Rio de Janeiro, 29 de Outubro de 2026

Gelo antigo no Tibete pode mudar história do clima

Estudo identifica em núcleos de gelo do planalto tibetano o registro glacial mais antigo já recuperado fora das regiões polares.

Quinta, 29 de Outubro de 2026 às 14:00, por: CdB

Estudo identifica em núcleos de gelo do planalto tibetano o registro glacial mais antigo já recuperado fora das regiões polares.

Por Redação, com CartaCapital – de Pequim

Pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, identificaram evidências de que o gelo do manto glaciar de Guliya, no noroeste do Tibete, pode ter mais de 128 mil anos, segundo estudo publicado na revista Science Advances. A descoberta estende em mais de 100 mil anos o registro glacial conhecido na região e representa o núcleo de gelo mais antigo já recuperado nessa parte do planalto tibetano.

Descoberta estende em mais de 100 mil anos o registro glacial conhecido na região

A conclusão partiu da análise de amostras coletadas no planalto de Guliya em 1992 e em 2015. Apesar dos 23 anos de intervalo entre as perfurações, os núcleos apresentaram padrões semelhantes de isótopos de oxigênio, usados para reconstruir condições ambientais do passado. Segundo os autores, a correspondência entre os registros indica que o gelo preservou um histórico climático confiável e reprodutível.

– Se você obtém um registro idêntico um quarto de século depois, isso pode dizer muito sobre o comportamento do gelo ao longo do tempo – afirmou Lonnie Thompson, autor principal do estudo e professor de ciências da Terra na universidade, em comunicado.

O gelo

Determinar a idade de gelo mantido congelado por dezenas de milhares de anos exige métodos específicos. A equipe internacional recorreu à datação por isótopos radioativos de berílio e cloro, elementos que decaem em ritmos previsíveis e servem para identificar eventos na história ambiental do planeta.

Os pesquisadores usaram esses isótopos para detectar sinais da Excursão Geomagnética de Laschamp, alteração no campo magnético terrestre ocorrida há mais de 41 mil anos que deixou marcas químicas no gelo. O resultado foi comparado a registros de isótopos de oxigênio preservados em depósitos de cavernas próximas, no Tibete. O conjunto de evidências sugere que o registro de Guliya pode ultrapassar 128 mil anos.

– É um achado realmente crítico, porque fora das regiões polares este é o único núcleo de gelo que temos de topos de montanha que remonta a tanto tempo – disse Thompson. “Os registros de Huascarán remontam a pouco mais de 30 mil anos, não a mais de 100 mil, o que torna Guliya um registro único.”

Eras glaciais

Núcleos de gelo estão entre as principais fontes de informação sobre climas antigos. À medida que a neve se acumula e se comprime, o material preserva pistas químicas sobre a atmosfera e as condições ambientais da época. A interpretação desses registros, no entanto, depende de uma cronologia confiável.

Estudos anteriores indicavam que o registro de Guliya remontava apenas ao meio do Holoceno, época geológica iniciada há cerca de 12 mil anos, após a última era glacial. As novas evidências estabelecem que ao menos parte do gelo é bem mais antiga. A revisão também tem implicações para entender se grandes massas de gelo no Tibete persistiram durante a transição para o Holoceno.

– Se tivéssemos apenas gelo da era do Holoceno no Tibete, isso significaria que os grandes mantos de gelo da última era glacial não sobreviveram ao início do Holoceno – afirmou Thompson. “Mas as evidências mostram que sobreviveram.”

A geografia do manto de Guliya, em altitude elevada e cercado por terreno específico, pode explicar a preservação do gelo antigo ao longo de mudanças ambientais de larga escala. Os pesquisadores planejam analisar novas amostras para encaixar outros indicadores climáticos nessa cronologia ampliada.

– Quando o gelo começou a se formar no planeta e como eram esses processos naturais de perda? – questionou Thompson. “Precisamos saber essas coisas, e a única maneira de demonstrar isso é com escalas de tempo precisas nesses registros.”

O estudo teve apoio da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos e reuniu pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio, do Instituto Federal Suíço de Ciência e Tecnologia Aquática, da ETH Zurich, da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade do Noroeste, na China.

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