Rio de Janeiro, 04 de Janeiro de 2026

Entre ruínas e silêncio: balanço crítico de 2025

Reflexão crítica sobre o colapso da modernidade em 2025, abordando crises sociais, ambientais e a ascensão da IA em um mundo em ruínas.

Sábado, 03 de Janeiro de 2026 às 06:05, por: Arlindenor Pedro

Nas ruas de todo o mundo já é visível o espírito de festas para celebração de um novo ano.

É o período onde todos buscam encontrar no fundo do seu ser o espírito de otimismo e é, também, o momento de se almejar mudanças positivas que elevem nossa existência em um mundo onde é visível a desagregação e o futuro se apresenta sombrio. Portanto, escrevo estas palavras diante de um mundo que resiste em reconhecer sua própria falência!

Por Arlindenor Pedro – de Resende (RJ)
Entre ruínas e silêncio: balanço crítico de 2025 | Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa

Mas, não é possível esconder que o ano de 2025 termina sob o peso de uma realidade que se impõe como escombros sobre nossas ilusões modernas. O otimismo forçado das cúpulas internacionais, o brilho artificial das bolsas de valores, o espetáculo vazio das tecnologias emergentes não conseguem mais ocultar o que se tornou evidente para qualquer olhar atento: o mundo como o conhecemos está colapsando não por acidente, mas por coerência interna. E isto se impõe como uma dura evidência que empana os nossos sonhos. Estamos em perigo!

Do coração do capitalismo financeiro à floresta amazônica, do Vale do Silício às periferias em ebulição, 2025 escancarou os limites históricos de um sistema que se recusa a perecer, mesmo tendo perdido toda capacidade de produzir vida. A chamada terceira revolução tecnológica, iniciada com a informatização do trabalho e a digitalização da produção, chegou ao seu ponto extremo com a proliferação da inteligência artificial e a expansão planetária dos grandes data centers. Essas infraestruturas titânicas de processamento e vigilância, verdadeiros centros nervosos do capital fictício, não reativaram a produção de valor, mas a substituíram por simulações de valorização.

 

Trabalho

A IA, glorificada como locomotiva do futuro, opera como simulacro de movimento em um trem que já descarrilou. Suas promessas de eficiência, inovação e prosperidade não mascaram que se trata de uma tecnologia que não gera valor real, ao prescindir do trabalho humano, a única substância ainda exigida pela engrenagem abstrata da produção de riqueza capitalista. Aquilo que poderia se apresentar como um avanço tecnológico é, na verdade, o aprofundamento do vazio estrutural. A IA, antes de apontar para a nossa total independência do trabalho, nos apresenta um futuro distópico, sob a ótica do capital-um mundo excludente dominado pelo império das big techs! Sob a égide do capital, a IA não nos liberta, mas se torna mais um grilhão da nossa escravidão que se dá pelo controle abstrato dos algoritmos e do fetiche da mercadoria.

Enquanto isso, o planeta arde. A fracassada COP30, realizada com pompa às margens do rio Amazonas, não foi um pacto pelo clima, mas o réquiem da própria ideia de sustentabilidade na lógica da valorização. No centro da floresta, os dirigentes do mundo reafirmaram, sob discursos ecológicos, a mesma lógica que devasta o bioma: a da mercantilização absoluta, agora travestida de verde. Créditos de carbono, metas líquidas, pacotes tecnológicos foram oferecidos como remédios para um corpo que já se encontra em estado terminal. Ao mesmo tempo, foi dado o sinal verde para que a indústria calçada nas energias renováveis conclua seu processo de devastação da terra, exaurindo as fontes de energias não renováveis. A floresta, os rios, os modos de vida dos povos tradicionais foram convertidos em ativos financeiros, transformando a natureza em um portfólio especulativo, pois se tornarão bens raros e quase imperceptíveis no mundo devastado que vai tomando forma.

A militarização das economias nacionais e o avanço da retórica bélica desenham outro traço sombrio deste ano que termina. O sistema, que já não consegue mais crescer por meio da produção, desloca seu impulso destrutivo para as frentes da guerra, do controle e da repressão. Estados inteiros reorganizam suas estruturas econômicas e políticas em torno da defesa, da vigilância e da exclusão. A guerra deixou de ser exceção para se tornar o modo de existência de um mundo sem horizonte, onde a destruição substitui a produção como forma de dinamismo social.

 

Fronteiras


Apresenta-se um mundo sem leis onde impera o uso da força da franca pirataria. E é nesse cenário que os Estados Unidos voltaram a lançar mão de sua supremacia militar para assegurar zonas de influência e reservas estratégicas. A recente ofensiva direta contra a Venezuela, sob o pretexto de restaurar a ordem democrática, não foi senão a reafirmação de uma lógica obsoleta que já não se sustenta no comércio, mas na força. Sem quase nenhuma contestação, Trump diz: “ o petróleo venezuelano é nosso, e vamos tomá-lo à força” Não se trata de um evento isolado, mas de uma tendência crescente em que potências recorrentes ao colapso da mediação internacional optam por ações unilaterais. A ofensiva contra a Venezuela, combinando sanções econômicas e incursões diretas, selou a falência de qualquer pretensão multilateral.

