Rio de Janeiro, 29 de Setembro de 2026

Relembrando a pandemia com o filme ‘Contágio’

Por Alexandre Campos – Obra que completa 15 anos neste mês chegou a ser vista como “profética” em 2020. Mas na verdade contou com uma boa consultoria científica.

Terça, 29 de Setembro de 2026 às 09:20, por: CdB

Obra que completa 15 anos neste mês chegou a ser vista como “profética” em 2020. Mas na verdade contou com uma boa consultoria científica.

Por Alexandre Campos – de Brasília

A arte não precisa ter uma utilidade específica. Ainda assim, ela pode servir para várias coisas, inclusive para prever cenários e relembrar cenários. É neste último caso que se aplica neste momento, a dias de uma eleição, o filme Contágio. Uma expressão popular diz que o povo tem memória curta. Não sei. Mas de qualquer forma, há pouquíssimos anos o Brasil era um dos países mais afetados pela pandemia de covid-19, levando em conta o número de mortes e, principalmente, as mortes em relação ao tamanho da população [1].

A arte não precisa ter uma utilidade específica

Isso ocorreu por vários fatores. Dentre eles, o fato de o país naquela ocasião ser governado por Jair Bolsonaro e seu grupo político. Com um histórico de negacionismo, charlatanismo e postura anticientífica, Bolsonaro e muitos de seus apoiadores deliberadamente se empenharam para desacreditar as vacinas e medidas sanitárias, como o isolamento social, e propor remédios sem eficácia comprovada contra o vírus. Em um momento em que um de seus herdeiros políticos, o filho Flávio Bolsonaro, é um dos principais nomes nas pesquisas eleitorais para o cargo de presidente da República, torna-se ainda mais importante relembrarmos essa história recente. Daí o filme Contágio merecer uma revisitação do público.

Lançado em setembro de 2011, a obra acaba de completar 15 anos. Em 2020, possivelmente o ano mais difícil da pandemia e ainda sem uma vacina disponível para a maioria da população mundial, Contágio foi redescoberto pelo público e chamado de “profético”, tamanha a semelhança que guarda com alguns aspectos da crise provocada pelo coronavírus. Em abril de 2020 o filme chegou à segunda posição na lista de mais procurados da Warner Bros. Em dezembro do ano anterior ele estava na modesta 270º posição dessa mesma lista. Outro filme bastante revisto em 2020 foi Epidemia (1995) que chegou a figurar na lista dos 10 mais assistidos da Netflix naquele ano.    

Contágio é uma obra de ficção, mas que impressiona de tão realista. Dirigido por Steven Soderbergh (o mesmo de Onze Homens e um Segredo), o filme, estrelado por Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law e Laurence Fishburne, fala justamente sobre uma pandemia provocada por um vírus desconhecido que surge e rapidamente se espalha pelo mundo. Merece ser chamado de profético? Na verdade, cinema e literatura, por exemplo, são pródigos em antever situações, inclusive controvérsias e temas científicos. Em 1902, nos primórdios da arte cinematográfica, o diretor Georges Méliès, um dos pais dos efeitos especiais, lançou Viagem à Lua, baseado no romance Da Terra à Lua, de Júlio Verne, ambos lançados muito antes de Neil Armstrong pôr os pés em solo lunar, em 1969. A escritora Mary Shelley, com seu Frankestein, antecipou no século XIX discussões sobre clonagem e bioética que cresceriam ao longo do século XX. Ao falar sobre o mito do Frankestein, o pesquisador Jon Turney nos lembra que “não é convincente a separação que alguns fazem entre o reino da imaginação e o domínio científico” (2005, p. 105) [2]. Isso porque a imaginação não serve somente para a arte. São necessárias algumas doses dela na ciência. E por isso com frequência a arte irá “prever” feitos e contextos de caráter científicos.

Os acertos “proféticos” de Contágio se devem muito mais a um roteiro antenado com os nossos tempos e uma boa consultoria científica [3], incluindo o apoio de epidemiologistas, do que a algum tipo de revelação mágica. Epidemias não são novidade e, dois anos antes do filme ser produzido, o mundo havia passado por um surto de H1N1, a chamada gripe suína. Muitas situações típicas de uma epidemia são bem caracterizadas em Contágio: a expressão moribunda dos infectados, com sudorese, tosse e palidez; as formas de contaminação, retratadas por meio de closes em objetos, em carnes expostas nas feiras e em situações de proximidade entre as pessoas; o isolamento social, com ruas, igrejas e diversos estabelecimentos vazios; dentre outros aspectos. Em tempos de coronavírus, tudo soava ainda mais realista. E, visto hoje, parece até que o filme foi inspirado na própria pandemia de coronavírus. Mas a obra veio antes!

