Keir Starmer prometeu “continuar governando”, apesar de vozes dentro de seu Partido Trabalhista pedirem para que ele deixe o cargo, entre elas, ao menos 80 deputados e três membros de seu gabinete, que se demitiram.
Por Redação, com DW – de Berlim
O primeiro-ministro britânico, o trabalhista Keir Starmer, prometeu nesta terça-feira “continuar governando”, apesar das vozes dentro do Partido Trabalhista que pedem sua renúncia, entre elas três membros de seu gabinete, que apresentaram suas demissões.

As secretárias de Estado Miatta Fahnbulleh (Habitação), Jess Phillips (Proteção contra a Violência contra Mulheres e Meninas) e Alex Davies-Jones (Vítimas e Justiça) deixaram suas funções por discordarem da liderança do partido, embora Starmer ainda conte com apoios dentro de seu governo.
As vozes dissidentes no trabalhismo surgem como consequência do duro revés do governo nas eleições locais e regionais realizadas na quinta-feira passada.
Em queda
Desde que chegou ao poder em julho de 2024, a popularidade do líder, de 63 anos, não parou de cair, em um contexto de economia estagnada e aumento do custo de vida, agravado recentemente pela guerra no Oriente Médio.
Starmer também ficou envolvido em um escândalo relacionado à nomeação e posterior destituição de Peter Mandelson como embaixador do Reino Unido em Washington, após serem revelados seus vínculos com o criminoso sexual americano Jeffrey Epstein.
Além das três secretárias de Estado, ao menos 80 deputados trabalhistas, de um total de 403, pediram para que Starmer renuncie imediatamente ou que estabeleça um cronograma para sua saída.
Por outro lado, mais de 100 parlamentares do Partido Trabalhista teriam assinado uma declaração rejeitando os apelos por uma disputa interna pela liderança, segundo a imprensa britânica, manifestado apoio público a Starmer.
A declaração pede que os membros do partido “trabalhem juntos para entregar a mudança de que o país precisa”, destacando a importância da união em um momento de dificuldades políticas. “Precisamos nos concentrar nisso. Este não é o momento para uma disputa pela liderança”, afirmaria o texto.
A promessa de Starmer, feita nesta segunda-feira, de continuar lutando e provar que seus críticos estão errados fez pouco para acalmar os clamores por sua remoção.
Miatta Fahnbulleh tornou-se nesta terça-feira a primeira ministra júnior a renunciar, pedindo a Starmer que “faça o que é certo para o país e para o partido e estabeleça um cronograma para uma transição ordenada”.
Em seguida, Jess Phillips deixou o cargo de ministra responsável pela Proteção, dizendo a Starmer em uma carta que não estava vendo a mudança que “eu – e o país – esperamos”.
A ministra do Interior, Shabana Mahmood, tornou-se na noite de segunda-feira a autoridade mais graduada do governo a aconselhar Starmer a reconsiderar sua posição, segundo a imprensa britânica.
Os jornais informaram que outros ministros de alto escalão, incluindo o vice-primeiro‑ministro David Lammy e Yvette Cooper, conversaram com Starmer sobre sua permanência no cargo.
“País espera que continuemos governando”.
O primeiro-ministro afirmou nesta terça-feira que continuará no posto, mas a pressão segue aumentando. “O Partido Trabalhista tem um processo para contestar um líder, e esse processo não foi ativado. O país espera que continuemos governando. É isso que estou fazendo e é isso que devemos fazer como gabinete”, afirmou Starmer à sua equipe ministerial, segundo um comunicado oficial.
Nas eleições locais da quinta-feira passada, o trabalhismo, que em 2024 colocou fim a 14 anos de governos conservadores, perdeu cerca de 1,5 mil vereadores e viu um forte avanço do partido anti-imigração Reform UK.
O processo do Partido Trabalhista para desafiar um líder – ao qual Starmer se referiu nesta terça-feira no comunicado de Downing Street – exige que um candidato se declare formalmente e obtenha o apoio de 81 deputados (20% da bancada parlamentar).
Vários ministros do gabinete manifestaram apoio a Starmer após a reunião, entre eles o ministro da Defesa, John Healey, que advertiu que “mais instabilidade não é do interesse do Reino Unido”.
A secretária de Tecnologia, Liz Kendall, afirmou que ele conta com seu “apoio total”, enquanto o secretário de Negócios e Comércio, Peter Kyle, disse que Starmer está “demonstrando uma liderança realmente firme”.
O ministro da Habitação, Steve Reed, também destacou que um desafio formal à liderança ainda não foi iniciado, “portanto, todos nós pretendemos continuar fazendo nosso trabalho”.
O ministro do Trabalho, Pat McFadden, incentivou Starmer a “continuar lutando”. “Ele vai continuar fazendo seu trabalho como deve e como o povo espera que ele faça”, declarou McFadden ao final do conselho de ministros.
Muitos responsáveis trabalhistas desejam evitar a repetição de uma situação semelhante à de 2022, quando os conservadores tiveram três primeiros‑ministros em quatro meses.
Possíveis candidatos
Uma eventual saída de Starmer não provocaria eleições legislativas, mas sim sua substituição por outra figura do Partido Trabalhista.
Entre os que são considerados como detentores de ambições para a liderança estão o ministro da Saúde, Wes Streeting, e a ex‑vice‑primeira‑ministra Angela Rayner, que teve que renunciar no ano passado após reconhecer que não pagou imposto suficiente na compra de um imóvel. A investigação sobre o caso ainda está em andamento.
Andy Burnham, o popular prefeito da região metropolitana de Manchester, e a personalidade trabalhista mais popular, segundo as pesquisas, é amplamente visto como um dos candidatos mais fortes. No entanto, no momento ele não está apto a concorrer, pois não é membro do Parlamento, condição indispensável para se tornar chefe de governo.
No início deste ano, dirigentes do Partido Trabalhista o impediram de disputar uma eleição parlamentar suplementar.
No entanto, se Starmer sinalizar que pretende deixar o cargo – por exemplo, durante a conferência anual do Partido Trabalhista em setembro – poderia ser encontrada uma forma de Burnham retornar à Câmara dos Comuns. Um parlamentar trabalhista em um distrito relativamente seguro poderia renunciar, abrindo uma nova oportunidade para Burnham. Mas vencer essa eleição suplementar seria outra questão, à luz dos resultados mais recentes das eleições locais.