Rio de Janeiro, 05 de Novembro de 2026

Dor, luto e recomeço

Por Elza Campos – Entre a culpa, a dependência química e a perda de pessoas queridas, filme de Zach Braff retrata os caminhos dolorosos do luto e a...

Quinta, 05 de Novembro de 2026 às 09:26, por: CdB

Entre a culpa, a dependência química e a perda de pessoas queridas, filme de Zach Braff retrata os caminhos dolorosos do luto e a possibilidade de reconstruir a vida.

Por Elza Campos – de Brasília

Assistir ao longa-metragem Uma Boa Pessoa (A Good Person, 2023) é um convite irrecusável para refletir sobre como a vida pode ser transformada em segundos. O filme traz uma abordagem sensível sobre a dor, o luto e a enorme dose de esperança necessária para a retomada da existência.

“Uma Boa Pessoa” (A Good Person, 2023) é um convite irrecusável para refletir sobre como a vida pode ser transformada em segundos

Sob a direção impecável de Zach Braff, a película lançada pela Amazon Prime Vídeo (2023) inicia com uma bela festa de noivado entre Allison (Florence Pugh), uma jovem linda e talentosa, e Nathan (Chinaza Uche). De modo repentino, porém, o mundo do casal desaba devido a um grave acidente automobilístico no dia seguinte à celebração. O desastre resulta na morte da irmã e do cunhado de Nathan, além de deixar Allison com sequelas físicas, como fortes dores de cabeça, e profundas feridas psicológicas.

A partir disso, acompanhamos o doloroso processo de luto de Allison — que era a condutora do veículo — e também de Daniel (Morgan Freeman), o pai de Nathan, que precisa lidar com a perda enquanto assume a criação da neta adolescente, Ryan, agora órfã. A película desenvolve-se expondo abertamente as marcas dessa tragédia: as rebeldias e dificuldades da jovem Ryan; a falta de tato da mãe de Allison, que oscila desesperadamente entre o cuidado carinhoso e a incompreensão; e a

própria Allison, que se encontra quase despedaçada, sem rumo, fortemente deprimida e dependente de oxicodona.

Em paralelo, conhecemos melhor o passado de Daniel, um ex-combatente do Vietnã, ex-policial e ex-alcoólatra que não sabe bem como lidar com os dramas da neta. Seu filho, Nathan, também carrega os sofrimentos de uma infância marcada por um pai que outrora fora alcoólico e violento. Nathan vive uma amargura profunda e não encontra caminhos para recuperar a vida que tinha e o amor que sentia por Allison, visto que ela se transformou em outra mulher, dominada pelo vício em remédios e álcool, pela depressão e pela agressividade.

Enredo

Desde o acidente, o espectador é impelido a torcer para que Allison recobre o controle de sua vida. A atuação brilhante de Florence Pugh, em perfeita sintonia com a experiência de Morgan Freeman, confere grande densidade e abundância ao enredo. O filme brinda-nos com uma obra forte, emotiva e profundamente humana, retratando com fidelidade as idas e vindas de Allison, a dependência química e o peso esmagador da culpa. Essa conexão com o público é tão íntima que chegamos a perdoá-la pelo trágico acidente. Ao apresentar diferentes processos de luto, vício, afastamento e agressividade, a direção de Zach Braff opta por nunca julgar o que os personagens sentem. O filme acredita genuinamente nas emoções e o seu maior interesse reside, de fato, em registrá-las com empatia.

Uma publicação da minissérie de ficção: O Império da dor no Portal Vermelho, alerta para a epidemia de dependência dos opioides legais, considerada tão nociva quanto da heroína, também um opioide, porém ilegal. Indicado para amenizar a dor e mesmo para contê-la em um pequeno espaço de tempo, o opioide torna-se uma obsessão, um martírio, se usado como prescrito na época, tornando- se uma esgotante e lancinante história de desespero para aqueles que o utilizam e para suas famílias, que são envolvidas por comportamentos de crises de abstinência, alterações comportamentais, isolamento social e abandono de atividades cotidianas, assim como o descontrole financeiro, a perda de suas referências, a negligência consigo mesmos e o afastamento de familiares e amigos,como de certa forma, apresentado no filme Uma Boa Pessoa.

O filme é especial e real na medida em que aborda as relações humanas entrecortadas com uma tragédia, onde a fragilidade das pessoas e a necessidade do perdão se colocam de forma mais intensa com a perda de familiares. O mais significativo é a compreensão dos personagens diante de situações desesperadoras, ou mais do que isso, é o entendimento de que as situações difíceis ocorrem com todas as pessoas. Nesse sentido, destaco que é uma boa escolha para quem aprecia dramas impulsionados por fortes atuações que tocam a alma de quem assiste a obra cinematográfica.

Ficha técnica:

Uma boa pessoa (A good person)

Direção/Roteiro: Zach Braff

Elenco: Florence Pugh e Morgan Freeman

Nacionalidade: Estados Unidos (2023)

Duração: 128 minutos

Disponível: Amazon Prime

 

Elza Campos, é assistente social, mestra em Educação (UFPR), ex-presidenta nacional da União Brasileira de Mulheres (UBM), integrante do Comitê Central e presidenta do PCdoB de Curitiba/PR.

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