Rio de Janeiro, 15 de Janeiro de 2026

Trump ameaça o Irã mas recua

Análise sobre a recente ameaça de Trump ao Irã e seu recuo diante da repressão violenta. O impacto das decisões políticas e a luta do povo iraniano por liberdade.

Quinta, 15 de Janeiro de 2026 às 16:48, por: Rui Martins

Vai haver um ataque dos EUA às instalações do governo iraniano e aos quartéis dos Guardiães da Revolução em represália à violenta repressão contra o povo, revoltado e pedindo o fim da ditadura teocrática islâmica, no poder desde 1979?

Talvez não, essa a impressão nesta quinta-feira. Trump teria se dado por satisfeito diante das notícias de que, segundo ele, “teria parado a matança no Irã e não seria executado nenhum preso”. Por sua pressão e ameaças ao Irã, é claro!

Trump ameaça o Irã mas recua | Ao que tudo indica, Trump recuou para evitar que o ataque ao Irã repetisse a guerra ao Iraque.
Ao que tudo indica, Trump recuou para evitar que o ataque ao Irã repetisse a guerra ao Iraque.

 

Na verdade, Trump teria recuado depois de avaliar o risco da resposta iraniana afetar a segurança das bases norte-americanas na região e comprometer sua imagem dentro dos EUA. Acabaria se transformando numa repetição da guerra contra o Iraque.

Ninguém precisa se iludir com a imagem de um Trump preocupado com a vida dos iranianos anti-Khamenei! Quase ao mesmo tempo seus guardiães do ICE, a polícia contra imigrantes, está espalhando o terror, numa menor escala, na cidade de Minneápolis, a maior cidade de Minnesota, depois do assassinato (também com tiros na cabeça como no Irã) de Renée Nicole Good, norte-americana mãe de três crianças, acusada de ser dona de casa terrorista! Sem esquecermos da ameaça de invasão da Groenlândia!

Nem sempre funciona o refrão “o povo unido derruba a ditadura”, principalmente quando não se tem armas diante de ferozes inimigos.

É válida uma ajuda externa? Aqui entra o argumento de que a queda do Xá Reza Pahlevi teve apoios, embora indiretos, da França, do Iraque, da União Soviética e de intelectuais de esquerda como Sartre, Simone de Beauvoir e Michel Foucault que, na luta contra o capitalismo e os EUA, não imaginavam estar incentivando o surgimento de uma ditadura religiosa retrógrada, no lugar da monarquia também ditatorial mas secular, modernista e pró-ocidente.

A monarquia do Xá procurava acentuar o passado persa do país, anterior ao islamismo, retirou parte das terras dos religosos e deu o direito de voto às mulheres, decisões mal vistas pelos religiosos. Embora o país crescesse com o petróleo e o aço, o regime do Xá favorecia as elites, enquanto o povo pobre se apegava ao islamismo e iria, mais tarde, preferir o aiatolá Khomeine ao país secularizado e ocidentalizado do Xá.

A chegada dos religosos ao poder, acabou criando uma nova casta, a dos molás, e o fanatismo islâmico levou ao financiamento dos movimentos extremos pela expansão do Islã, contra o Ocidente e contra Israel.

De acordo com o sociólogo francês Gilles Kepel, autor de uma vintena de livros, o equilíbrio no Oriente Médio foi rompido com o atentado terrorista do 7 de outubro, cometido pelo Hamas, financiado pelo Irã, que também financiava o Esbolá. A fuga do ditador sírio Bachar-al-Assad, mais o aniquilamento do Hamas e do Esbolá isolaram e enfraqueceram o Irã, acentuando sua crise econômica com maior inflação, causada também por sanções ocidentais em represália ao financiamento do terrorismo, e o povo, também descontente com o desvio do dinheiro do Irã para o financiamento de grupos terroristas, saiu às ruas.

A repressão tem sido sangrenta e violenta. Não se viu nenhuma tentativa de apaziguamento por parte da ditadura teocrática. Ao que se informa, os guardiães da revolução têm a ordem de balear os manifestantes na cabeça e o número de mortos, ainda incerto pela falta de Internet, varia de três mil a doze mil, enquanto se fala em 20 mil presos.

A maioria desses presos serão julgados rapidamente, sem advogado, e condenados, na maioria, à morte na forca, senão agora, dentro de alguns meses, como ocorreu com os manifestantes depois do assassinato da jovem curda Amina Mahsi.

Algumas referências:
Michel Foucault precursor do pós-colonialismo e do Sul Global?
https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/8841/9561

https://www.nouvelobs.com/idees/20180207.OBS1864/michel-foucault-l-iran-et-le-pouvoir-du-spirituel-l-entretien-inedit-de-1979.html

Gilles Kepel

José Arbex e sua visão sem falar farsi, deixei um comentário

France 24
https://www.rfi.fr/fr/moyen-orient/20260114-en-direct-iran-le-bilan-de-la-r%C3%A9pression-s-%C3%A9l%C3%A8ve-%C3%A0-plus-de-2500-morts-selon-une-ong

Socióloga Manhaz Shirali franco-iraniana

UOL – atriz iraniana Khazar Masoumi, o que a esquerda não vê
https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=Uol+Crise+no+Ir%C3%A3%3A+vieos+s%C3%A3o+bem+menores%2C+atriz+khazar+Masoumi#fpstate=ive&vld=cid:a88ff0ee,vid:6tYxszYzcWQ,st:0

No 247
https://www.brasil247.com/blog/ira-sob-cerco-crise-interna-guerra-hibrida-e-o-retorno-do-imperialismo#google_vignette

Cinema iraniano

Irã, um cinema sob censura teocrática

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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