El Niño historicamente forte favorece formação de tempestades, apontam cientistas. Agência climática da ONU prevê que fenômeno persistirá até fevereiro, com impactos devastadores.
Por Redação, com DW – de Nova York
Um trio de furacões avança pelo Oceano Pacífico nesta quinta-feira, num evento raro atribuído por cientistas às águas aquecidas por um El Niño historicamente forte.

A tempestade tropical Marie ganhou força e se transformou em furacão no fim da quarta-feira, na costa da Baixa Califórnia, no México. Ela alinhou-se atrás dos poderosos furacões Karina e Lowell, que seguiam rumo ao oeste pelo Pacífico, afastando-se do continente americano.
– O aquecimento provocado pelo El Niño cria as condições para essas tempestades, que são alimentadas em grande parte por águas quentes. Quando o Pacífico tropical está mais quente do que o normal, observamos um aumento no número de tempestades intensas – explicou Julia Cole, cientista do clima da Universidade de Michigan, à agência francesa de notícias AFP.
Águas quentes fornecem energia para tempestades, e os efeitos do El Niño sobre a atmosfera reduzem o cisalhamento vertical dos ventos sobre o Pacífico – quando o vento muda de intensidade ou direção à medida que ganha ou perde altitude. Isso cria condições favoráveis para a intensificação dos furacões.
– O sistema climático aqueceu significativamente nos últimos 20 anos – disse Benjamin Kirtman, cientista atmosférico da Universidade de Miami, à AFP.
Segundo ele, a temperatura da superfície do mar, que já está mais quente que a média, beira níveis recordes. “Não há outra forma de dizer: as condições [para formação de tempestades] estão extremamente favoráveis neste momento”, afirmou.
Uma situação semelhante ocorreu em 2015, outro ano de El Niño intenso, quando os furacões Kilo, Ignacio, Jimena e a depressão tropical 14E – estágio inicial de um ciclone tropical – atravessaram o Pacífico simultaneamente.
Furacão
O Karina foi classificado na categoria 4 da escala Saffir-Simpson. Já o Lowell evoluiu na quarta-feira para a categoria 5, a mais forte e destrutiva, quando estava a centenas de quilômetros ao sul do Havaí.
Enquanto o Karina deve enfraquecer nos próximos dias, o Lowell “deve permanecer um grande furacão” enquanto avança para oeste, segundo o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC, na sigla em inglês).
– As ondulações provocadas por Lowell provavelmente causarão condições de maré e correntes de retorno com risco de morte em partes das ilhas do Havaí nos próximos dias – afirmou o NHC, acrescentando que suas previsões de trajetória e intensidade de longo prazo eram “mais incertas do que o habitual”.
O Havaí ainda se recupera dos impactos do furacão Lala, que passou próximo à parte sul da Ilha Grande no mês passado, trazendo ventos destrutivos e graves enchentes repentinas.
A leste de Lowell e Karina estava Marie, que se encontrava a cerca de 600 quilômetros a sudoeste da ponta sul da Baixa Califórnia e deveria ganhar mais força até sexta-feira, segundo a agência americana.
Chances cada vez maiores de um El Niño sem precedentes.
O El Niño deste ano tem 69% de chance de se tornar o mais forte já registrado, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), e já provoca eventos climáticos extremos em várias partes do mundo, embora o pico não seja esperado antes do período entre outubro e dezembro.
A previsão de um El Niño “muito forte” também foi confirmada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) nesta quinta-feira. Segundo a agência climática das Nações Unidas, é praticamente certo que o fenômeno persistirá até fevereiro. Isso porque o calor acumulado nos oceanos é liberado mais lentamente para a atmosfera, elevando as temperaturas globais no ano seguinte.
O ano mais quente já registrado foi 2024, após o último El Niño.
– Esse El Niño excepcional tem potencial para causar um golpe severo em comunidades e economias de todo o mundo – disse a chefe da OMM, Celeste Saulo. “Já estamos observando interrupções e devastação causadas por secas e enchentes, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifique.”
O que é o El Niño:
O El Niño é a fase de aquecimento de um ciclo natural no Pacífico tropical que ocorre entre a cada dois a sete anos. O fenômeno geralmente dura entre nove e 12 meses. Ele se instala quando os ventos alísios, que sopram de leste para oeste, enfraquecem, permitindo que a água quente que normalmente se acumula na porção oeste do Pacífico retorne para leste e suba à superfície.
Isso provoca mudanças globais nos padrões de vento, pressão atmosférica e precipitação, gerando condições mais quentes e secas em algumas áreas e mais frias e úmidas em outras. Esses efeitos são potencializados pelas mudanças climáticas, e incluem secas em partes da Amazônia, da Indonésia e da Austrália, interrupções nas monções da Índia e alterações nos regimes de chuva em toda a faixa tropical.
As condições climáticas alternam entre El Niño e seu oposto, La Niña, com períodos neutros entre ambos.
Embora o El Niño não seja causado pelas mudanças climáticas, cientistas esperam que ele intensifique ainda mais o aquecimento de um planeta já afetado pela queima de combustíveis fósseis, além de aumentar a frequência de eventos climáticos extremos.
– A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta está navegando em águas desconhecidas, e essas águas estão esquentando. As temperaturas da superfície do mar estão aumentando, as temperaturas continuam subindo e o mundo está entrando na zona de perigo dos eventos climáticos extremos – alertou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. “A corrida agora é entre o aumento dos riscos e nosso compromisso de agir pelo clima e proteger as pessoas. Precisamos vencer essa corrida.”