HQs estimulam leitura crítica, ampliam a compreensão das desigualdades e ajudam estudantes a questionar narrativas, preconceitos e relações de poder.
Por Thiago Modenesi – de Brasília
Ainda existe em parte da sociedade a ideia de que histórias em quadrinhos são apenas entretenimento, destinadas principalmente a crianças e adolescentes. Essa visão, porém, não corresponde à diversidade e à complexidade que a Nona Arte alcançou. Quadrinhos podem divertir, emocionar e informar, mas também podem questionar certezas, denunciar injustiças, preservar memórias e revelar as contradições do mundo em que vivemos.

Mais do que uma ferramenta para transmitir conteúdos, as HQs podem contribuir para a formação de cidadãos críticos, reflexivos e atentos às desigualdades sociais, políticas, econômicas, culturais e raciais. Sua força está justamente na combinação entre texto e imagem, exigindo do leitor uma participação ativa na construção dos sentidos.
Uma das grandes potencialidades dos quadrinhos está no chamado espaço entre os quadros. Aquilo que não está explicitamente representado precisa ser imaginado e interpretado pelo leitor. Uma expressão facial, um enquadramento, uma mudança de cenário ou mesmo o silêncio de um personagem podem modificar completamente o significado de uma cena.
Por isso, ler uma HQ não é simplesmente acompanhar uma história. É aprender a observar, relacionar informações, identificar perspectivas e questionar escolhas narrativas.
Essa característica torna os quadrinhos especialmente interessantes para a educação. Pesquisas na área destacam seu potencial para a formação de leitores e para o desenvolvimento de práticas de leitura e interpretação.
Mas é preciso ir além de utilizar uma HQ apenas como ilustração de determinado conteúdo. O estudante precisa aprender a ler criticamente os próprios quadrinhos.
Quem produziu essa história? Que visão de mundo ela apresenta? Quem está representado? Quem foi deixado de fora? Que valores estão sendo transmitidos? Essas perguntas transformam a leitura em uma experiência de formação cidadã.
Algumas obras demonstram de maneira extraordinária essa capacidade. Maus, de Art Spiegelman, transforma a experiência do Holocausto em uma narrativa sobre memória, trauma, sobrevivência e preconceito. Ao acompanhar a história do pai do autor, o leitor não conhece apenas um acontecimento histórico: entra em contato com suas marcas sobre uma vida concreta.
Em Persépolis, Marjane Satrapi utiliza suas próprias memórias para apresentar a infância e a juventude durante a Revolução Iraniana e seus desdobramentos. A política aparece através da experiência cotidiana, permitindo compreender como grandes acontecimentos históricos afetam famílias, relações, comportamentos e identidades.
Essas obras nos fazem mudar a pergunta. Não basta saber “o que aconteceu?”. É preciso perguntar também: como foi viver aquilo? Quem sofreu suas consequências? Quem contou essa história? Quem permaneceu invisível? É justamente nesse deslocamento que a História se aproxima da cidadania.
As estatísticas são fundamentais para compreender a desigualdade, mas os números nem sempre conseguem transmitir a dimensão humana dos problemas sociais.
É aí que obras como Palestina, de Joe Sacco, ganham força. Ao utilizar recursos do jornalismo em quadrinhos, Sacco coloca no centro da narrativa pessoas atingidas pelo conflito e permite que o leitor conheça experiências que muitas vezes desaparecem nas grandes narrativas geopolíticas.
A Marcha, de John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell, apresenta a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos a partir da trajetória de um de seus protagonistas. Racismo, segregação, violência, mobilização política e democracia deixam de ser conceitos abstratos e passam a fazer parte de uma experiência humana.
Enquanto Gen: Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, realiza movimento semelhante ao apresentar Hiroshima a partir da perspectiva de uma criança. A guerra deixa de ser apenas uma decisão tomada por governos e passa a ser vista por quem perdeu familiares, casa e segurança. Essas obras e várias outras nos mostram que os quadrinhos possuem uma capacidade particular de humanizar problemas sociais e políticos.
Tradição
O Brasil também possui uma importante tradição de quadrinhos e humor gráfico comprometidos com a crítica social. Henfil é um dos exemplos mais importantes. A Graúna, o Bode Orelana e o Zeferino transformaram desigualdades, autoritarismo e problemas políticos brasileiros em personagens e situações carregadas de ironia durante a Ditadura Militar. Angeli, Laerte, Millôr Fernandes e tantos outros também demonstraram que o humor pode ser uma poderosa ferramenta de reflexão.