Desinformação

Dentre os diversos acertos de Contágio, o que mais impressiona é a abordagem que o filme faz sobre o fluxo de informação em tempos de epidemia e seus impactos na sociedade. Os perigos das notícias falsas, que se proliferam tanto ou mais do que o próprio vírus, possuem um amplo espaço no filme. Em 2011, ano de lançamento da película, a internet e suas boatarias já não eram mais nenhuma novidade, mas é interessante ver o assunto retratado de uma forma tão atual antes de termos como “pós-verdade” e fake news tornarem-se tão populares. Logo no início do filme, de dentro de uma redação de jornal, a fala do jornalista freelancer interpretado por Jude Law é icônica a respeito da comunicação nas primeiras décadas deste século: “A mídia impressa está morrendo!”. Daí em diante acompanhamos a empreitada do personagem como blogueiro.

Parte do problema em Contágio não está propriamente no vírus, mas na convulsão social causada, em grande medida, por esse pseudojornalista. É ele o principal responsável por disseminar que uma substância chamada “forsítia” seria a cura para o vírus. Imediatamente ocorre uma corrida às farmácias, incluindo invasões e saques, ao ponto de a substância desaparecer das prateleiras. Tudo seguindo a receita das teorias conspiratórias: a forsítia é a cura, mas a indústria farmacêutica, o governo e a comunidade médica, todos em conluio, trabalham para omitir informações e garantir seus interesses escusos. Impossível não relacionar a forsítia do filme com a cloroquina e a ivermectina da vida real, no contexto da covid-19.

O pseudojornalista se passa por uma espécie de porta-voz de uma verdade escondida, tal e qual o modo como os conspiracionistas em geral gostam de se sentir. Aqui fica clara a descrença nas instituições, outra característica marcante de nossos tempos. O Estado e suas instituições públicas, a mídia tradicional (caso dos grandes jornais impressos, que o jornalista blogueiro disse estarem morrendo) e até a própria ciência passam a ser sistematicamente desacreditados e desqualificados. Movimentos antivacina e de negacionistas do aquecimento global estão aí para mostrar isso. Em um momento memorável do filme, o médico Ellis Cheever (interpretado por Lawrence Fishburne), é confrontado pelo blogueiro em um programa de TV. O blogueiro insiste na forsítia e, com bom domínio do debate e eloquência no discurso conspiracionista, joga o médico contra a parede.  Doutor Cheever, que na trama trabalha nas pesquisas por uma vacina, responde que tipos diferentes de drogas estão sendo testados, mas, na falta de resultados conclusivos, o ideal é a manutenção do isolamento social. Parecia até que o médico estava falando diretamente com o então presidente Bolsonaro, um entusiasta da cloroquina e crítico do isolamento social.

Entretanto, é Jude Law quem parece se sair melhor no debate, mesmo sem ter razão. Aqui, contágio reforça mais um traço dos nossos tempos com relação às tecnologias midiáticas e à midiatização: a forma se sobrepondo enormemente ao conteúdo. No contexto atual, técnicas de relações públicas, propaganda, marketing e boas ferramentas algorítmicas podem convencer a opinião pública de qualquer coisa, ainda que essa coisa seja frontalmente contrária às evidências científicas. Isso pode fazer com que certos assuntos que são consensuais ou praticamente consensuais na comunidade científica pareçam controversos para a opinião pública. Um exemplo é o aquecimento global antropogênico (ou seja, causado pela ação humana). Para quem quiser saber mais sobre o assunto, recomenda-se o documentário Mercadores da Dúvida [4], baseado no livro homônimo, que mostra as táticas persuasivas dos negacionistas climáticos. Uma das principais armas dos propagandistas das controvérsias é saber explorar uma regra jornalística que é a de ouvir sempre os dois lados da história. A regra é justa e necessária, diga-se de passagem, mas o “outroladismo” pode gerar algumas dissonâncias e distorções, dando para ideias extremamente minoritárias na comunidade científica o mesmo espaço na mídia que posições consensuais com maior corpo de evidências e com fundamentos mais sólidos [5].

