Implantação de grupamento formado por guardas municipais visa enfrentar irregularidades que agravam congestionamentos e colocam motoristas e pedestres em risco.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
O avanço da desordem no trânsito do Rio de Janeiro tem se tornado um dos maiores desafios urbanos da cidade, informa reportagem do diário conservador carioca O Globo. De caminhões estacionados em canteiros centrais a motocicletas circulando na contramão, passando por carros parados em locais proibidos e bloqueios constantes de cruzamentos, os problemas se multiplicam de Norte a Sul e ajudam a explicar o aumento dos acidentes registrado este ano.

Dados do Corpo de Bombeiros mostram que, entre janeiro e maio de 2026, foram contabilizados 13.383 acidentes de trânsito na capital fluminense. No mesmo período do ano passado, o número havia sido de 12.342 ocorrências.
Diante desse cenário, a prefeitura do Rio pretende criar até o fim deste ano a Força Municipal de Trânsito, um novo grupamento da Guarda Municipal voltado à fiscalização e organização da circulação viária. A iniciativa integra o chamado Acordo de Resultados, publicado pelo Executivo municipal em maio.
Enquanto a nova estrutura ainda está em fase de planejamento, especialistas, moradores e representantes da sociedade civil já discutem quais deverão ser suas prioridades diante da crescente sensação de ausência de fiscalização nas ruas da cidade.
O comandante da Guarda Municipal, inspetor-geral Itaharassi Bomfim Junior, afirma que os detalhes operacionais da nova força ainda estão sendo definidos.
– Ainda estamos na fase de planejamento e todas as informações serão divulgadas no edital que estamos preparando. Só posso adiantar que a Força Municipal de Trânsito será 100% composta por guardas municipais – afirma ao Globo.
Entre os pontos ainda em análise estão o tamanho do efetivo, a forma de atuação e até a possibilidade de utilização de armamentos, nos moldes da Força Municipal, divisão de elite da Guarda que atua em ações de patrulhamento ostensivo.
A criação do novo grupamento ocorre em um momento em que o trânsito da cidade passa por profundas transformações, especialmente com o crescimento acelerado do número de motocicletas utilizadas por aplicativos de entrega e transporte.
Motos e bicicletas elétricas no centro do debate.
Presidente da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara Municipal, o vereador Pedro Duarte considera que a nova força deve concentrar esforços nos veículos que mais cresceram nos últimos anos.
– Sei que a nova força ainda está sendo formatada, mas entendo que o seu foco principal deveria ser as motos, os autopropelidos e as bicicletas elétricas. Temos, hoje, uma quantidade absurda de motos de aplicativos. É uma nova dinâmica, e precisamos ter guardas que passem por um processo de seleção e sejam treinados para lidar com o aumento desses novos modelos, que têm impacto nos acidentes e no atendimento nas unidades de saúde.
O aumento da circulação desses veículos vem gerando reclamações frequentes de moradores e pedestres, principalmente por conta do tráfego em calçadas, circulação na contramão e desrespeito à sinalização.
Para especialistas, entretanto, os desafios vão além desse universo.
O engenheiro de transportes e professor da UERJ Leandro da Rocha Vaz avalia que a fiscalização precisa ser abrangente.
– É preciso fiscalização para que a situação melhore.
Segundo ele, a atuação do novo grupamento deveria contemplar desde o combate ao estacionamento irregular até o controle de ônibus que não param nos pontos, motoristas que avançam sinais e até pedestres que insistem em atravessar fora da faixa.
Já o engenheiro José Eugenio Leal, professor da PUC-Rio, considera que o problema principal não é a falta de uma nova estrutura, mas a redução da presença de agentes nas ruas.
– O que precisa é botar os guardas para trabalhar no trânsito como faziam no passado. A Guarda poderia, em alguns casos, fazer convênios com a PM para dividir tarefas. Mas o fato é que, a partir da pandemia, os guardas praticamente deixaram de atuar no trânsito, que está caótico. As pessoas fazem o que querem.
Irregularidades
Em diversos bairros, moradores relatam uma rotina marcada por congestionamentos, estacionamento irregular e falta de fiscalização.
Na Rua do Riachuelo, no Centro, veículos estacionados em fila dupla, ocupação indevida de pontos de ônibus e vagas destinadas a idosos e pessoas com deficiência são situações recorrentes.
