A tensão cresce no enclave espanhol de Ceuta após chegadas em massa de migrantes, gerando protestos de moradores e denúncias de xenofobia.
Por Redação, com RFI – de Madri
A maioria dos mais de 70 mil imigrantes que entraram em Ceuta após cruzar a fronteira a nado, no fim de julho de 2026, retornou ao Marrocos, mas segundo estimativas, entre 5 mil e 8 mil pessoas continuam no território. Na sexta-feira, o líder de Ceuta, Juan Jesús Vivas, do Partido Popular (PP), principal partido de oposição de direita, estimou esse número em 13 mil. Os dados não foram oficialmente confirmados pelo governo.

A população local exige um retorno à normalidade e manifestações ocorrem quase diariamente. Em resposta, as autoridades espanholas inauguraram no domingo um novo centro de acolhimento com capacidade para 864 imigrantes.
O governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez busca acomodar os migrantes que permanecem no enclave em centros de acolhimento. Atualmente, há cerca de 4,3 mil vagas disponíveis, e a meta é chegar a 6 mil.
Um mês e meio depois da chegada em massa, que deixou dezenas de mortos e desaparecidos, muitos moradores manifestam abertamente sua irritação com a presença dos migrantes em praias, parques públicos, terrenos baldios e diversos pontos da cidade. Os migrantes, por sua vez, denunciam atos xenófobos e agressões.
Segundo Ángel Víctor Torres, ministro da Política Territorial e Memória Democrática da Espanha e responsável por coordenar a resposta do governo espanhol, 5.321 pessoas haviam retornado “voluntariamente” ao Marrocos desde 10 de agosto, de acordo com informações divulgadas em 13 de setembro.
O governo precisou identificar os imigrantes que permaneceram por várias semanas na cidade para verificar se tinham direito ao asilo. Já os menores desacompanhados não podem ser expulsos. Segundo Torres, 90 pessoas desistiram de seus pedidos de proteção internacional. Quase mil estão em processo de registro para que seus procedimentos de retorno possam ser concluídos.
Medo e xenofobia
A estratégia do governo é acalmar os ânimos antes de analisar os pedidos, mas isso não tem sido suficiente para tranquilizar a população local. Muitos moradores afirmam sentir medo e não suportar mais a sensação de insegurança.
Na última quinta-feira, o Marrocos afirmou que não há nenhum elemento que o responsabilize pelo fluxo migratório para o enclave de Ceuta. O país declarou que se recusa a servir de “bode expiatório” para “acertos de contas” políticos na Espanha.
O fluxo migratório deixou dezenas de mortos e desaparecidos. “Nenhum dado, fato ou relatório estabelece qualquer envolvimento das autoridades marroquinas”, declarou o Ministério das Relações Exteriores do Marrocos em comunicado divulgado pela agência oficial MAP.
Esta é a primeira reação pública oficial de Rabat desde a chegada dos migrantes. Juntamente com Melilla, Ceuta é um dos dois únicos territórios da União Europeia que possuem fronteira terrestre com a África.