Exposição retrata impactos da exploração do lítio no Vale do Jequitinhonha sobre comunidades e meio ambiente.
Por Redação – do Rio de Janeiro
O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan), no Catete (RJ), convida o público para a abertura da exposição Zona de Sacrifício: do ouro ao pó, no próximo dia 2 de julho, às 18h, na Galeria Mestre Vitalino. Primeira exposição da fotógrafa e documentarista mineira Isis Medeiros no Rio, trata-se de um projeto autoral de longa duração, fomentado pelo Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia (17ª edição). O projeto se desdobra em fotografia documental, audiovisual, pesquisa, escuta de territórios e uma exposição itinerante. No dia da abertura será exibido o documentário Chico, de Augusto Gomes e Isis Medeiros, sobre os impactos humanos, ambientais e afetivos desse novo ciclo extrativista. A partir da perspectiva de Chico do Poço das Antas, o filme registra os acontecimentos no Vale do Jequitinhonha – o nordeste de Minas Gerais detém 85% do lítio no Brasil. O lítio é o mineral essencial na fabricação de baterias para carros elétricos, celulares e sistemas de armazenamento de energia.

Para trazer a dimensão do panorama amplamente documentado na exposição, dia 3 de julho, às 16h, ocorre a Roda de Confluências com a participação de Ana Carolina Nascimento (Antropóloga, coordenadora técnica de pesquisa e projetos especiais do CNFCP), Sandra Benites (Funarte) Chico (liderança comunitária de Piauí Poço Dantas, de Itinga – MG), Tatiana da Costa Sena (IFNMG) e Helena Taliberti (ICLT). A mediação é de Gabriela Sarmet (cosmopolíticas). As inscrições para a roda podem ser feitas pelo link a seguir:
Conhecido pela importante tradição de ceramistas, o Vale do Jequitinhonha está amplamente representado no acervo do Museu de Folclore Edison Carneiro. Por isso, algumas peças do museu fazem parte da mostra, conectando saberes da cultura popular ao contexto documental.
Zona de Sacrifício: do ouro ao pó propõe ampliar o debate público sobre o modelo de desenvolvimento baseado na extração intensiva. Questiona como a promessa de uma economia “verde” convive, na prática, com a degradação ambiental, a pressão sobre recursos hídricos e as ameaças aos modos de vida de comunidades rurais e tradicionais. O país ocupa atualmente o 6º lugar no ranking mundial de reservas do mineral, considerado estratégico para a transição energética global. “Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto o avanço da mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha, um território que aprendi a amar profundamente por sua cultura, pelas pessoas e pela força das comunidades que vivem ali”, analisa Isis Medeiros. Ao documentar e atualizar a forma como atuam as mineradoras, a artista demonstra na exposição as inquietações de seu trabalho. “O que me inquieta é a forma dessa nova corrida mineral ser apresentada como parte de uma ‘transição energética verde’, enquanto no território o que aparece são poeira, explosões, pressão sobre a água e impactos diretos na vida das pessoas. Isso levanta perguntas inevitáveis: mineração sustentável para quem? Mineração verde para quem? Como falar em mineração verde quando ela deixa rastros tão visíveis de destruição ambiental e de ameaça aos modos de vida locais? Esta exposição nasce dessa inquietação e da necessidade de tornar visíveis histórias e conflitos que muitas vezes permanecem invisíveis para o restante do país”, define Isis Medeiros.

