Memes, IA e algoritmos transformam a guerra cultural em disputa permanente por atenção, afetos e controle político nas redes.
Por Carlos Seabra – de São Paulo
As recentes postagens nas redes sociais de vídeos animados com peças de Lego lembraram-nos que a propaganda de guerra já não se apresenta apenas sob a forma clássica dos comunicados oficiais, dos editoriais solenes ou das imagens jornalísticas cuidadosamente enquadradas. Entre bombas, drones, mísseis e operações militares, circulam agora pequenos vídeos, memes, figurinhas e animações de aparência banal, muitas vezes embalados com música, slogans rápidos e personagens caricatos. O que está em jogo não é um detalhe lateral da comunicação contemporânea, mas um sintoma importante das novas formas de disputa política e cultural.

Não se trata apenas de uma substituição de formatos. Do ponto de vista material, esses memes frequentemente são produzidos pelo mesmo aparato estatal, militar e corporativo que antes editava comunicados solenes – mas agora contam com uma vantagem adicional: o trabalho imaterial gratuito de milhões de usuários que, mobilizados afetivamente, replicam, remixam e espalham o conteúdo como se fosse espontâneo. Funcionam, assim, como um exército de reserva simbólico, terceirizando e barateando a propaganda.
Não se trata apenas de usar uma linguagem mais leve para falar de temas pesados. O que se observa é a apropriação de formas populares da cultura digital como instrumentos de guerra informacional. Em lugar do pronunciamento grave, entra a estética do compartilhável. Em vez da peça de propaganda com cara de propaganda, surge um conteúdo que parece improvisado, espontâneo, quase ingênuo. Mas essa aparência amadora frequentemente esconde uma elaboração estratégica bastante precisa.
Há algo de novo nisso, ainda que não completamente inédito. A disputa política sempre precisou condensar mensagens, mobilizar afetos, construir inimigos e criar identificações. O que muda agora é a velocidade, a escala e a forma. Ferramentas de inteligência artificial permitem gerar com rapidez bonequinhos animados, vozes sintéticas, cantores artificiais, trilhas sonoras, montagens visuais e pequenas cenas de impacto. Com isso, a propaganda deixa de depender apenas de grandes estruturas de comunicação e passa a operar também por meio de artefatos curtos, replicáveis e emocionalmente eficazes.
Contudo, essa aparente democratização do acesso à produção simbólica esconde uma concentração real de poder. As ferramentas de IA generativa – os dados, os modelos, a infraestrutura de nuvem e os semicondutores – pertencem a poucas gigantes tecnológicas e Estados imperialistas. Quem tem acesso privilegiado a esses meios de produção simbólica algorítmica dita as regras do jogo. Não se trata apenas de agilidade técnica, mas de propriedade de classe sobre os novos meios de produção cultural.
O meme
O ponto decisivo não é discutir se esse humor é bom ou ruim, refinado ou rasteiro. A questão mais importante é perceber como ele funciona politicamente. O meme, o vídeo curto e a animação satírica condensam narrativas, enquadram acontecimentos e orientam a recepção dos fatos. Eles simplificam conflitos complexos, estabilizam sentidos e oferecem ao público uma forma rápida de adesão afetiva. A guerra entra no cotidiano não só como notícia, mas como linguagem circulante, como produto simbólico de consumo veloz.
Essa forma de comunicação é particularmente poderosa porque opera na escala da atenção fragmentada. Cabe na tela do celular, exige poucos segundos, parece dispensar contexto. E, como costuma circular por intermédio de familiares, colegas de trabalho, colegas de estudo e amigos, chega revestida de confiança. O conteúdo já não vem diretamente de uma instituição identificável, mas mediado por laços sociais cotidianos. Isso dilui a percepção de origem e embaralha a fronteira entre produção estratégica e circulação espontânea.
A propaganda sempre buscou moldar percepções. O que vemos hoje é uma etapa em que ela se infiltra nas linguagens ordinárias da vida conectada. O meme não substitui os arsenais materiais, mas compõe o arsenal simbólico. Ele não derruba prédios, mas ajuda a organizar sensibilidades, fixar versões, ridicularizar adversários, normalizar violências e tornar digeríveis acontecimentos que, em sua gravidade, talvez exigissem mais pausa e reflexão. É um dispositivo de enquadramento ideológico adaptado à ecologia midiática da pressa.
