Rio de Janeiro, 02 de Outubro de 2026

Produções brasileiras ganham dois prêmios em Biarritz

O cinema brasileiro destacou-se no Festival de Biarritz com duas produções premiadas.

Sexta, 02 de Outubro de 2026 às 12:49, por: CdB

O cinema brasileiro destacou-se no Festival de Biarritz com duas produções premiadas.

Por Redação, com RFI – de Paris

Dois filmes brasileiros foram premiados na noite de quinta-feira no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz, na França. Pau d’Arco, de Ana Aranha, conquistou dois prêmios, enquanto Caso Isolado, de Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy, venceu na competição de curtas-metragens.

Caso Isolado, dos diretores Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy (à esquerda), recebeu o Abrazo de melhor curta-metragem no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz

O documentário Pau d’Arco, da jornalista e diretora Ana Aranha, conquistou dois troféus: o Prêmio do Júri Estudantil do Instituto de Altos Estudos da América Latina, acompanhado de 1,2 mil de euros, e o Prêmio do Público de melhor documentário.

O filme acompanha os sobreviventes da chacina ocorrida em 2017 na Fazenda Santa Lúcia, no Pará, quando uma operação policial terminou com a morte de 10 trabalhadores rurais.

Para Mariana Genescá, produtora de Pau d’Arco, receber dois prêmios em Biarritz foi “uma alegria imensa”, sobretudo diante da qualidade dos filmes que participaram da competição. Ela considera a premiação um reconhecimento importante para a trajetória do documentário e para o trabalho da diretora Ana Aranha, que estreia no cinema com o filme.

– Sem dúvida nenhuma, dá muita visibilidade para que a gente consiga seguir circulando e exibindo esse filme em muitos lugares, fazendo lembrar a memória do Fernando, sobrevivente e testemunha-chave da chacina, e, ao mesmo tempo, reconhecendo a importância de todo mundo que luta pelo direito à terra – afirmou a produtora em entrevista à agência francesa de notícias RFI.

Entre as duas distinções recebidas, Mariana atribui um significado especial ao prêmio do público. “A gente sempre brinca que o prêmio do público é aquele mais valioso, mais importante, porque, de fato, é para quem a gente faz os filmes.” Segundo ela, a recepção em Biarritz já havia demonstrado o envolvimento dos espectadores franceses. A sessão foi seguida de um debate com uma plateia que, de acordo com a produtora, estava “muito tocada, muito engajada, muito preocupada”. “Esse prêmio coroa esse reconhecimento do público”, concluiu.

Paraíba

O Brasil também venceu na competição de curtas-metragens. Caso Isolado, de Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy, recebeu o Abrazo de melhor curta-metragem, prêmio concedido com apoio do grupo de televisão pública France Télévisions.

A produção paraibana aborda as diferenças de tratamento associadas ao tom de pele dentro da própria população negra e os conflitos de identidade racial vividos por quem não se encaixa nas categorias tradicionalmente reconhecidas pela sociedade.

A história acompanha Cristina, uma entregadora de cosméticos que percorre a cidade realizando vendas. A cada parada, ela se depara com diferentes ambientes sociais e situações que revelam preconceitos muitas vezes naturalizados no cotidiano.

Para Jamila Facury, diretora e atriz principal de Caso Isolado, o prêmio de melhor curta-metragem em Biarritz representa não apenas o reconhecimento do trabalho da equipe, mas também a importância das políticas de incentivo ao audiovisual brasileiro.

– É fruto de políticas públicas que nos levaram a esse lugar, de ter a possibilidade de realizar esse filme, de estar aqui, de ganhar esse prêmio – afirmou.

A diretora lembra que uma premiação internacional também pode ter consequências concretas para a continuidade de sua carreira, já que a trajetória dos realizadores é levada em conta nos editais de financiamento. “Ter estado aqui, ter recebido esse prêmio, ter tido um curta premiado já me abre portas para acessar mais recursos quando eu submeter algum projeto”, comemorou.

– Demorou para cair a ficha – disse Edson Akatoy à RFI após a vitória. “Quando a gente faz todo um exercício de relembrar a nossa trajetória desde o curso de cinema na UFPB, há uns dez, 12 anos, e vê esse reconhecimento, você não encontra palavras”, contou. “De alguma forma, está reconhecendo nosso esforço, nosso trabalho. Fico muito feliz”, completou.

O prêmio também pode ajudar a abrir caminho para o próximo passo da dupla. A história de Caso Isolado nasceu de um projeto de longa-metragem, que os realizadores agora esperam conseguir viabilizar. Edson acredita que o reconhecimento em Biarritz poderá funcionar como um diferencial na busca por financiamento e espera que as políticas públicas de incentivo tenham continuidade. “A gente vai tentar, sem dúvida, utilizar isso como um diferencial para tentar aprovar o projeto maior”, disse.

Enquanto o longa ainda é um projeto, Caso Isolado continua sua trajetória por festivais, com participação prevista em Los Angeles e novas exibições no Brasil. Para Jamila, ampliar o público significa também fazer circular a discussão proposta pelo filme sobre racismo e comportamentos muitas vezes naturalizados. “A gente precisa enxergar o lugar que a gente ocupa nessa engrenagem que perpetua o racismo e o quanto contribui para isso inconscientemente. Só assim é que a gente desarticula essa estrutura”, concluiu.

Vencedores

Entre os longas de ficção, o grande vencedor da noite foi Hangar Rojo, de Juan Pablo Sallato, uma coprodução entre Chile, Itália e Argentina. O filme levou o Abrazo de melhor filme, acompanhado de 5 mil de euros de apoio à distribuição, além do Prêmio do Público de ficção. A história se passa nos anos 1970, no Chile, e aborda a tortura durante a ditadura militar. Nicolás Zarate também foi premiado por sua atuação no longa-metragem.

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