Rio de Janeiro, 09 de Fevereiro de 2026

Carnaval: assim nasceu o Bloco

Por Abraham B. Sicsú  – Somos tradicionalistas. Mantemos a tradição. O Bloco com o mesmo nome. Nossa música tema continua a do querido Zoca.




Segunda, 09 de Fevereiro de 2026 às 09:18, por: CdB

Somos tradicionalistas. Mantemos a tradição. O Bloco com o mesmo nome. Nossa música tema continua a do querido Zoca.

Por Abraham B. Sicsú – de Brasília

Repito a ladainha, sempre a mesma coisa. “Estou desanimado, este ano não vou brincar”. Canso os amigos sempre falando o mesmo. Não se consegue fugir. Recife é festa, é alegria. Nos dias do Reinado Momesco, esqueça a sisudez, entre na folia.

Carnaval: assim nasceu o Bloco | Recife é festa, é alegria
Recife é festa, é alegria

Não participar é pretensão vã, a farra contagia, Recife inspirador, não permite um mundo que deprime, que asfixia. Pelo menos nesses dias.

Um dia especial. É sábado, dia do Galo, das ladeiras de Olinda, dos bloquinhos de bairro, dos encontros inesperados, da alma em fantasia. Dia em que o sol aparece com força, em que o suor do vuco vuco faz a gente se esbaldar e transpirar, se possível, também, se amar.

Faz quase 40 anos. Uma tradição carnavalesca. Todo sábado de Zé Pereira, comer uma feijoada. Criada no Rosarinho, já teve três sedes.

Nos anos recentes a dinâmica é esta. A moela na casa de Marcelo, pontualmente às seis ou oito horas (quem sabe?), ver o Pinto crescer no Marco Zero, sem maldade, idoso, não cresce tanto, a saída do Galo, o som ensurdecedor dos trios elétricos, para chegar ao ápice, a feijoada de Déo na casa de Lúcia.

Lá pelas duas da tarde. Vão chegando os amigos, familiares, músicos e cantores. Na verdade o que sobressai são as cantoras, sempre afinadas, muito animadas.

Duas feijoadas, uma profana, com todo o porco e embutidos a que se têm direito, uma vegetariana, com provolone defumado, para disfarçar a falta das boas carnes.

Os politicamente corretos sempre se esbaldam nessa iguaria exótica, a vegetariana. Convencem-se que se privar do real prato e suas deliciosas gorduras, é caminho para a felicidade. Mal sabem eles como colesterol faz bem.

Cerveja e destilados não podem faltar. Soltar-se, fazer chacota, comemorar o descomprometimento, todos, fraternamente, enlaçados numa alegria contagiante. Este pequeno texto tenta contar a trajetória desse grupo que a cada ano se junta mais.

Morava em Ponto de Parada. Bem ao lado do Arrudão. Íamos para o desfile do Galo. Foi lá que surgiu a ideia e onde se realizou nos primeiros cinco anos.

Galo era obrigatório

O Galo era obrigatório. Na Concórdia, bem apertado, no início dos anos oitenta. Não queríamos que acabasse a grande farra. Chegávamos cedo e aproveitávamos tudo. Exaustos, continuávamos. Muitas doses de rum e chopes na Assembleia do Chopp, ver o “Nois sofre, mas nois goza”. Fantasias e personagens inesquecíveis.

Alcoolizados voltávamos para casa. Tinha um vizinho, professor respeitado, que sempre inventava novidades. Um ano, pegou a feijoada feita pela querida maga da cozinha Déo, para sustentar todos os dias da efeméride e resolveu detoná-la. Boa ideia, ano que vem convidaremos todos os amigos. Tornou-se tradição.

O grupo cresceu, músicos famosos se incorporaram. Tínhamos o melhor grupo musical da cidade. Maestro Zoca Madureira no violão, Ari no acordeom, Gerson e Henrique na percussão, e sempre aparecia algum lunático para desafinar o grupo. Perfeição demais incomoda.

Passamos para a Boa Vista. Lá tínhamos mais espaço. O grupo dos “corretos” cresce. Déo é obrigada a incorporar e aperfeiçoar o prato vegetariano. Maior sucesso. Até para fazer pose, alguns bajuladores diziam preferi-lo ao profano. Às escondidas tomavam caldinho com muita linguiça e torresmo. Eu sei!!!

As crianças se animam. Resolvem formar um grupo para desfilar. Improvisam estandarte. Descem no prédio e desfilam na rua. Uma grande disputa para saber quem carrega o estandarte, o cabo de vassoura com uma cartolina na ponta. Evitando brigas, vamos passando de um a outro. Todos aplaudidos e elogiados. Começa a se estruturar um Bloco.

2008. Zoca acaba de compor uma música. Retoques finais dados lá em casa. Dizem que é dele e do irmão Antúlio. No momento, achávamos que era inspiração do momento do grupo. Em nosso encontro, doce ilusão.

Frevo com um nome precioso. Chegou o Carnaval.  Em Carnaval não há consenso, mas este foi. Decidimos que seria o nome do nosso Bloco. Sem nenhuma objeção. O ano que vem sairíamos.

2009. Jaqueline, Carmem e Marcelo se organizam. Fazem um belo estandarte. Azul e verde. Com muitas lantejoulas. Temos um símbolo, o Bloco vai desfilar.

2010, mudamos para a “Beverly Hills” do Recife, rua Ferreira Lopes. Um problema adicional. Em frente a uma Avenida “imensa”, em aclive. Tomamos como desafio. Teremos que desfilar por ela toda.

Quatro da tarde. O grupo se organiza. Uma multidão de quase 50 pessoas. Vai para frente do prédio. O estandarte é entregue a um jovem de doze anos. Os músicos descem para acompanhar. Bravamente subimos os quase cinquenta metros da “Avenida” Lourdinha Bittencourt. No alto somos recepcionados, com alegria, mas sem os filhoses prometidos por uma boa amiga. Tomamos coragem e voltamos ladeira abaixo.

Exaustos, voltamos para o apartamento. Precisamos recuperar as energias. Continuamos o encontro etílico armorial, mais etílico do que armorial. Uma pandega que se estende para além das 20 horas. São quase quarenta anos de feijoada e dezenove de Bloco.

Somos tradicionalistas. Mantemos a tradição. O Bloco com o mesmo nome. Nossa música tema continua a do querido Zoca. Seguindo seus ensinamentos, vivemos nesses momentos sua fala.

“É tempo de rasgar

A velha fantasia

Achar um novo amor

Perdido na folia

É tempo de cantar

Num coro, sem rival

É tempo de amar

Chegou o carnaval”

 

Abraham B. Sicsú, é professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco).

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