Nesse mesmo curso, o ano também marcou a derrocada simbólica e prática dos tratados internacionais. O que antes eram pactos frágeis de contenção entre interesses concorrentes, hoje se revelam papéis rasgados pelas forças que já não reconhecem nenhum limite para sua expansão destrutiva. O direito internacional, que já era seletivo e instrumental, agora é abertamente desprezado. O mundo caminha sem regras, guiado por interesses que não admitem mais a mediação da razão jurídica. Essa falência revela não o retorno à barbárie pré-moderna, mas a própria forma moderna de barbárie, fundada na abstração absoluta do valor e na dominação da dissociação funcional.

E são os corpos mais vulneráveis que sofrem as consequências desse colapso não declarado. O número de refugiados climáticos e econômicos ultrapassou todos os registros anteriores. Milhões de pessoas deslocadas por guerras, desertificação, escassez de água, inundações ou colapsos agrícolas vagam por fronteiras fortificadas que se fecham em nome da segurança. Em países empobrecidos pela pilhagem histórica e pela lógica do valor globalizado, a fome deixou de ser exceção e passou a ser o estado normalizado de populações inteiras. No Sul Global, crianças morrem de desnutrição ao mesmo tempo, em que satélites monitoram mercados futuros de grãos. A vida concreta é descartável. A abstração é soberana!

As mulheres, os corpos dissidentes, os pobres, os sacralizados têm sido os alvos principais da fratura social. Em 2025, o aumento brutal dos feminicídios, a banalização da violência sexual, os ataques aos direitos conquistados revelaram uma dimensão particularmente cruel da crise. Trata-se de uma tentativa desesperada de reafirmação do sujeito moderno que desaba. O homem funcional do capital, antes celebrado como agente racional, hoje sucumbe ao pânico de sua obsolescência. A violência é o grito de um sujeito em colapso, que não sabe existir fora da ordem da dominação. Ela não nasce do excesso de barbárie, mas do esgotamento da civilidade construída sobre a exclusão sistemática do outro.

Miséria


E, mesmo diante dessa evidência, há um silêncio que constrange. A maioria das análises públicas ainda se recusa a nomear a crise pelo que ela é. Fala-se em crise ambiental, crise social, crise econômica, mas não se fala da crise da “forma social moderna” em si. Não se admite que talvez o problema não seja a má gestão, a desigualdade, a corrupção ou os excessos do mercado, mas a própria lógica que organiza nossa vida em torno do trabalho abstrato, do dinheiro, da mercadoria. O que está ruindo é o sujeito moderno, e com ele, a forma de mundo que ele produziu e impôs como universal. Termina o ano e os dados são abundantes. Milhões de deslocados. Recordes de temperatura. Colapsos regionais de abastecimento. Falta de políticas públicas básicas. Crescimento do extremismo. Recrudescimento da miséria.

E mesmo assim, há quem ainda pergunte se estamos em crise, que se recusam a ver a realidade que emerge acintosamente perante os nossos olhos. Comportam-se como os músicos do Titanic que se recusaram a crer que o navio estava afundando e tocaram sem parar, até o fim. Mas, reafirmamos aqui que, realmente, não há uma crise em curso. O que há é um colapso. Um processo de dissolução histórica, não de um regime político ou de um modelo econômico somente, mas da totalidade das formas sociais que estruturaram a modernidade capitalista.

Nada do que está por vir poderá ser enfrentado com as ferramentas herdadas desse mundo. Elas são inócuas e somente mantêm vivo um doente terminal e sem futuro. O desafio não é salvar o sistema, mas desativá-lo, pois ele tenta levar a humanidade com a sua morte. Não é consertar suas engrenagens, mas abandonar sua lógica fundamental. Assim como os homens inventaram o capitalismo, ele deve pôr fim à sua existência. O capitalismo coloca a nossa existência em xeque. O capitalismo é o principal inimigo da humanidade e deve ser extirpado! Não temos mais tempo!

Escassez


O tempo das reformas passou! Agora é tempo de crítica radical. De romper com o que parecia natural. De inventar outras formas de vida, baseadas não mais na abstração do valor, mas na materialidade concreta da existência, no cuidado, na cooperação, na reconexão com a natureza e com os corpos dissociados por séculos de violência estrutural. Urge um processo de rejeição em bloco da forma social de relações capitalistas. E isto se deve expressar nas artes, na política, na educação, nas escolas e universidades, nas religiões, nas ações sociais, no dia a dia!

Este foi um ano difícil, sim. Mas não por ser excepcional. Foi difícil porque tornou-se claro que estamos diante de desafios históricos sem precedentes. Desafios que não dizem respeito somente à administração da escassez ou à gestão de crises pontuais. São desafios que nos convocam a repensar radicalmente como nos relacionamos com o mundo, com os outros e conosco mesmos. O ano de 2025 termina deixando não somente os escombros do velho, mas também o peso de uma tarefa: reconstruir o sentido da vida para além do capital, do valor, da dominação. E isso é tudo, menos fácil.

Serra da Mantiqueira, dezembro de 2025.

Arlindenor Pedro é ex-preso político e anistiado. É também professor de história, filosofia e sociologia, além de editor do Blogue: Utopias Pós-Capitalistas — Ensaios e Textos Libertários.
contato@utopiasposcapitalistas.com

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