Contágio exagera em alguns traços e dramas, em comparação à pandemia que vivemos. Afinal de contas, é cinema e o cinema joga com a emoção. A rapidez e letalidade do vírus fictício são bem maiores que as do coronavírus (ainda bem!), mas, em alguns aspectos, é a realidade quem supera a ficção. Embora o filme mostre de forma brilhante os efeitos nocivos das teorias conspiratórias aliadas à internet, não há em Contágio grandes autoridades políticas reproduzindo tais teorias e propondo como cura substâncias sem efeito comprovado. Já na vida real (cada vez mais surreal), presidentes como Donald Trump e Jair Bolsonaro defenderam o uso de remédios ineficazes em suas declarações públicas. Isso mostra que, no mundo real, todo esse modus operandi conspiracionista de internet retratado no filme aos poucos se fundiu aos próprios Estado e suas instituições. O trumpismo, nos EUA, e o bolsonarismo, no Brasil, são frequentemente apontados como exemplos de fenômenos político-eleitorais imbricados com o fenômeno da pós-verdade (ou pós-fato), termo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. As novas mídias digitais, principalmente as redes sociais, têm protagonismo neste cenário perigoso [6].

O pseudojornalista interpretado por Jude Law estava certo em um ponto: a mídia impressa está mesmo morrendo. O problema é se o que estamos colocando no lugar é melhor ou pior e quais as transformações sociais decorrentes dessa substituição. O historiador da ciência David Wootton, autor de “Uma breve história dos fatos” na revista History Today, em que discute a visão peculiar de Trump sobre fatos e verdades, traz ressalvas quanto a essas transformações:

“A internet cria uma enchente de pontos de vista diferentes e você não consegue diferenciar o certo do errado, pois todos parecem igualmente convincentes na tela. E acho que, com isso, a fofoca está sendo transformada em opinião, e fica bem mais difícil distinguir argumentos bem fundados de preconceito. Acho que a internet está nos levando de volta a um mundo medieval no qual as histórias se espalham rapidamente, sejam verdadeiras ou falsas, e fica impossível descobrir de onde vieram e se são confiáveis” (2017) [7].

Contágio segue sendo uma obra fundamental para nos fazer lembrar dos tempos de pandemia, correlacionar a desinformação com as epidemias (entendendo as fake news como vírus que se propagam), pensar sobre o (mau) uso das mídias digitais e redes sociais e alinhar nossas posições políticas no combate a todo tipo de negacionismo e charlatanismo. 

Referências:

[1] Cumulative confirmed COVID-19 deaths per million people <https://ourworldindata.org/explorers/covid?tab=table&zoomToSelection=true&country=GBR~USA&pickerSort=asc&pickerMetric=location&hideControls=true&Metric=Confirmed+deaths&Interval=Cumulative&Relative+to+population=true>

[2] TURNEY, Jon. Resposta popular à ciência e à tecnologia: ficção e o fator frankenstein. In: MASSARANI, Luisa; TURNEY, Jon; MOREIRA, Ildeu de Castro (Org.). Terra incógnita. A interface entre ciência e público, Rio de Janeiro: Vieira & Lente: UFRJ, Casa da ciência: FIOCRUZ, 2005. p. 99-114.

[3] “Contágio”: a ciência por trás do filme <https://super.abril.com.br/cultura/contagio-a-ciencia-por-tras-do-filme>

[4] Link para o documentário Mercadores da Dúvida: <https://archive.org/details/Mercadores.da.Duvida-Documentario.2014>

[5] Publicação da revista Questão de Ciência, sobre como a mídia é utilizada na fabricação de controvérsias: <https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/index.php/apocalipse-now/2019/08/03/quem-ganha-com-falsas-controversias-sobre-ciencia>

[6] Saiba sobre o fenômeno da pós-verdade e o papel das novas mídias: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford>

[7] A internet está nos levando de volta a um mundo medieval: <http://www.conjur.com.br/2017-jul-10/milenio-david-wootton-autor-breve-historia-fatos>

 

Alexandre Campos

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

Edições digital e impressa