Nascido sob o impacto da pandemia, o álbum dá novo significado à ideia de isolamento em uma potente celebração das sonoridades afrodiaspóricas.
Por Redação, com CartaCapital – de São Paulo
Anaïs Sylla acabava de desembarcar no Brasil após uma viagem transformadora ao Senegal ao lado do avô quando começou a desenhar as composições de seu novo trabalho. Pouco tempo depois de ela retornar da África, no entanto, o mundo foi atingido pela pandemia de covid-19, que impôs o confinamento e o distanciamento social.

Em vez de paralisar, a artista deu um novo significado ao momento: transformou a ideia de isolamento em um espaço de comunhão e travessia. Foi dessa vivência que nasceu a decisão de costurar no repertório influências de Senegal, Mali, Caribe e Brasil, entrelaçando as geografias sonoras à sua própria biografia.
O resultado é Exil — palavra francesa para “exílio” —, um álbum afro-brasileiro potente e autêntico, cantado em português e francês. Franco-senegalesa radicada no Brasil há uma década, Anaïs transita com naturalidade pelas fronteiras que habitam sua arte: do Senegal, resgatou os cantos tradicionais; do Mali, os violões cadenciados; do Caribe e do Brasil, absorveu a pulsação da afrodiáspora.
– É uma pesquisa atlântica, com esse contato com o norte da África, minha herança musical – explica Anaïs em entrevista ao programa Sobre Tom, de CartaCapital.
Parcerias
Exil reúne um elenco expressivo da cena contemporânea. Jota.pê divide os microfones em Rêver, faixa composta a seis mãos por ele, Anaïs e Caê Rolfsen. Com Tiganá Santana, a artista apresenta uma releitura refinada de uma obra do mestre malinês Boubacar Traoré.
Já em Minha Irmã, parceria assinada com Anelis Assumpção, as duas artistas compartilham os vocais em uma faixa que conta ainda com o vocalize da cantora espanhola Irene Atienza.
Ao refletir sobre sua caminhada, Anaïs celebra os laços que construiu em solo brasileiro e diz que teve sorte de se conectar a grandes nomes da música do país. “Fui muito bem acolhida”, afirma.
A artista lançou seu primeiro trabalho em 2018, ao lado do produtor paulista Tó Brandileone, e ostenta em sua bagagem grandes atuações nos palcos — entre elas, a de backing vocal do genial João Donato, experiência que guarda como um dos maiores orgulhos de sua trajetória.