Rio de Janeiro, 17 de Abril de 2026

A derrota de Orbán e suas consequências

Explore as implicações da derrota de Viktor Orbán, seu impacto na política europeia e as lições para o Brasil e o mundo.

Quinta, 16 de Abril de 2026 às 21:55, por: Rui Martins

O que mudou no tabuleiro europeu e internacional com a derrota de Victor Orbán? Quem saiu perdendo foi a Rússia de Putin, quem saiu ganhando foi a Otan e por tabela o presidente Zelensky da Ucrânia. Sobrou até um pouco dessa derrota para o vice-presidente norte-americano J D Vance, que foi a Budapeste dar apoio a Orbán, e para Donald Trump e seu MAGA. O autocrata Trump jogou no conservador anti-europeu pró-Rússia e perdeu. Para a Rússia, ficou a mensagem de que os húngaros se reconhecem dentro da União Europeia.

Por Rui Martins, editor do Direto da Redação
A derrota de Orbán e suas consequências | A derrota de Orbán pode ter deixado Trump de sobreaviso
A derrota de Orbán pode ter deixado Trump de sobreaviso

Seria um primeiro recado para Trump, antes das eleições de novembro, nas quais os democratas poderão recuperar a maioria na Câmara e no Senado?

Até onde irão as vagas da maré alta contra o extremista de direita, homofóbico, racista e antissemita Orbán, fragorosamente derrotado?

Até a Paris já chegaram, encharcando o partido da extrema direita de Marine Le Pen e levantando uma dúvida – chegou ao fim o crescimento e a expansão da extrema-direita? Orbán não poderá beber uma taça de champagne com Marine Le Pen como prometera. Vai sobrar também para Milei na Argentina? Chegará também com força no Brasi,l diminuindo a força e expansão do populismo religioso de extrema-direita ou aqui serão só marolas?

Ainda é cedo para avaliações corretas, mas a Europa do francês Macron, do alemão Merz e da presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen saiu reforçada. Orbán mantinha uma duvidosa aproximação com a Rússia e sua derrota depois de 16 anos de governo, significa, como disse Van der Leyen, que “a Hungria escolheu ou optou pela Europa”.

De nada adiantou a campanha governamental de Orbán acusando Peter Magyar, o vencedor, como “marionete de Kiev e Bruxelas”. Mas isso tem um custo: Magyar anunciou, no seu discurso de posse, que irá suspender os programas de informação audiovisuais tão logo assuma como primeiro-ministro.

A derrota fragorosa do temido Orbán deixou claro não ser tão importante o risco de uma intervenção norte-americana nas eleições brasileiras de outubro. De nada adiantou o apoio declarado de Trump nem a presença do vice-presidente Vance às vésperas das eleições.

Se Flávio recorrer ao MAGA e ao apoio de Trump poderá ver o eleitorado brasileiro reagir como o eleitorado húngaro.

Não se pode esquecer que houve a tentativa indireta russa de influir no voto do eleitorado húngaro. Ou seja, Putin, assim como Trump e certamente por outros motivos, preferia a vitória de Orbán. Por sua vez, Orbán mantinha contatos com o Kremlin, e foram divulgadas conversas de seus ministros com o ministro russo Sergei Lavrov.

Mas não pode também esquecer um pormenor brasileiro nessa história húngara ou magiar (lembrando o sobrenome do novo primeiro-ministro húngaro): o ex-presidente Jair Bolsonaro dormiu duas noites na embaixada húngara em Brasília, em 2024, durante o Carnaval, num ensaio de tentativa de fuga, revelado pela imprensa. Bolsonaro imaginava, nesse momento, se refugiar na embaixada da Hungria, para escapar ao processo que o levou à prisão.

Bolsonaro podia contar com o apoio de Viktor Orbán, segundo o qual “a definição mais adequada de democracia cristã moderna pode ser encontrada no Brasil, não na Europa”. Quando ainda presidente, Bolsonaro visitou a Hungria em 2022, e declarou para a imprensa considerar Orbán como um irmão. Realmente, ambos têm um ponto comum, são próximos de Israel e Netanyahu, com uma diferença: Orban é antissemita.

O Esquerda Online, órgão do PSol, num texto publicado antes das eleições húngaras, com foto mostrando juntos Orbán e Bolsonaro, tem por título Hungria: Trump e Putin unidos em defesa do fascismo.

Esse texto é duramente criticado pela extrema esquerda do PCO, Partido da Causa Operária, talvez o único, no Brasil, a apoiar Orbán, criticando Esquerda Online como “falência da esquerda pequeno-burguesa, que passa de armas e bagagem para o lado da democracia liberal, mais conhecida como imperialismo”.

Referências:

Le Monde

https://www.lemonde.fr/international/article/2026/04/14/en-hongrie-une-nouvelle-ere-commence-au-lendemain-de-la-defaite-de-viktor-orban_6679874_3210.html

https://www.lemonde.fr/politique/article/2026/04/13/elections-en-hongrie-avec-la-defaite-de-viktor-orban-le-rn-perd-un-allie-prestigieux-et-un-pion-important-a-bruxelles_6679674_823448.html

L’Express

https://www.lexpress.fr/monde/europe/ce-que-la-chute-de-viktor-orban-va-changer-pour-leurope-6GUAOA23TRGBFLOPGRZVJYPUUU/

L’Humanité

https://www.humanite.fr/monde/hongrie/comment-viktor-orban-a-renforce-les-divisions-dans-lunion-europeenne

Deutsche Welle

https://www.dw.com/pt-br/viktor-orb%C3%A1n-e-o-antissemitismo/a-55966575

Le Temps

https://www.letemps.ch/opinions/editoriaux/viktor-orban-evince-le-plus-dur-reste-a-faire-en-hongrie?srsltid=AfmBOooVwl8wg_ktgkhnyiHn2v3d5uxfwDmLtWl6loI6ez7bIKljfFfR

Esquerda online

https://esquerdaonline.com.br/2026/04/09/hungria-putin-e-trump-unidos-em-defesa-do-fascismo/

Causa Operária

https://causaoperaria.org.br/2026/psol-assume-apoio-ao-imperialismo-democratico/

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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