na América Latina e no Caribe em especial, foi garantir regimes políticos e econômicos ajustados a tais interesses. Quando uma revolução social, um governo nacionalista ou um líder populista surgem colocando obstáculos, ou dificuldades, a ordem é mudar o regime. A expressão em inglês para isso – regime change –, muito presente nos estudos sobre política internacional, não é, também, uma novidade. Ao contrário, trata-se da essência da grande estratégia que orienta a política externa, diplomacia e geopolítica dos EUA no nosso continente e além desde o final do século XIX.
Cada “mudança de regime” instigada, conduzida ou financiada pelos EUA deixa um rastro de mortos, corpos torturados, desigualdades econômicas e legados autoritários difíceis de superar. Não obstante, na América Latina e no Caribe, essas mudanças não costumam acontecer sem alianças sólidas com forças econômicas e políticas dos países atingidos. Em geral, tais aliados são as elites nacionais, de origem colonial, apoiadas por frágeis classes médias e com a sustentação das forças armadas. Assim, uma intervenção dos EUA nunca é apenas culpa dos EUA.
A atual tragédia venezuelana vem, como sempre, emoldurada em justificativas farsescas que têm relação vaga e imprecisa com os “grandes valores” dos Estados Unidos: “liberdade”, “democracia”, “justiça” e “ordem”. Esses princípios são interpretados de forma diferente pelos muitos segmentos que compõem uma sociedade complexa como a estadunidense. A vitória retumbante de Trump nas últimas eleições indica que, na atualidade, preponderam as versões mais conservadoras, fundamentalistas, xenófobas e racistas dos “valores americanos”.
Para milhões de norte-americanos formados por dois séculos e meio de preconceitos contra povos originários, hispânicos e negros – combinados ao puritanismo religioso antidrogas e anticatólico – não é preciso esforço para convencer que presidentes de pele morena e organizações criminosas estrangeiras compostas por indígenas, negros e mestiços sejam grandes “impérios do mal” que ameaçam a vida dos estadunidenses.
Venezuela
A versão da farsa que legitima a intervenção na Venezuela é a “luta contra o narcoterrorismo”. Sabe-se, no entanto, que as motivações estratégicas são as mesmas de sempre – proteger o capitalismo americano –, os objetivos táticos têm a ver com o controle sobre a maior reserva de petróleo do mundo e sobre recursos amazônicos e que a metodologia é a velha “mudança de regime”.
Para reagir à nova onda intervencionista dos EUA, é preciso identificar esta atual versão da farsa porque, provavelmente, será ela a utilizada para empoderar as elites locais latino-americanas e caribenhas que se beneficiam com as migalhas do capitalismo estadunidense. Pensando no caso do Brasil, isso implica no esforço por desmontar convincentemente a narrativa da ultradireita de que existe narcoterrorismo no Brasil (já expliquei em outro texto por que isso é falso) e de que haveria uma “ditadura do STF”.
É pouco denunciar que os EUA usam de farsa para justificar a intervenção na Venezuela, pois é óbvio que a questão central está no petróleo, assim como se sabe que grandes carregamentos de cocaína não saem desse país para os EUA (e sim, para a Europa). As configurações e detalhes das farsas americanas se adaptam diante das circunstâncias, da época e dos casos concretos.
Há duas questões que são, de fato, importantes para nós latino-americanos: primeiro, ter bem claro que o objetivo constante de intervencionismo estadunidense é defender o seu capitalismo e, segundo, que a metodologia para isso se chama “mudança de regime”. Em termos históricos, o intervencionismo dos EUA não tem sido prioritariamente militar. Ele vem em formas menos explícitas quando apoia política e financeiramente elites golpistas, interfere em processos eleitorais, patrocina a militarização da segurança pública, estimula radicalizações ideológicas por meio de propaganda e inteligência, controla a imprensa e as mídias sociais, impulsiona a ruptura institucional e coopta magistrados, políticos, jornalistas, influencers, militares e pesquisadores.
Trump retoma a versão mais estridente do intervencionismo estadunidense, mas isso não significa que tenha abandonado as táticas mais veladas. As forças democráticas de países que têm eleições em 2026 – como o Brasil, Colômbia, Peru e Honduras – que fiquem muito atentas às novas farsas estadunidenses que buscarão impor outras tragédias.
Thiago Rodrigues, é Doutor em Relações Internacionais pela PUC-SP e Sorbonne Nouvelle e professor na Universidade Federal Fluminense (UFF).
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