O presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, solicitou nesta quarta-feira que as forças de segurança não ataquem os manifestantes.
Por Redação, com RFI – de Teerã
No Irã, as manifestações começaram no mês passado, impulsionadas inicialmente por comerciantes do Grande Bazar de Teerã, que protestavam contra a queda da moeda local. Os protestos se ampliaram e ganharam caráter político, envolvendo estudantes e cidades do interior, onde alguns manifestantes passaram a entoar slogans contra os líderes religiosos do país.

O presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, solicitou nesta quarta-feira que as forças de segurança não ataquem os manifestantes.
Na segunda-feira, confrontos eclodiram no Grande Bazar de Teerã, considerado o coração econômico da capital, e em diversas cidades do interior. O protesto inicial reuniu várias centenas de pessoas em frente a uma das entradas do bazar. A polícia anti-motim interveio rapidamente, lançando gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Pouco depois, novos protestos surgiram no bairro do bazar e em outros pontos da cidade, desta vez com milhares de participantes.
As forças de segurança voltaram a usar gás lacrimogêneo, e uma das granadas acabou caindo dentro de um hospital, provocando intensa repercussão e indignação nas redes sociais.
Manifestações se espalham pelo interior
Nos dias seguintes, os protestos se ampliaram para cidades do interior, com mobilizações maiores do que nos dias anteriores. Na pequena cidade de Abdanan, na fronteira com o Iraque, que tem cerca de 25 mil habitantes, milhares de pessoas saíram às ruas. Vídeos mostram a multidão passando em frente a um comissariado de polícia, onde os agentes se refugiaram no telhado do prédio, acenando para os manifestantes. Durante os protestos, bancos e prédios públicos foram incendiados.
Na manhã de quarta-feira, o chefe da polícia iraniana reafirmou que as forças de segurança agirão contra os responsáveis pelos distúrbios e garantiu que a ordem será restabelecida.
Autoridades pedem que haja distinção entre manifestantes e “baderneiros”
O presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, pediu que as forças de segurança não adotassem medidas contra os manifestantes pacíficos, fazendo distinção clara com os chamados “baderneiros”, segundo a agência de notícias Mehr na manhã desta quarta.
O chefe do sistema judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, afirmou que não haverá clemência para quem ajuda o inimigo contra a República Islâmica, em referência ao apoio de Israel e Estados Unidos aos protestos, e condenou os saques e atos de vandalismo ocorridos em algumas cidades.
Oposição internacional e ameaças externas
O Irã considera uma ameaça as declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sobre os protestos. O general Amir Hatami, chefe do exército iraniano, disse à agência Fars que o país não tolerará provocações externas e vê a escalada da retórica de inimigos como uma ameaça à nação iraniana.
Nos últimos dias, Trump ameaçou intervenção militar caso manifestantes fossem mortos, e Netanyahu declarou apoio aos protestos. Em resposta, o regime iraniano alertou que não haverá indulgência para quem ajudar inimigos da República Islâmica e acusou Estados Unidos e Israel de métodos híbridos para desestabilizar o país. O guia supremo iraniano, Ali Khamenei, declarou que o país não cederá às pressões externas.
Entre mortos, presos e feridos
Segundo a organização curda de direitos humanos Hengaw, pelo menos 27 pessoas foram mortas nos primeiros 10 dias de protestos, com 1,5 mil prisões registradas. Já a rede de ativistas HRANA reporta 36 mortos e mais de 2 mil detidos. À agência inglesa de notícias Reuters não conseguiu verificar de forma independente esses números.
As autoridades iranianas não divulgaram um balanço oficial, mas relataram a morte de dois membros dos serviços de segurança. Os confrontos mais violentos ocorreram no oeste do país, regiões historicamente marginalizadas economicamente e sob vigilância reforçada devido a protestos anteriores.
Protestos e repressão no oeste e leste do país
De acordo com Hengaw, ao menos 20 manifestantes foram mortos desde o início das manifestações em Ilam, Lorestan, Kermanshah, Fars, Chaharmahal e Bakhtiari, e Hamadan. Novos protestos ocorreram na noite de terça para quarta-feira na província de Ilam.
Em Abdanan, uma multidão expressiva se reuniu na noite de terça-feira, gritando slogans contra Ali Khamenei, conforme vídeo publicado no Telegram pelo canal Nistemanijoan, com mais de 180 mil seguidores. A agência semi-oficial Tasnim informou que cerca de 300 pessoas participaram pacificamente de protestos na mesma cidade, entoando slogans anti-governo, antes de serem dispersadas pela polícia.
Outro veículo iraniano, Mehr News, registrou que manifestantes saquearam uma mercearia, levando sacos de arroz, um produto impactado pela inflação que tornou os alimentos básicos cada vez mais inacessíveis para grande parte da população.