Rio de Janeiro, 26 de Janeiro de 2026

Os ‘pecados’ a evitar na redação com usos de inteligência artificial

Por Carlos Seabra  – Alguns dos vícios mais comuns que devem ser sempre retrabalhados para o texto ficar com voz humana e clareza didática.

Segunda, 26 de Janeiro de 2026 às 09:38, por: CdB

Alguns dos vícios mais comuns que devem ser sempre retrabalhados para o texto ficar com voz humana e clareza didática.

Por Carlos Seabra – de São Paulo

A IA ajuda a rascunhar, destravar e organizar ideias, mas costuma deixar “marcas de fábrica” no texto. Aqui estão alguns dos vícios mais comuns que devem ser sempre retrabalhados para o texto ficar com voz humana, clareza didática e estilo consistente com a obra que esteja a ser produzida.

Os ‘pecados’ a evitar na redação com usos de inteligência artificial | Os textos produzidos com apoio de IA devem manter a temperatura da luta, o gosto da fala popular e o ritmo do pensamento crítico
Os textos produzidos com apoio de IA devem manter a temperatura da luta, o gosto da fala popular e o ritmo do pensamento crítico

Além de identificar os “pecados” estilísticos mais comuns, é fundamental compreender que escrever com auxílio de IA exige vigilância política e sensibilidade comunicacional. A luta por um discurso emancipador não se coaduna com textos pasteurizados, com vocabulário genérico e estruturas que diluem o sentido de classe e de território.

Muitos militantes hoje escrevem para jornais sindicais, atas de assembleias, boletins de base, materiais de formação ou trabalhos acadêmicos. Nestes casos, a IA pode ser útil, mas deve ser domada. O estilo sindical – claro, direto, mas com densidade crítica – não pode ser substituído por uma retórica publicitária ou por frases genéricas típicas de manuais empresariais.

Assim como lutamos contra a automação que precariza o trabalho, devemos lutar contra a automação da linguagem que precariza a reflexão. Os textos produzidos com apoio de IA devem manter a temperatura da luta, o gosto da fala popular e o ritmo do pensamento crítico. Como ensinava Paulo Freire, escrever é um ato político, e nenhum algoritmo pode substituir essa escolha ética e estética.

Travessões demais e do tipo errado; vírgulas antes do “e”

Evite o uso frequente de travessões como muleta de ritmo, especialmente para encaixar explicações no meio da frase. Quando for realmente necessário, use apenas o travessão médio (–) e nunca o travessão longo (—). Na maior parte dos casos, prefira reescrever com vírgulas, parênteses ou em duas frases. Não use vírgula antes de etc. A IA também costuma colocar vírgula antes do “e” quando não usamos em português, pois ela segue normas de escrita da língua inglesa por default.

Listas em excesso, listas longas e listas “sem pedagogia”

Textos gerados por IA tendem a virar sequência de bullets e listas numeradas. Use listas só quando isso ajudar a aprender: passo a passo, comparação, síntese, critérios, checklist de atividade. Se a lista não acrescenta clareza, reescreva em parágrafos e deixe o texto fluir. Também evite listas com muitos itens, elas viram “catálogo” e cansam (ou coloque-as dentro de um box específico).

Adjetivação inflada e entusiasmo genérico

A IA gosta de adjetivos que não informam nada: “incrível”, “poderoso”, “rico”, “dinâmico”, “robusto”, “relevante”. Adjetivo, no seu texto, deve entrar por necessidade, não por enfeite. Troque adjetivos por dados, exemplos concretos, comparações simples ou por verbos mais precisos.

Frases com “cara de palestra” e chavões repetidos

Evite fórmulas prontas como “em um mundo cada vez mais digital”, “na era da informação”, “é importante ressaltar que”, “vale destacar que”, “de forma geral”, “de maneira significativa”. Elas ocupam espaço sem dizer algo específico. A regra é simples: se a frase não muda o entendimento do leitor, corte ou substitua por uma afirmação concreta.

Estrutura rígida e previsível demais

A IA tende a montar parágrafos com “introdução – explicação – conclusão” sempre iguais, como se cada trecho fosse uma mini redação. Misture ritmos: comece por uma pergunta, uma cena, um exemplo, um problema real da escola, uma situação cotidiana online e offline. Varie o tamanho das frases, sem perder clareza.

Repetição de conectivos e “amarradores”

Outro vício é encadear tudo com “além disso”, “por outro lado”, “no entanto”, “portanto”, “dessa forma”. Quando cada frase começa com um conector, o texto fica artificial. Use conectivos quando houver contraste, consequência ou sequência real. Em muitos casos, ponto final resolve melhor.

