Rio de Janeiro, 04 de Maio de 2026

Entraves e custo extra de R$ 300 milhões colocam em risco barcas na Barra

O projeto de transporte aquaviário na Barra da Tijuca enfrenta desafios financeiros e estruturais, com custos adicionais de R$ 300 milhões e riscos ao cronograma da prefeitura.

Segunda, 04 de Maio de 2026 às 13:29, por: CdB

Projeto de transporte aquaviário na Barra da Tijuca esbarra em pontes baixas, dragagem milionária e desapropriações, colocando em risco cronograma previsto pela prefeitura do Rio.

Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro

O projeto da prefeitura do Rio para implantar linhas de barcas nas lagoas da Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste, enfrenta um cenário de incerteza financeira e estrutural. A proposta, que prevê ampliar as opções de mobilidade na região por meio de concessão pública, depende agora de novos investimentos para superar obstáculos não previstos inicialmente. A informação é de reportagem do diário conservador carioca O Globo, com grande destaque em sua edição desta, segunda-feira.

Entraves e custo extra de R$ 300 milhões colocam em risco barcas na Barra | Av. Ayrton Senna, na Barra da Tijuca
Av. Ayrton Senna, na Barra da Tijuca

O contrato firmado com o Consórcio Lagunar Marítimo estabelece investimento inicial de R$ 101,6 milhões para aquisição de embarcações, construção de estações e instalação de píeres. No entanto, estudo apresentado pela própria concessionária aponta necessidade de pelo menos R$ 300 milhões adicionais para adequações e intervenções urbanas.

O objetivo original do projeto é atender entre 85 mil e 90 mil passageiros por dia, conectando bairros, condomínios, shoppings, terminais rodoviários e a estação Jardim Oceânico do metrô.

Obras

Entre os principais obstáculos identificados está a necessidade de elevar pontes localizadas na Avenida Ayrton Senna, incluindo a ponte Plácido de Castro, que atualmente impede a passagem adequada das embarcações.

Além disso, o relatório da concessionária cita a realocação de uma ciclovia, remoção de imóveis em comunidades como Rio das Pedras e Gardênia Azul e desapropriação de um posto de combustíveis no Jardim Oceânico.

Outro fator de alto impacto financeiro é a dragagem das lagoas. Segundo o documento, será necessário remover 5,6 milhões de metros cúbicos de sedimentos para viabilizar canais navegáveis.

Somente a dragagem pode consumir cerca de R$ 220 milhões, tornando-se o principal gasto adicional previsto para implantação do sistema.

Também será necessário monitoramento permanente da qualidade da água devido à contaminação por esgoto irregular e presença de bactérias tóxicas nas lagoas.

Fase inicial

O estudo técnico foi entregue à Companhia Carioca de Parcerias e Concessões (CCPAR) no início deste ano. Até o momento, a Prefeitura do Rio informou apenas que o projeto permanece em fase de estudos iniciais, conforme previsto em contrato.

A concessão prevê implantação obrigatória, até 2028, de cinco terminais, seis estações e oito linhas regulares de operação.

O edital também autoriza serviços opcionais, como balsas para a Ilha da Gigoia e linhas expressas entre condomínios da Barra e a estação Jardim Oceânico.

No fim de 2025, o consórcio chegou a anunciar a possibilidade de antecipar operações experimentais para agosto deste ano, utilizando inicialmente a Lagoa de Marapendi.

A proposta piloto previa conexões entre o Condomínio Alfa Barra, centros comerciais e a Linha 4 do metrô. No entanto, o plano não avançou por entraves fundiários e dificuldade de implantação do terminal previsto.

O principal problema identificado foi justamente o terreno ocupado pelo posto de combustíveis, considerado estratégico para integração do sistema.

Enquanto a questão financeira segue indefinida, a concessionária afirma que continua avançando em outras etapas contratuais, incluindo contratação de escritório de arquitetura para desenvolvimento das futuras estações.

Segundo o consórcio, os passivos ambientais e estruturais identificados não constavam nos estudos de viabilidade apresentados durante a licitação.

Concessionária descarta desistência, mas cobra solução.

O presidente do Consórcio Lagunar Marítimo, Nelson Florentino da Silva Filho, afirmou que a demora na análise do relatório pela prefeitura já poderia justificar pedido de rescisão contratual.

Apesar disso, ele reiterou interesse em seguir com a implantação do projeto.

Segundo a concessionária, parte das intervenções deveria ser absorvida pelo poder público dentro da matriz de risco prevista no contrato.

Entre essas responsabilidades estaria investimento de cerca de R$ 45 milhões para elevar duas pontes e modificar o traçado cicloviário na Ayrton Senna.

Também será necessário alinhamento com a concessionária Iguá para remanejamento de infraestrutura próxima à ponte Plácido de Castro.

Além dos desafios técnicos, especialistas apontam dúvidas sobre a sustentabilidade financeira do modelo.

A prefeitura prevê integração tarifária ao sistema Jaé, com cobrança de R$ 5 por viagem, valor equivalente ao das linhas de ônibus.

No entanto, especialistas em mobilidade avaliam que a necessidade de integração com o metrô, cuja tarifa é mais alta, pode reduzir competitividade do serviço frente a aplicativos de transporte.

Representantes de moradores da Barra também demonstram ceticismo sobre a execução do projeto.

A proposta aquaviária é debatida desde 2023 e já enfrentou fracasso em tentativa anterior de licitação, que não atraiu interessados.

Em nova modelagem publicada em 2024, o prazo da concessão foi ampliado de 12 para 25 anos. Ainda assim, apenas um grupo empresarial apresentou proposta.

O contrato definitivo acabou sendo assinado somente em outubro de 2025, após entraves burocráticos.

Histórico

O sistema de barcas na Barra não é o único projeto aquaviário municipal que encontrou resistência.

Outra proposta da prefeitura previa linha regular ligando os aeroportos Santos Dumont e Tom Jobim, mas também foi arquivada por falta de interessados.

Com alto custo operacional, necessidade de obras complexas e incertezas tarifárias, o projeto das barcas da Barra ainda depende de soluções técnicas e financeiras para sair efetivamente do papel.

Edições digital e impressa