É preciso ir além da noção de que o meme apenas “normaliza” violências já ocorridas. Na verdade, ele frequentemente prepara e legitima violências futuras: desumanizar um grupo em vídeos de Lego ou em figurinhas animadas é o primeiro passo material para que bombardeios ou expulsões sejam recebidos com indiferença ou aprovação. Símbolo e violência material não estão em camadas separadas – são momentos dialéticos do mesmo processo de dominação.
Nesse sentido, a velha fórmula de Marshall McLuhan, segundo a qual “o meio é a mensagem”, torna-se mais atual do que nunca. Mas é preciso tratá-la com cuidado crítico. McLuhan tende a um determinismo tecnológico que o materialismo histórico não pode aceitar sem mediações. O meio, por si só, não determina a mensagem – o que determina são as relações sociais de classe que se apropriam do meio. Como nos ensinou Raymond Williams, em sua crítica ao determinismo tecnológico, devemos perguntar: não “o que o meio faz conosco”, mas “quem controla o meio, com que intenção e sob quais relações de propriedade?”. O algoritmo que decide o alcance de um meme não é neutro – ele é propriedade privada a serviço do engajamento como mercadoria. Portanto, não é apenas “o meio é a mensagem”; é o modo de produção capitalista do meio que modela a mensagem.
Não é apenas o conteúdo que importa, mas a forma pela qual ele circula. Uma guerra narrada como meme não é apenas uma guerra ilustrada de forma engraçadinha: é uma guerra reorganizada simbólica e cognitivamente por um meio que simplifica, acelera, fragmenta e estimula reações quase instantâneas. O formato não é um invólucro neutro. Ele modela a mensagem, define seu alcance e condiciona sua leitura.
Talvez possamos dizer que, se Marx descreveu o fetiche da mercadoria como um processo em que as relações sociais aparecem disfarçadas sob a forma de coisas, hoje vivemos também algo como um “fetiche da informação”. Ou, mais precisamente, um fetiche da atenção ou do engajamento. As mensagens aparecem desprendidas de seus circuitos de produção, de seus interesses materiais e de suas determinações políticas. Consumimos conteúdos como se fossem objetos autônomos, quase naturais, quando na verdade carregam marcas de poder, intenção e disputa. E, mais do que isso: cada compartilhamento, cada reação, cada segundo de atenção é trabalho não pago – trabalho que gera valor para as plataformas, que vendem perfis comportamentais para publicidade e propaganda política. O meme não é apenas ideologia; é também mercadoria que extrai mais-valia da nossa cooperação social.
A figurinha
O meme parece apenas um meme. O vídeo parece apenas uma brincadeira. A figurinha parece apenas uma piada. Mas nada disso circula fora das relações concretas de força que estruturam a vida social.

Essa questão se agrava num cenário em que a mídia tradicional perde centralidade relativa, ao mesmo tempo em que sofre pressões, censuras difusas mas hegemônicas, dependências econômicas e crescente subordinação a grupos financeiros. Não se trata de idealizar os velhos meios, que sempre tiveram seus limites, seus filtros e seus vínculos com as classes dominantes. Mas é preciso evitar a nostalgia da grande imprensa – ela também sempre manipulou (Golfo do Tonkin, armas de destruição em massa no Iraque). O problema da fragmentação atual não é a fragmentação em si, mas o fato de ela ocorrer sob um regime de plataformização monopólica: poucas empresas controlam os algoritmos que decidem o que cada um vê, criando uma centralização sem centro aparente. É o que se pode chamar de fragmentação sob monopólio algorítmico.
É por isso que a educação midiática se torna tão importante. Não como moralismo sobre “acreditar em tudo” nem como simples treinamento técnico para usar plataformas, mas como formação crítica para compreender linguagens, meios, interesses, circuitos de circulação e estratégias de persuasão. Educar midiaticamente é aprender a perguntar não apenas “isso é verdade?”, mas também “como isso está sendo construído?”, “por que circula assim?”, “quem ganha com esse enquadramento?”, “que emoções estão sendo acionadas?” e “que realidade está sendo tornada invisível por essa forma de narrar?”.
