O artista unia afetividade, lembranças, certo misticismo e religiosidade em composições de forte apelo emocional.
Por Redação, com CartaCapital – de São Paulo
Morreu no domingo, aos 84 anos, o cantor, compositor e pianista Benito di Paula. Ele enfrentava um câncer de próstata diagnosticado há cerca de um ano e estava internado no Hospital 9 de Julho, em São Paulo.

Batizado como Uday Vellozo, ele nasceu em Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro. Mudou-se para a capital fluminense ainda jovem, iniciando a carreira como crooner em boates da Zona Sul, antes de se estabelecer em São Paulo nos anos 1970. Benito era autodidata na música.
Seu álbum de estreia foi lançado em 1971. Dois anos depois, ele lançou um dos maiores clássicos da música brasileira de todos os tempos: Retalhos de Cetim, que retrata um amor não correspondido no Carnaval. Ao unir elementos da maior festa popular brasileira com a frustração amorosa em uma letra singela, a obra tornou-se um exemplo de como fazer música profunda sem recorrer a um rebuscamento lírico.
A partir daí, Benito di Paula alcançou enorme sucesso, figurando entre os maiores vendedores de discos do Brasil nos anos 1970 e na primeira metade dos anos 1980. Seu repertório consagrou sucessos como Charlie Brown, Mulher Brasileira, Assobiar e Chupar Cana, Proteção às Borboletas, Do jeito que a Vida Quer, Se Não for Amor, Ah Como eu Amei e Amigo do Sol Amigo da Lua.
O cantor emergiu na esteira do sucesso do samba nos anos 1970, apostando em uma vertente de samba abolerado, com fortes influências do bolero e da música romântica. Seu estilo é apontado como precursor do pagode dos anos 1990.
Naquela época, outros artistas se enveredaram pelo samba romântico, como Wando, Luiz Airão e Agepê. Devido a isso, o grupo chegou a ser rotulado pejorativamente como parte do chamado “samba joia”, em um cenário político conturbado marcado pela ditadura e pela valorização de músicas de protesto e de maior sofisticação.
Música
Apesar de nem sempre ter recebido o devido reconhecimento em vida, Benito di Paula deixou uma marca indelével na música nacional: foi ele quem introduziu o piano no samba, conferindo-lhe um tom jazzístico sem jamais perder a brasilidade e a tradição do gênero, que fazia questão de exaltar.
Reunindo afetividade, lembranças, certo misticismo e religiosidade em composições de forte apelo emocional, o artista conquistou uma legião de fãs. O Brasil ainda precisa decifrar melhor — e valorizar — esses cantores populares cujas obras resistiram ao teste do tempo, sendo Benito di Paula o caso clássico dessa atemporalidade.