Rio de Janeiro, 21 de Janeiro de 2026

Trump: quando a ‘insanidade’ tem uma direção clara

Por Wevergton Brito  – A “insanidade” que tem como meta construir um mundo regido apenas pela lei do mais forte.

Quarta, 21 de Janeiro de 2026 às 09:26, por: CdB

A “insanidade” que tem como meta construir um mundo regido apenas pela lei do mais forte.

Por Wevergton Brito – de São Paulo

Na década de 30 do século passado, o chanceler alemão, Adolf Hitler, vinculava diretamente a grandeza da Alemanha à sua existência pessoal e, portanto, suas vontades não permitiam contestação. Em 1939 Hitler afirmou, em discurso aos oficiais do alto comando militar: “Essencialmente, tudo depende de mim, de minha existência (…) Provavelmente nunca mais no futuro haverá um homem com mais autoridade do que eu tenho. Minha existência é, portanto, um fator de grande valor”.

Trump: quando a ‘insanidade’ tem uma direção clara | Donald Trump
Donald Trump

Na ocasião, muito se especulou sobre o fato do surgimento de uma figura tão claramente narcisística e desequilibrada ter galvanizado o poder e liderado multidões justamente em um dos países capitalistas mais avançados da Europa.

Hitler, muitos explicavam, era fruto da luta fraticida entre as burguesias europeias pelo mercado mundial, que redundou na primeira grande guerra, na crise econômica da década de 1920 e na incapacidade da social-democracia, que se apresentava como alternativa aos leninistas, de encontrar saídas para os graves impasses.

Os comunistas, sem desconsiderar os importantes acontecimentos que incidiram no surgimento do fenômeno fascista, no entanto apontavam que tanto a primeira guerra quanto a crise econômica e, portanto, o próprio fascismo, nasciam do ventre de um sistema que, essencialmente, é irracional e, historicamente, senil.

Derrotado o nazismo, países capitalistas, pressionados pela luta dos seus trabalhadores e pela “ameaça comunista” personificada poderosamente na União Soviética, adotaram certas medidas de controle do capital financeiro e alguns, principalmente na Europa, fizeram concessões importantes ao proletariado, no que ficou conhecido como “Estado de bem-estar social”.

Os comunistas, esses “chatos” de sempre, advertiam que o fascismo não foi um raio em céu azul, e a sobrevida do capitalismo e o agudizar de suas contradições promoveria o surgimento de novos fenômenos correlatos.

Fascismo clássico

Muito se pode dizer sobre tudo que aconteceu nestes mais de 90 anos pós surgimento do fascismo clássico mas resumamos da seguinte forma: a União Soviética desapareceu e hoje vivemos em um mundo em que, nos países capitalistas, o capital financeiro domina amplamente uma economia global em boa parte fictícia, que acumula riquezas imensas sem lastro na vida real, o “Estado de Bem-Estar Social” foi ou está sendo desmantelado, enquanto a comunicação por todo o planeta é marcada por tal quantidade oceânica de mentiras e distorções que fazem a propaganda nazista parecer brincadeira de criança.

Quando Trump escreve ao primeiro-ministro da Noruega – que lhe dirigiu um apelo sobre a Groenlândia – respondendo que ele (Trump) não precisa ter compromisso com a paz, pois a Noruega não lhe outorgou o Nobel da Paz, qual o significado deste desvario?

Para além de ignorar o fato de que não é propriamente o governo da Noruega que outorga ou não o Nobel, Trump vincula despreocupadamente um radical movimento geopolítico, como é o de ameaçar militarmente um antigo aliado, a Dinamarca, (como, aliás, já havia feito com o Canadá), com interesses estritamente pessoais.

Se o direito internacional e as instituições multilaterais, incluindo a ONU, enfrentam uma ofensiva no sentido de desmoralizá-las completamente, o reiterado comportamento pessoal desvairado de Trump é um sinal de erosão de normas básicas não só de convivência entre as nações, mas até mesmo de convivência entre as pessoas.

E sem essas normas básicas o que prevalece é a força bruta, expressa pelas armas e pelo poder econômico, que impõem uma moralidade de conveniência, sempre a conveniência do mais forte.

Ou seja, é uma insanidade, digamos assim, com direção clara: tornar o planeta um paraíso capitalista neoliberal para os bilionários e um inferno para a imensa maioria das pessoas.

Donald Trump

Em momentos tão ameaçadores é necessário não se deixar contaminar pelo medo e pelo derrotismo. Lembremos, entre outros, de Geórgi Dimitrov, que em pleno tribunal hitlerista enfrentou e desmoralizou as mentiras nazistas.

Donald Trump têm sérios problemas pela frente, começando por uma crise econômica e social que atinge em cheio o  seu país e não encontra lenitivo nas receitas habituais. A resistência que se fortalece na luta popular estadunidense, o isolamento internacional e as contradições inter-imperialistas provocadas por seu comportamente imprevisível só tendem a crescer, inclusive na medida em que ganha corpo, entre os povos, a defesa da paz, do multilateralismo e da soberania nacional.

Essas bandeiras são amplas, exigem, portanto, amplitude nas construções políticas que desejam fortalecê-las.

Porém, os comunistas, em sua incessante propaganda socialista que os diferencia diante das demais forças da esquerda, devem ressaltar sempre que a insânia de Trump e de outros como ele (Milei, Bolsonaro etc.) é, ao fim e ao cabo, filha dileta de um sistema que tem a irracionalidade como fundamento: o capitalismo.

Leiam este trecho escrito há mais de 123 anos por Euclides da Cunha e notem como, ao apontar as características de alguns fanáticos pregadores da época, ele parece estar descrevendo os “Silas Malafaias” dos tempos atuais.

“Salvo raríssimas exceções, o missionário moderno é um agente prejudicialíssimo (…) Sem a altitude dos que o antecederam, a sua ação é negativa (…) Segue vulgarmente processo inverso do daqueles: não aconselha e consola, aterra e amaldiçoa; não ora, esbraveja. É brutal e traiçoeiro (…) Sobe ao púlpito das igrejas do sertão e não alevanta a imagem arrebatadora dos céus; descreve o inferno truculento e flamívomo, numa algaravia de frases rebarbativas a que completam gestos de maluco e esgares de truão.

É ridículo, e é medonho. Tem o privilégio estranho das bufoneiras melodramáticas. As parvoíces saem-lhe da boca trágicas (…) E alucina o sertanejo crédulo; alucina-o, deprime-o, perverte-o.”

Euclides da Cunha, em Os Sertões

 

Wevergton Brito, é jornalista, vice-presidente nacional do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade ao Povos e Luta pela Paz).

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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