Contudo, essa formação crítica não pode permanecer no plano individual. Uma pedagogia verdadeiramente marxista – que bebe em Paulo Freire, em Gramsci e na comunicação popular – sabe que decodificar não basta: é preciso produzir coletivamente contra-memes, organizar redes de contra-informação, disputar os algoritmos com ação política organizada. Sem a dimensão coletiva e prática, a “educação midiática” vira mero exercício escolar, incapaz de enfrentar a máquina de propaganda da extrema direita.
Essa tarefa é decisiva porque a guerra cultural não é mais metáfora vazia. Ela se materializa em campanhas permanentes de disputa por imaginários, afetos, repertórios e interpretações. Os vídeos animados gerados por IA, com seus soldadinhos sorridentes, suas trilhas heroicas e seus cantores artificiais, não são apenas curiosidades digitais. Eles são sintomas de um estágio em que as tecnologias de produção simbólica se baratearam, se aceleraram e se tornaram muito mais acessíveis para a luta ideológica cotidiana.
As guerras reais já fazem uso disso com desenvoltura crescente. Mas, entre nós, a próxima grande batalha talvez não venha sob a forma de bombardeios, e sim de disputa eleitoral. Também aqui os memes, os vídeos curtos, as montagens e as peças aparentemente banais serão parte decisiva da luta política. A extrema direita compreendeu cedo a força dessa linguagem e soube ocupá-la com eficácia, transformando humor, escracho, simplificação e repetição em armas de mobilização. Não basta lamentar isso, nem responder com desprezo elitista diante dessas formas de comunicação. É preciso entendê-las.
Mas é necessário reconhecer uma assimetria estrutural: a extrema direita tem vantagem nesse terreno porque seu conteúdo – simplificação binária, ódio ao “outro”, individualismo competitivo – encaixa-se perfeitamente na lógica do algoritmo, que premia polarização, repetição e engajamento rápido. A esquerda, que carrega a tarefa de explicar contradições, historicizar e propor complexidade, opera em desvantagem dentro da ecologia da pressa. Portanto, não basta “disputar formatos” – é preciso disputar a própria economia política das plataformas: algoritmos públicos, quebra de monopólios, financiamento democrático da comunicação. Sem isso, a guerra cultural será sempre assimétrica.
Entender o fenômeno é condição para enfrentá-lo. Não se derrota uma máquina contemporânea de propaganda apenas com boas intenções, nem apenas com argumentos longos e corretos. Será necessário disputar formatos, meios, linguagens e sensibilidades, sem abrir mão da crítica, da complexidade e do horizonte democrático. A batalha das ideias passa também pela batalha dos signos, das imagens e das formas de circulação.
Afinal, a próxima guerra, entre nós, será travada nas telas, nas redes, nas conversas cotidianas e, por fim, no voto. Mas o voto, por si só, não basta. A extrema direita não será derrotada apenas nas urnas enquanto as condições materiais de exploração, precarização e racismo forem reproduzidas diariamente. A guerra cultural é permanente, não apenas cíclica. Por isso, é preciso ir além do horizonte eleitoral: organização de base, resistência sindical, controle social dos meios de produção – inclusive dos meios de produção simbólica. A batalha dos memes é parte da luta de classes, e a luta de classes se resolve, em última instância, na transformação das relações de propriedade.
E será preciso vencê-la nas ideias, na propaganda e nas urnas – mas também nas ruas, nos locais de trabalho, nas plataformas democratizadas e, sobretudo, na construção de um poder popular que não se esgote no voto, derrotando a extrema direita também no terreno em que ela aprendeu a manipular com tanta eficiência.
Carlos Seabra, é presidente do Sindicato dos Escritores de SP, é autor de livros didáticos e de literatura infantil e juvenil. Editor de publicações e produtor de conteúdos culturais e educacionais de multimídia e internet, criador de jogos, palestrante, consultor e coordenador de projetos culturais e de tecnologia educacional.
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