Moradora da região, a fisioterapeuta Gisele Magalhães aponta que a ausência de fiscalização permanente agrava os transtornos.
– A fiscalização tem que ser constante. Não adianta fiscalizar e ir embora. Tem lugar delimitado na rua para aguardar vaga no estacionamento do supermercado. Só que os carros extrapolam essa fila. Há também os veículos de frete que param do lado direito e na Ladeira do Castro, esperando passageiros com compras. É engarrafamento o dia inteiro. A Riachuelo é uma rua estreita, com muito comércio. Falta organização e ter horário para carga e descarga – afirma.
A professora aposentada Ângela da Silva Fernandes Gonzales, que mora na região há décadas, também reclama da situação.
– É preciso pôr ordem na rua. Temos dois supermercados próximos um do outro, hotel, academia, restaurantes, muitos prédios… O condomínio Cores da Lapa é uma cidade, com mais de 600 apartamentos. Você chama carro de aplicativo que leva meia hora para chegar.
Outra moradora histórica da via, Vera Lúcia Cruz Muniz, destaca problemas causados pela alteração de um ponto de ônibus.
– Onde paravam ônibus regulares, agora estacionam ônibus de turismo. E é no meio da rua, porque não há baia.
Zona Sul
Na Zona Sul, as reclamações também são frequentes.
Na Praia de Botafogo e no Aterro do Flamengo, caminhões estacionados sobre canteiros e veículos realizando manobras irregulares afetam a fluidez do trânsito.
A presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Chiarádia, relata que a situação se tornou rotineira.
“Há dias que o canteiro fica lotado de caminhões de mudança, de frete, de seguradora, no trecho entre a Fundação Getulio Vargas e a Rua Marquês de Abrantes.”
Ela também aponta a falta de fiscalização como um dos principais problemas.
– Se você não tem guarda de trânsito, furam sinais, estacionam onde querem… Motos trafegam em cima da calçada, e motoristas perto de escolas bloqueiam ruas e não deixam ninguém passar.
Motoristas que circulam pela região também relatam dificuldades constantes.
– Não tem um guarda para organizar o trânsito nesse ponto crítico – afirma o motorista de aplicativo José Carlos da Silva Neto, referindo-se ao congestionamento provocado por veículos que deixam a Praia de Botafogo em direção à Rua Farani.
Em Copacabana, moradores apontam a falta de agentes em cruzamentos considerados estratégicos.
– Mal se consegue ver agentes de trânsito nos principais cruzamentos do bairro. Dessa forma, o trânsito fica praticamente largado à própria sorte – ressalta o presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horário Magalhães.
Estacionamento
O estacionamento em locais proibidos aparece como a principal queixa da população junto aos canais oficiais da prefeitura.
Dados da central 1746 mostram que, entre janeiro e maio deste ano, foram registrados 79.947 pedidos de fiscalização relacionados a estacionamento irregular.
Em avenidas importantes de Copacabana, veículos parados nas faixas de circulação reduzem significativamente a capacidade viária e aumentam os congestionamentos.
A situação também se repete em outras regiões da cidade. Na Zona Norte, por exemplo, carros ocupam calçadas e vias proibidas, enquanto trailers instalados sobre faixas de rolamento dificultam a circulação de veículos em bairros como Irajá.
Força Municipal já acumula centenas de prisões.
Enquanto a Força Municipal de Trânsito ainda está em fase de estruturação, a Força Municipal armada, criada para atuar no combate a crimes urbanos, segue ampliando sua presença em diferentes regiões da cidade.
A divisão iniciou suas operações em março, atuando inicialmente no entorno da Rodoviária do Rio, Terminal Gentileza, Estação Leopoldina e Jardim de Alah.
Atualmente, cerca de 600 agentes integram o grupamento, que também passou a atuar em áreas como Tijuca, Méier, Cachambi, Campo Grande, Botafogo, Flamengo e Bangu.
Segundo dados da Guarda Municipal, desde o início das operações foram realizadas mais de 5.731 abordagens, resultando em 751 prisões.
Nesse período, os agentes recuperaram 131 celulares, 128 motocicletas, 19 bicicletas e 15 cordões roubados. Também foram apreendidos uma pistola, cinco réplicas de arma de fogo e 41 armas brancas.