ONU alerta que 13,5 milhões de crianças seguem sem nenhuma dose, enquanto conflitos, desinformação e cortes de recursos ameaçam o progresso alcançado.
Por Redação, com DW – de Genebra
Dados divulgados pela ONU na quarta-feira revelam que os níveis globais de vacinação infantil melhoraram ligeiramente no ano passado. A instituição porém, alertou que cortes drásticos no financiamento, conflitos e desinformação ao redor do mundo ainda ampliam as perigosas lacunas de cobertura e permitem que surtos se alastrem.

Em 2025, 90% dos bebês em todo o mundo, ou seja, quase 116 milhões, receberam pelo menos uma dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (DTP) – a vacina tríplice bacteriana –, enquanto 85% completaram o esquema de três doses, de acordo com dados publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Os números podem parecer otimistas – com ambos os indicadores subindo um ponto percentual em relação a 2024 e quatro pontos desde 2021 –, mas eles permaneceram um ponto percentual abaixo dos níveis de 2019, antes que a pandemia de covid-19 causasse fortes estragos nos programas globais de vacinação.
Isso significa que “milhões de crianças vulneráveis ainda estão desprotegidas devido a conflitos, deslocamentos e pobreza”, afirmou em nota a diretora-geral do Unicef, Catherine Russell. “Nenhuma criança deveria sofrer de uma doença que uma simples vacina pode prevenir”, sublinhou.
Crianças
De acordo com os dados, estima-se que 13,5 milhões de crianças, as chamadas “dose zero”, não receberam nenhuma dose da vacina no primeiro ano de vida em 2025. Apesar de ainda elevado, o total caiu 750 mil em relação a 2024 e ficou cerca de 1 milhão abaixo do registrado em 2023, indicando avanço na cobertura vacinal.
As agências da ONU alertaram que um número cada vez maior de crianças, principalmente em países mais pobres, inicia o esquema vacinal, mas não o completa.
Globalmente, os dados mostraram que cerca de 7,3 milhões de bebês receberam a primeira dose da vacina DTP nos primeiros meses de vida, mas não foram imunizados com a primeira dose da vacina contra o sarampo, geralmente administrada entre nove e doze meses.
– Acreditamos que isso está claramente relacionado, em alguns contextos, a informações falsas e desinformação disseminadas sobre a vacinação contra o sarampo – disse Kate O’Brien, diretora de vacinas da OMS.
As desistências contribuíram para que a cobertura vacinal contra o sarampo estagnasse: 84% das crianças em todo o mundo recebem a primeira dose, e apenas 77%, a segunda, muito aquém dos 95% necessários para evitar a disseminação da doença altamente contagiosa.
– As consequências estão sendo sentidas agora – disse O’Brien. Ela destacou que, no total, “57 países relataram surtos de sarampo de grande porte ou com consequências graves em 2025”.
No geral, o mundo viu “números sem precedentes de surtos” no ano passado, com “mais surtos de difteria e de cólera”, além da disseminação do sarampo.
Cortes
O’Brien alertou que este era um primeiro indício do impacto dos cortes drásticos na ajuda humanitária externa dos Estados Unidos, mas também de outros países, desde o retorno do presidente americano, Donald Trump, à Casa Branca.
– Não acreditamos que o impacto desses cortes de financiamento esteja totalmente refletido nos dados de 2025 – disse O’Brien. “Nossas preocupações se concentram no que acontecerá nos programas em 2026 e no que ainda está por vir”.
Os surtos, no entanto, já indicavam “falhas reais no sistema de imunização”, alertou a especialista.
O chefe de imunização do Unicef, Ephrem Lemango, também alertou que os cortes de financiamento estão afetando os sistemas de dados necessários para monitorar o efeito desses cortes. “Nossa capacidade de ter uma vigilância robusta dos surtos foi consideravelmente impactada”, disse.
Em uma nota positiva, o relatório mostrou que a cobertura vacinal contra uma série de doenças atingiu um recorde nos 57 países de baixa renda apoiados pela aliança de vacinas Gavi.
Mas essa organização alertou que a diminuição do financiamento para suas operações pode ter consequências graves no futuro.
– Acreditamos que 600 mil vidas que poderiam ter sido salvas serão afetadas – disse Thabani Maphosa, diretor de operações da Gavi.