Rio de Janeiro, 13 de Janeiro de 2026

Trump joga WAR tendo o mundo como tabuleiro

Análise da política externa de Trump sob a ótica do jogo War, destacando a erosão da ordem global e o desprezo pelo direito internacional.

Terça, 13 de Janeiro de 2026 às 10:18, por: CdB

Ao tratar a geopolítica como jogo de conquista, a política externa de Trump expôs desprezo pelo direito internacional, corroeu alianças e acelerou a erosão da ordem global.

Por Thiago Modenesi – de Brasília

Se você tem mais de 40 anos muito provavelmente pode ter passado horas jogando War com amigos e amigas em sua adolescência. O jogo reduz a geopolítica a um conjunto simples de regras: territórios são cartas a serem coletadas; países, peças a serem conquistadas; e a vitória é absoluta – o domínio total do mapa. A diplomacia é substituída pelo lance de dados, e a complexidade socioeconômica e cultural de nações inteiras é apagada. A administração Trump, particularmente em seu segundo mandato muito mais agressivo, operou sob uma cosmovisão alarmantemente semelhante à do jogo. As ações descritas, a recente invasão da Venezuela sob o pretexto de “restauração da democracia” e combate ao “narcoterrorismo de governo”, a surpreendente oferta de compra e subsequentes ameaças de anexação da Groenlândia (um “grande terreno” estratégico e rico em recursos), e as ameaças de intervenção militar no México e Colômbia para “erradicação total do narcotráfico” não são vistas como eventos isolados, mas como movimentos táticos numa grande estratégica de reconfiguração forçada do tabuleiro mundial.

Trump joga WAR tendo o mundo como tabuleiro | A administração Trump, particularmente em seu segundo mandato muito mais agressivo
A administração Trump, particularmente em seu segundo mandato muito mais agressivo

A expansão territorial e controle de recursos como um fim, assim como no jogo, onde controlar continentes garante bônus de reforço, estão refletidos na política externa de Trump, que visou o controle direto ou indireto de territórios ricos em recursos. A Venezuela foi enquadrada não por sua “crise humanitária,” mas por suas vastas reservas de petróleo. A Groenlândia representa uma jogada de mestre para o projeto imperialista trumpista: controle do Ártico, acesso a minerais raros e uma posição estratégica contra a Rússia e China. A lógica não é de integração, mas de aquisição.

As alianças são vistas como um meio descartável no War, são temporárias e baseadas puramente na conveniência do momento, sendo descartadas sem cerimônia. O governo Trump levou isto ao extremo, tratando a OTAN com desdém, pressionando aliados tradicionais como Dinamarca (no caso da Groenlândia) com ameaças, e cooptando ou subordinando governos regionais, como o da Argentina, para legitimar a intervenção na Venezuela. A mensagem era clara: a lealdade é contingente à obediência e à utilidade imediata.

O conceito clausewitziano é invertido. Para Trump, a guerra (ou sua ameaça crível) era a diplomacia por outros meios. Os tuítes provocativos, os ultimatos públicos ao México (“ou fazem algo, ou nós faremos”), e a retórica belicosa contra o governo Maduro eram táticas calculadas para forçar capitulação ou criar casos de guerra. A dissuasão clássica dava lugar à coerção ostensiva.

Assim como as regras do War são autocráticas e definidas pelo vencedor, a abordagem de Trump desprezou o direito internacional. A invasão da Venezuela, sem mandato do Conselho de Segurança da ONU, violou a Carta das Nações Unidas. A ameaça de anexação de um território autônomo dinamarquês desrespeitaria o direito à autodeterminação. As ameaças de violação da soberania mexicana e colombiana pisoteariam normas seculares de não-intervenção.

Invasão da Venezuela

A invasão da Venezuela seria o equivalente a conquistar a América do Sul no jogo, garantindo um “bônus de continente” em recursos e influência. No entanto, a realidade provou ser mais complexa. A invasão não rompeu a hegemonia do Chavismo e Bolivarianismo no poder até o momento.

As ações de Trump trazem ⁠consequências sistêmicas, quando o jogo termina, a realidade permanece. A aplicação da lógica do War resultou até agora na ⁠erosão acelerada da atual ordem internacional, o desprezo por instituições e normas minou a já frágil arquitetura pós-1945.

Além disso, progride a deslegitimação do poder norte-americano, o soft power dos EUA foi devastado pelas ações de Trump. A imagem de uma potência arbitrária e conquistadora pode dificultar futuras cooperações e manobrou até aliados para posições de resistência.

A política externa da era Trump, que guarda paralelos com a lógica simplista e brutal do jogo War, demonstrou os perigos catastróficos de se tratar a geopolítica como um jogo de soma zero. Enquanto no tabuleiro o vencedor leva tudo e o jogo pode ser reiniciado, no mundo real as conquistas são ilusórias, os custos humanos e materiais são profundos e as cicatrizes na ordem internacional são duradouras.

Os EUA, ao jogar War com o mundo, podem ter ganhado algumas batalhas táticas de impacto midiático, mas iniciaram um processo estratégico de erosão de sua própria liderança e de um sistema que, apesar de suas imperfeições, oferecia mais estabilidade do que o caos hobbesiano de um tabuleiro de jogo permanente. A lição final é que na geopolítica real, diferentemente do War, não há vencedores solitários quando o tabuleiro é incendiado.

Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.

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