Escolas de Nilópolis e Niterói dominaram o segundo dia de desfiles do Grupo Especial.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
A segunda-feira de Carnaval na Marquês de Sapucaí foi marcada por emoção, irreverência e ancestralidade. Com quatro desfiles de manifestações: a Mocidade homenageou Rita Lee pela obra libertária; a Beija-Flor ritualizou e ressignificou o 13 de maio e sua abolição; a Viradouro se manifestou a favor da valorização dos trabalhadores do Carnaval e a Tijuca com a obra de Carolina Maria de Jesus trouxe um manifesto de classe, raça e gênero.

Da Mocidade em homenagem a Rita Lee à força literária da Tijuca ao contar com Carolina Maria de Jesus, a noite teve brilho e manifesto. Mas foram Beija-Flor e Viradouro que transformaram o espetáculo em domínio, assumindo o protagonismo na disputa pelo título com desfiles potentes, técnicos e arrebatadores.
A Mocidade Independente de Padre Miguel trouxe para a Avenida a homenagem vibrante à cantora Rita Lee, sob o enredo Rita Lee, A Padroeira da Liberdade. A escola celebrou a trajetória da artista com cores intensas, elementos que dialogaram com sua vida e obra, e uma narrativa que misturou psicodelia, humor e resistência, levando ao público referências de sua carreira e ícones como o Jeep do pai de Rita e momentos emblemáticos de sua luta artística e pessoal. Participações de convidados como Lilia Cabral e referências à atuação da homenageada em defesa de causas sociais também marcaram o desfile.
O desfile da Mocidade se organizou em setores que exploraram diferentes fases da vida de Rita Lee, da contracultura ao protagonismo feminino e à fusão entre rock e samba. As alegorias, fantasias e o samba-enredo animaram a Sapucaí com uma narrativa coesa e bateria contagiante, enquanto alusões às letras e símbolos da carreira da cantora foram pontuais e reconhecíveis ao público presente.
No conjunto da apresentação, a Mocidade destacou-se pela irreverência e criatividade, conseguindo traduzir para o universo do samba uma artista icônica de fora do tradicional carnaval. A escolha temática mostrou audácia e foi capaz de unir espetáculo, emoção e homenagem, mesmo que, no cenário competitivo da segunda-feira, tivesse dificuldades em emergir como favorita ao título diante de desfiles de forte impacto.
A Beija‑Flor de Nilópolis optou por um enredo profundamente ligado à cultura afro-brasileira e à ancestralidade com o tema Bembé do Mercado, a tradicional celebração de matriz africana de Santo Amaro da Purificação, Bahia, destacando o candomblé de rua como símbolo de resistência, fé e identidade. A escola entrou na Sapucaí com representações que exaltaram a espiritualidade, tradição e força do povo preto, buscando o bicampeonato no Grupo Especial.
O samba-enredo Bembé se tornou um fenômeno nas paradas musicais antes mesmo do desfile, mostrando que a mensagem cultural e espiritual da obra já havia conquistado o público carioca e complementou a grandiosidade da apresentação. A Azul e Branco chegou com força e empolgação à avenida, traduzindo sua história e compromisso com temas de profunda relevância social e espiritual sob uma estética percussiva marcante.
Sob análise, o desfile da Beija-Flor reforçou sua condição de protagonista da noite com uma estética forte e um samba que mobilizou a massa e se enraizou no sentimento popular. A narrativa coesa e o engajamento da comunidade contribuíram para que a escola dominasse expectativas e brigas pelo título, tornando sua passagem uma das mais aguardadas e impactantes da segunda-feira.
A Viradouro escolheu como foco a homenagem ao mestre de bateria Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça, cuja trajetória de mais de cinco décadas no carnaval foi central para o enredo. A escola levou à Sapucaí uma narrativa que celebrou a vida, a paixão e a importância do samba e da bateria na tradição carnavalesca, com o samba-enredo e alegorias refletindo a ligação visceral entre o mestre e a comunidade da Vermelho e Branco.
O desfile da Viradouro trabalhou elementos históricos e emotivos, ressaltando não apenas a presença física de Ciça, mas também a herança cultural que ele representa para a escola e para o samba carioca como um todo. A proposta enfatizou ritmo, percussão e a própria expressão do batuque como força vital da escola na avenida.
No balanço geral, a Viradouro apresentou um desfile que conseguiu unir técnica e emoção, destacando a relevância de uma figura ícone do carnaval e trazendo para a disputa uma obra carregada de significado. A coesão temática e o impacto da bateria foram fatores que colocaram seu desfile entre os mais fortes da noite, consolidando sua posição na briga pelo título.
A Unidos da Tijuca fechou o segundo dia de desfiles com um enredo centrado na vida e obra da escritora Carolina Maria de Jesus, colocando sua trajetória de superação e denúncia social em evidência na Sapucaí. A escola montou sua narrativa como um “livro aberto”, mostrando capítulos da infância à vida na favela e o impacto profundo de sua literatura visceral como forma de resistência e denúncia das desigualdades brasileiras.
As alegorias, setores e o samba-enredo capturaram a essência da obra de Carolina, abordando suas origens, a escrita como ferramenta de transformação social e a força de sua voz literária em um contexto que ressignifica a presença da mulher preta na cultura nacional.
Em termos de avaliação, o desfile da Tijuca destacou-se pela profundidade e relevância temática, transformando literatura em espetáculo visual e musical. O enfoque sensível e a construção narrativa sólida ressoaram com partes do público e crítica, marcando um retorno forte da escola à disputa por posições de destaque após temporadas menos expressivas.
Carnaval 2026 no Rio
No panorama geral da segunda-feira de Carnaval 2026 no Rio de Janeiro, Mocidade e Tijuca apresentaram desfiles ricos em narrativas culturais e pessoas-tema, enquanto Beija-Flor e Viradouro dominaram a noite com propostas que uniram grandeza, impacto emocional e forte presença comunitária na disputa pelo título do Grupo Especial.
A diversidade de temas: da irreverência libertária à ancestralidade, do legado do samba à literatura de resistência, mostrou a amplitude do Carnaval como espaço de expressão cultural e sociopolítica.