Rio de Janeiro, 02 de Outubro de 2026

A motosserra de Milei e a bomba que o bolsonarismo prepara para o Brasil

Por Luciano Rezende Moreira – Equipe econômica de Flávio Bolsonaro apresenta a experiência de Javier Milei como referência para o Brasil, com redução do Estado, desregulamentação e revisão de normas.

Sexta, 02 de Outubro de 2026 às 09:24, por: CdB

Equipe econômica de Flávio Bolsonaro apresenta a experiência de Javier Milei como referência para o Brasil, com redução do Estado, desregulamentação e revisão de normas.

Por Luciano Rezende Moreira – de Brasília

Os números mais recentes sobre a Argentina deveriam servir como alerta para aqueles que pretendem apresentar o governo de Milei como modelo para o Brasil. No primeiro semestre de 2026, 32,3% da população argentina encontrava-se abaixo da linha da pobreza e 7,5% estava em situação de indigência, segundo dados oficiais. A pobreza havia chegado a 28,2% no segundo semestre de 2025. No segundo trimestre deste ano, a taxa de desemprego alcançou 7,9%, enquanto a produção industrial manufatureira acumulou queda de 5% em julho, na comparação anual.

A motosserra é o principal símbolo político de Javier Milei e representa sua promessa de corte radical nos gastos públicos

São números suficientemente graves para que qualquer proposta de importar para o Brasil a experiência argentina seja vista como enorme preocupação. E não estamos falando aqui de números produzidos por adversários de Javier Milei. São os números oficiais do próprio Estado argentino, divulgados pelo organismo responsável pelas estatísticas nacionais.

É justamente essa outra Argentina que precisa ser conhecida pelos brasileiros antes que se aceite a ideia de que Javier Milei representa um exemplo a ser seguido. Porque há uma distância considerável entre a Argentina apresentada nos discursos dos defensores do ultraliberalismo e aquela que aparece quando se observam os dados sobre pobreza, emprego, renda, indústria e condições de vida. A primeira é a Argentina da estabilidade monetária e do superávit fiscal; a segunda é a Argentina onde quase um terço da população voltou a viver abaixo da linha da pobreza e onde o desemprego alcançou o maior nível dos últimos anos.

Não se trata de uma preocupação abstrata com o que acontece do outro lado da fronteira. A equipe econômica de Flávio Bolsonaro passou a apresentar explicitamente a experiência de Milei como referência para o Brasil. Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, afirmou que Milei é um “ótimo exemplo” e revelou que a equipe trabalha na revisão de mais de mil normas, inspirando-se no processo de desregulamentação promovido pelo governo argentino. A proposta envolve redução de impostos, revisão de normas e diminuição da presença do Estado na economia.

É preciso, portanto, levar a sério aquilo que está sendo proposto. Não basta repetir que se pretende “reduzir o Estado”, “desburocratizar a economia” ou “libertar o empreendedor”. Essas palavras parecem suficientemente atraentes até que se pergunte o que existe por trás delas. Qual Estado será reduzido? Quais políticas públicas deixarão de ser financiadas? Quais direitos serão flexibilizados? Quais setores da economia brasileira serão beneficiados pela abertura e quais terão dificuldades para sobreviver? E, sobretudo, quem pagará a conta quando a motosserra começar a cortar?

Venezuela

Durante muitos anos, repetiram exaustivamente como uma espécie de mantra que Lula queria transformar o Brasil em uma Venezuela. A acusação serviu para alimentar uma campanha de ódio e desinformação. Lula nunca apresentou a Venezuela, nem qualquer outro país, como modelo a ser copiado pelo Brasil. O que ele sempre defendeu foi o direito de cada povo decidir seu próprio destino sem a tutela de outras nações. A Venezuela deveria encontrar seu próprio caminho, assim como o Brasil deveria encontrar o seu, sem que Washington, Brasília ou qualquer outra capital tivesse o direito de determinar o destino de um país soberano.

A ironia da história é que aqueles que passaram anos acusando Lula de querer importar o modelo venezuelano agora assistem ao grupo político de Flávio Bolsonaro apresentar a Argentina de Javier Milei como referência concreta para o Brasil. O fantasma venezuelano, que durante tanto tempo foi utilizado para assustar os brasileiros, nunca chegou pelas mãos de Lula. Agora, o que se anuncia é algo muito mais explícito: importar para o Brasil uma experiência econômica estrangeira e apresentá-la como caminho a ser seguido.

Quando Flávio Bolsonaro apresenta a experiência argentina como modelo a ser seguido pelo Brasil, não está apresentando apenas uma proposta de política econômica. Por trás dela existe uma agenda autoritária, de retirada de direitos, enfraquecimento da proteção social e criminalização daqueles que se colocam contra o projeto. É isso que também estamos vendo na Argentina, onde a reforma trabalhista aprovada pelo governo Milei restringiu direitos dos trabalhadores e o direito de greve, provocando forte reação dos sindicatos e manifestações de rua.

A motosserra não serviu apenas para cortar gastos públicos. Ela também corta direitos básicos e elementares do povo. E talvez seja justamente essa a parte mais perigosa da experiência de Milei que o bolsonarismo pretende importar para o Brasil.

 

Luciano Rezende Moreira, é professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).

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