Investigações apontam irregularidades, denúncias e questionamentos sobre conduta policial, ainda sem respostas.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
Seis meses após a Operação Contenção, considerada a ação policial mais letal já registrada no país, com 122 mortos, sendo cinco policiais, o foco das investigações e do debate público se volta para possíveis abusos cometidos por agentes de segurança e falhas na condução da operação.

Realizada nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, a ofensiva foi inicialmente apresentada como uma resposta ao crime organizado. No entanto, denúncias posteriores e dificuldades nas apurações têm alimentado questionamentos sobre a legalidade e a proporcionalidade das ações. A reportagem é da Folha de S. Paulo.
Denúncias
Entre os principais pontos sob análise estão suspeitas de manipulação de câmeras corporais, invasões ilegais a residências e até furtos durante a operação. Em março de 2026, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou dez policiais militares do Batalhão de Ações com Cães por supostas irregularidades.
Ao todo, oito denúncias foram apresentadas, envolvendo 19 agentes. As acusações incluem peculato, violação de domicílio e insubordinação. Há ainda investigações sobre o possível roubo de um fuzil e de um celular pertencente a um morador. Os policiais não foram julgados até o momento, mas foram afastados das atividades operacionais.
Segundo as apurações, em alguns casos os agentes teriam posicionado inadequadamente as câmeras corporais, o que dificultou o registro das ações durante as ocorrências.
A investigação enfrenta obstáculos importantes. Um dos principais é a dificuldade de vincular cada morte a policiais específicos, já que os registros oficiais não detalham quem participou diretamente dos confrontos.
A Promotoria analisa mais de 3,6 mil horas de imagens de câmeras corporais, além de registros da Polícia Civil, na tentativa de reconstruir a dinâmica da operação. Também estão sendo realizadas oitivas com agentes que registraram consumo de munição no dia da ação.
Apesar disso, a Defensoria Pública afirma que enfrenta dificuldades no acesso ao material.
– Já fizemos vários pedidos, sem resposta. Essa é uma grande dificuldade que temos com a Polícia Civil – disse Marcos Paulo Dutra, coordenador do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos.
A Polícia Civil informou que cumpriu determinações judiciais e encaminhou as imagens às autoridades responsáveis pela investigação.
Caso
Entre os episódios que reforçam as dúvidas sobre a atuação policial está o caso de Douglas Christian de Almeida, de 30 anos, morador de Inhaúma. Ele foi baleado durante a operação e afirma não estar armado no momento da abordagem.
– A operação começou às 5h da manhã. Já eram 20h e achei que estava calmo para sair. Fui fazer uma entrega da empresa da minha esposa, que trabalha com produtos naturais. Quando estava voltando para casa, os policiais fizeram mais de dez disparos na minha direção. Falaram que eu estava com arma, mas os vídeos mostram que não teve arma apreendida – disse Douglas à Folha de S. Paulo.
Segundo o relato, os agentes envolvidos estavam com as câmeras corporais descarregadas. Posteriormente, uma arma foi apresentada na delegacia, atribuída ao morador. O caso é contestado pela defesa.
Douglas sobreviveu após ficar 17 dias em coma e passou por cirurgia para reconstrução da mandíbula, atingida por tiros. Ele responde ao processo em liberdade condicional e afirma ser inocente. A Polícia Militar não comentou o episódio.
Comunidades
Moradores dos complexos da Penha e do Alemão relatam que a operação não trouxe mudanças estruturais nas áreas afetadas. Segundo eles, não houve desarticulação significativa do crime organizado, enquanto serviços essenciais, como escolas e unidades de saúde, foram prejudicados durante a ação.
O receio de novas operações semelhantes permanece, especialmente em um cenário de ano eleitoral.
Apesar das críticas, autoridades estaduais defendem a operação. O então secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, rebateu acusações de uso político da ação.
– quem afirma que a operação foi política é quem realmente está politizando a questão. As pesquisas mostraram que cerca de 90% dos moradores de comunidades aprovaram a operação – declarou.
A Secretaria de Segurança Pública também destacou dados de apoio popular.
“Uma pesquisa realizada pela AtlasIntel, dois dias após a Operação Contenção, indicou que 8 em cada 10 moradores de favelas da capital fluminense aprovaram a megaoperação contra o Comando Vermelho. Os dados mostram que 87,6% desse público apoiaram a ação”, afirma a pasta em nota.
Em comunicado, a secretaria afirmou que a operação integra uma estratégia contínua de combate ao crime e foi realizada com base em investigações que apontavam a necessidade da ação na região.
“A Operação Contenção é uma iniciativa contínua da Secretaria de Segurança Pública e não se restringe apenas aos Complexos da Penha e do Alemão”. “No caso da ação realizada em outubro do ano passado, a escolha da localidade se deu pelo fato de a região concentrar ‘o QG do Comando Vermelho’”, afirma, e as investigações “apontarem a necessidade da operação”.
O órgão também informou que a operação foi acompanhada pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública.
Investigação
Além da análise das imagens e dos depoimentos, o Ministério Público afirmou ter emitido recomendações às forças de segurança para reduzir riscos e conter a letalidade em futuras ações, além de aprimorar o uso das câmeras corporais.
O órgão também investiga relatos de abusos, ameaças e impedimento de socorro durante a megoperação, que seis meses depois segue cercada de controvérsias e sem respostas definitivas sobre a atuação de agentes e a responsabilidade pelas mortes registradas.