A União Europeia vive mais um momento de tensão interna em meio à escalada do conflito no Oriente Médio.
Por Redação, com RFI – de Bruxelas
Tensão com os Estados Unidos, divisões internas e risco de crise energética desafiam a coesão política e estratégica do bloco europeu diante do conflito com o Irã.

A União Europeia vive mais um momento de tensão interna em meio à escalada do conflito no Oriente Médio. A crise diplomática entre o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou uma reação em cadeia em Bruxelas e reacendeu o debate sobre a posição do bloco diante da guerra com o Irã.
Inicialmente, a Espanha se viu relativamente isolada ao adotar uma postura firme contra as ações de Israel e dos Estados Unidos no território iraniano. A recusa de Madri em disponibilizar suas bases aéreas para operações norte-americanas levou Trump a ameaçar “encerrar” as relações comerciais entre os dois países.
Não está claro o que essa intimidação significaria na prática, mas a resposta europeia foi imediata. A Comissão Europeia divulgou comunicado expressando solidariedade à Espanha e lembrando que, por meio da política comercial comum, está pronta para agir em defesa dos interesses do bloco.
O presidente francês, Emmanuel Macron, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, também conversaram com Sánchez para reiterar apoio político.
No Parlamento Europeu, no entanto, a divisão ficou evidente. Partidos de esquerda tentaram incluir na próxima semana plenária em Estrasburgo um debate intitulado “Ameaças e sanções dos EUA contra a Espanha”, mas a coalizão de legendas de direita bloqueou a proposta.
Espanha isolada
No campo diplomático, a Espanha permanece praticamente sozinha na oposição aberta à guerra. Já o eixo formado por Alemanha, França e Reino Unido tem adotado uma linha mais calculada.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, esteve na Casa Branca e presenciou, em silêncio, as ameaças de Trump ao governo espanhol. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, recusou-se inicialmente a participar dos ataques, mas acabou permitindo o uso de bases britânicas pelos Estados Unidos. Trump chegou a ironizá-lo publicamente, afirmando que Starmer “não é nenhum Churchill”.
Esse mesmo eixo condenou a retaliação iraniana e reiterou críticas ao regime de Teerã, sem endossar explicitamente os bombardeios norte-americanos e israelenses. A cautela reflete um dilema político: apoiar as ações de Trump e do primeiro-ministro israelense poderia ser interpretado como desrespeito ao direito internacional, princípio historicamente defendido pela União Europeia.
Ao mesmo tempo, Washington continua sendo parceiro central para a defesa europeia por meio da Otan, o que limita a margem de manobra dos governos do bloco.
Portugal também se posicionou de forma distinta da Espanha. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou apoio a Trump e autorizou o uso da base aérea de Lajes, nos Açores, pelas forças norte-americanas.
Von der Leyen
No alto escalão europeu, a crise também provocou movimentos inesperados. Pela primeira vez, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, manifestou-se a favor de uma mudança de regime no Irã, posição não endossada unanimemente pelos 27 Estados-membros.
A declaração causou surpresa porque, formalmente, a política externa da União Europeia é conduzida pela chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa. Ao assumir essa posição, Von der Leyen foi acusada por opositores no Parlamento de extrapolar suas competências e tentar ampliar sua esfera de poder.
O debate vai além da disputa institucional. Uma escalada prolongada pode elevar novamente os preços da energia, algo que já afetou duramente o continente após a invasão russa na Ucrânia. Também há receio de um novo fluxo de refugiados e de um desvio de foco num momento em que a prioridade estratégica europeia segue sendo o apoio a Kiev.
Por enquanto, a Comissão Europeia afirma que não há impacto imediato na segurança do abastecimento e não prevê medidas emergenciais.
Chipre
A situação se agravou com o ataque iraniano a uma base britânica no Chipre, país que integra a União Europeia e atualmente ocupa a presidência rotativa do Conselho da UE. Embora membro do bloco, o Chipre não faz parte da Otan. Caso queira acionar um mecanismo de defesa coletiva, teria de recorrer ao artigo 42.7 do tratado europeu.
Grécia, França e Reino Unido já reforçaram a segurança na região, e Alemanha e Itália devem seguir o mesmo caminho.
No âmbito da Otan, a Turquia informou que as defesas aéreas da aliança interceptaram um míssil iraniano direcionado ao seu espaço aéreo. A Polônia declarou que Teerã comete um erro ao estender a guerra a países que não o atacaram.
Do lado iraniano, o governo afirma que qualquer participação direta da Europa no conflito terá resposta imediata.