Zona de sacrifício – O projeto fundamenta-se no conceito de “zonas de sacrifício” — áreas onde a exploração econômica é priorizada em detrimento da vida e do meio ambiente. Historicamente marcado por ciclos que vão do ouro ao diamante, o Vale do Jequitinhonha reencontra-se no centro de uma disputa global. Já são dois anos de trabalho permanente, tendo como base Araçuaí e Itinga, dois dos 54 municípios do Vale do Jequitinhonha atingidos pela mineração. No início do ano, a mostra teve uma primeira exibição no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), em Araçuaí. De acordo com Rafael Barros, o diretor do CNFCP, o trabalho de Isis Medeiros é fundamental sob vários aspectos. “É um trabalho sensível, possível de ser realizado graças à cumplicidade e proximidade entre a artista e as comunidades tradicionais do Vale do Jequitinhonha. Essas comunidades enfrentam a sanha predatória da exploração do lítio, que fere de morte os seus saberes e seus conhecimentos, além de sua dinâmica existencial inserida nesse território, de valor imensurável para a cultura popular brasileira”, enfatiza.
Segundo a curadora Carol Lopes, a prática fotográfica de Isis Medeiros “se constrói na criação de redes e no tempo partilhado”. “Esse gesto se materializa no encontro entre sua pesquisa, saberes cultivados pelos mais velhos e as vozes da juventude do Vale. Em suas fotografias, a paisagem se revela em camadas. À noite, o ruído das máquinas e a iluminação das mineradoras anunciam uma presença perturbadora. Durante o dia, emergem montanhas de rejeitos, crateras no solo e o pó que adoece e a proximidade entre a atividade e a vida cotidiana. Entre luz e sombra, a exposição torna visíveis os saberes que sustentam o território e as marcas da transformação. As obras aproximam o público de uma cosmologia em que gente, bicho, água e terra são parte de uma mesma trama. Zona de Sacrifício: do ouro ao pó desloca a discussão para além das falsas promessas de progresso. Entre explosões e fissuras na paisagem, o presente do Vale permanece em suspensão. O conjunto reunido na exposição atesta que, contra todas as forças que insistem em reduzi-lo a um recurso perecível, o Jequitinhonha pulsa resistência. Seu povo segue atravessando as contradições deste tempo e reafirmando seu direito de imaginar, narrar e decidir futuros possíveis.”
Sobre a autora
Isis Medeiros é fotógrafa documental, fotojornalista e realizadora audiovisual brasileira, com trajetória profundamente ligada aos movimentos sociais populares. Investiga violações de direitos humanos, crimes ambientais e os impactos de grandes empreendimentos sobre comunidades tradicionais e populações historicamente marginalizadas. Entrelaça arte, política e memória coletiva, as narrativas obtêm forte impacto social. É autora do fotolivro “15:30” (2020), leitura sensível do desastre-crime provocado pelo rompimento da barragem da Samarco/Vale-BHP em Mariana (MG). O trabalho integra os acervos do MASP, da Biblioteca Nacional da França (BnF) e do Instituto Moreira Salles (IMS). Idealizou a premiada série “Mulheres Cabulosas da História”, que lhe rendeu a Medalha Clara Zetkin.
Realização:
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP-Iphan)
Apoio:
Instituto Federal Norte de Minas Gerais
Cáritas Diocesana Araçuaí
Instituto Camila e Luiz Taliberti
Movimento pela Soberania Popular na Mineração
Observatório da Mineração
cosmopolíticas
Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro
Artmosphere
Fundação Nacional de Artes
Serviço:
Zona de Sacrifício: do ouro ao pó
Inauguração: 2 de julho, às 18h
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – Rua do Catete, 179
Galeria Mestre Vitalino – Museu de Folclore Edison Carneiro. Visitação: 2 de julho a 1º de novembro de 2026. Terça a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. Grátis
Programação complementar à exposição:
No dia da abertura: projeção do filme Chico – 10 (fotografia de Augusto Gomes e Isis Medeiros)
Dia 3 de julho: 16h
Roda de Confluências com a participação de Ana Carolina Nascimento (CNFCP), Sandra Benites (Funarte) Chico (liderança comunitária de Piauí Poço Dantas, de Itinga – MG)), Tatiana da Costa Sena (IFNMG) e Helena Taliberti (ICLT) – Mediação: Gabriela Sarmet (cosmopolíticas)