Tom professoral, moralista ou prescritivo

IA frequentemente escorrega para sermão: “você deve”, “nunca faça”, “sempre lembre”. Prefira um tom de conversa orientadora, com foco em autonomia e reflexão. Quando precisar de orientação direta (por exemplo, segurança, privacidade, direitos), seja objetivo, sem bronca e sem dramatização.

Generalizações sem lastro e afirmações absolutas 

Cuidado com “sempre”, “nunca”, “todos”, “ninguém”, “a maioria” sem base. IA inventa certezas com facilidade. Quando for uma tendência, diga que é tendência. Quando for exemplo, diga que é exemplo. E, se houver dado, fonte ou data, marque para checagem obrigatória.

Falta de exemplo concreto e excesso de abstração

IA escreve bonito, mas frequentemente não mostra. Sempre que aparecer um conceito (algoritmo, bolha informacional, desinformação, pegada digital, curadoria), garanta ao menos um exemplo cotidiano, preferencialmente ligado a práticas juvenis, situações escolares ou da vida política e social concreta.

“Definição de dicionário” e parágrafos enciclopédicos

Evite começar tópicos com “x é…” em modo verbete e seguir com explicações longas e neutras. Traga o conceito para uma situação: “quando você…”, “em um grupo de mensagens…”, “numa pesquisa para trabalho escolar…”. A definição pode vir depois, mais curta.

Padronização errada de maiúsculas e títulos

A IA tende a capitalizar como no inglês (Title Case), colocando maiúsculas em quase todas as palavras de títulos e intertítulos. Use maiúsculas apenas no início da frase e em nomes próprios/siglas. Faça uma varredura final especialmente em títulos, intertítulos, nomes de capítulos, nomes de leis, programas, órgãos e documentos.

Variação mal calibrada de termos ou repetição desnecessária

Variar termos muito frequentes pode ser uma boa estratégia de fluência, desde que não altere o sentido nem crie ruído. Em palavras de uso recorrente, como celular/smartphone/dispositivos móveis, a alternância pode ajudar a evitar repetição cansativa, desde que o texto deixe claro que está falando da mesma coisa e não de categorias diferentes. O cuidado é com casos em que a IA troca palavras que não são equivalentes, ou mistura termos técnicos e comuns sem avisar, gerando ambiguidade.

Traduções literais e falsos cognatos

Cuidado com construções importadas do inglês: “fazer sentido para” em excesso, “impactar” quando “afetar” resolve, “atualmente” usado como muleta, “eventualmente” no sentido de “por fim”, “assistir” no sentido de “dar suporte”, “abordar” quando usado de forma vaga. Prefira o português direto e natural, mais preciso e menos jargão de tradução automática.

Precaução nas referências a marcas e plataformas

A IA costuma citar marcas e plataformas como se fossem padrão universal. Evite prescrever ferramenta específica quando não for necessário. Quando citar, faça como exemplo e, de preferência, com alternativas ou descrição genérica do tipo de serviço.

Coesão artificial e retomadas “robóticas”

Fique atento a retomadas mecânicas: “isso significa que…”, “em outras palavras…”, “em suma…”. Use quando forem realmente necessárias para o leitor, mas não como preenchimento. Muitas vezes, uma frase mais clara elimina a necessidade de explicar de novo.

Encerramentos “de redação do Enem”

IA adora fechar com “conclui-se que”, “portanto, é fundamental…”. Nos seus textos, o fechamento deve ser mais vivo: uma pergunta de reflexão, uma ponte para a atividade, um convite a observar a própria prática online e offline.

Conteúdo plausível, mas inexistente

Ao pedir sugestões de bibliografia, referências, leis, relatórios, ferramentas ou exemplos, não confie no “tom de certeza” da IA. Mesmo quando você fornece título, autor, editora e ano, isso não garante que o resultado seja real: a IA pode completar lacunas, misturar obras diferentes e inventar referências muito verossímeis, porém falsas. Por isso, toda indicação bibliográfica sugerida por IA deve ser checada em fonte confiável (catálogo de biblioteca, site da editora, base acadêmica, diário oficial, repositório institucional etc.) antes de entrar no seu texto final.

Dicas práticas:

Use a IA como motor de hipótese e de organização (para levantar termos de busca, autores relacionados, palavras-chave, perguntas, estruturas de leitura e caminhos possíveis). Evite copiá-la ipsis literis, porque isso preserva justamente os cacoetes de estilo e os riscos de conteúdo.Lembre-se: quando você pesquisa e escreve, precisa confirmar sempre toda a informação recebida, seja automatizada ou humana”.

 

Carlos Seabra, é presidente do Sindicato dos Escritores de SP, é autor de livros didáticos e de literatura infantil e juvenil. Editor de publicações e produtor de conteúdos culturais e educacionais de multimídia e internet, criador de jogos, palestrante, consultor e coordenador de projetos culturais e de tecnologia educacional. 

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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