Isso ocorre também com as charges que podem, em poucos segundos, provocar uma pergunta que um longo discurso talvez não consiga produzir: por que aceitamos como normal aquilo que deveria nos incomodar? Essa capacidade de provocar estranhamento é uma das grandes forças da linguagem dos quadrinhos.
A produção brasileira contemporânea ampliou ainda mais esse potencial. Em Cumbe, Marcelo D’Salete aborda a escravidão a partir das experiências de pessoas negras escravizadas. Em Angola Janga, o autor revisita a história do Quilombo dos Palmares e da resistência negra. Jeremias: Pele, de Rafael Calça e Jefferson Costa, utiliza um personagem conhecido por diferentes gerações para abordar racismo e identidade. Essas obras demonstram que os quadrinhos também podem contribuir para ampliar a representação de grupos historicamente silenciados.
Ao lado delas, trabalhos como Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá, mostram que a formação cidadã não depende exclusivamente de histórias explicitamente políticas. Refletir sobre vida, morte, família, escolhas e relações humanas também significa pensar sobre a sociedade e sobre nossa própria existência.
A diversidade da produção contemporânea é, portanto, uma de suas maiores riquezas. Existe, entretanto, uma questão fundamental: nenhum quadrinho é automaticamente crítico ou educativo. Assim como livros, filmes, músicas e outras manifestações culturais, as HQs podem reproduzir preconceitos, estereótipos e determinadas visões de mundo. Por isso, educar através dos quadrinhos também significa ensinar a questioná-los.
Uma história de super-heróis pode permitir uma discussão sobre poder e justiça. Tintim no Congo pode ser analisado para compreender colonialismo e racismo. Diferentes versões do Batman podem provocar debates sobre violência e vigilantismo.
O objetivo não é dizer ao estudante o que ele deve pensar, mas ajudá-lo a perceber como uma narrativa constrói aquilo que pretende mostrar. É justamente nesse ponto que a leitura se transforma em exercício de cidadania.
Escola
A utilização dos quadrinhos na escola não deve ser justificada apenas porque eles despertam o interesse dos estudantes. Seu potencial é muito maior. Uma aula de História pode comparar uma HQ com documentos, fotografias e textos sobre o mesmo acontecimento. Sociologia pode discutir desigualdade, racismo e trabalho. Filosofia pode utilizar personagens e narrativas para problematizar ética, liberdade e justiça. Língua Portuguesa pode explorar a relação entre imagem, texto, ironia e narrativa.
Os quadrinhos não precisam substituir outras linguagens. Precisam dialogar com elas. Essa integração permite desenvolver aquilo que podemos chamar de letramento crítico e visual: a capacidade de compreender não apenas aquilo que uma mensagem diz, mas também como ela constrói seus significados.
E essa competência é fundamental em uma sociedade marcada pelas redes sociais, pela publicidade, pela circulação acelerada de imagens, pela desinformação e pela inteligência artificial. Formar leitores é fundamental. Mas uma sociedade democrática precisa formar também cidadãos capazes de interpretar criticamente aquilo que leem e veem.
Os quadrinhos podem contribuir para esse processo porque tornam muito visíveis as escolhas de quem narra: o enquadramento, o ponto de vista, o silêncio, a caricatura, a sequência das imagens e a representação dos personagens.
Ao aprender a perceber essas escolhas em uma HQ, o estudante pode começar a reconhecê-las também em notícias, propagandas, vídeos, memes e discursos políticos.
Talvez esse seja um dos maiores poderes da Nona Arte: ensinar a olhar. E, depois de ensinar a olhar, ensinar a perguntar. Por que a desigualdade existe? Quem se beneficia dela? Quem é prejudicado? Quem tem voz? Quem permanece invisível? Quem conta a história?
Em uma sociedade marcada por desigualdades, intolerância, desinformação e disputas de narrativas, formar cidadãos críticos é uma tarefa urgente. Os quadrinhos não resolverão sozinhos os problemas da educação ou da sociedade. Nenhuma linguagem possui esse poder. Mas podem oferecer uma contribuição extraordinária.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior contribuição dos quadrinhos para a formação cidadã: ensinar que compreender o mundo é o primeiro passo para questioná-lo, e que questioná-lo é também uma forma de começar a transformá-lo.
Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil