Contudo, quando falo em Grande Israel, não me refiro necessariamente a um projeto de expansão territorial imperial nos moldes clássicos do século XIX.
Por Arlindenor Pedro – de Resende (RJ)
Quando observo as recentes declarações de Benjamin Netanyahu acerca da possibilidade de Israel reduzir progressivamente sua dependência da ajuda militar dos Estados Unidos, tenho a impressão de que estamos diante de algo muito mais profundo do que um simples ajuste diplomático. O que se revela nessas palavras é, antes de tudo, a expressão de uma mudança de posição estratégica. Quando um dirigente israelense afirma que seu país pode caminhar para uma situação de maior autonomia militar e política, ele sinaliza que Israel já se percebe como um polo regional consolidado, capaz de agir com maior independência dentro da ordem internacional. Ao refletir sobre esse movimento, considero inevitável relacioná lo a uma ideia que aparece com frequência crescente no debate político contemporâneo: o chamado projeto do Grande Israel.

Trago esse conceito à discussão porque ele aparece repetidamente como referência a uma concepção maximalista do território histórico judaico. Em sua dimensão simbólica, ele remete às narrativas bíblicas da terra prometida, descrita como uma região que se estenderia desde o Egito até a área do Eufrates. No entanto, quando observo o cenário político contemporâneo, percebo que essa noção vem assumindo contornos cada vez mais concretos e estratégicos. Ela se expressa sobretudo na defesa da manutenção do controle israelense sobre territórios considerados decisivos, como Jerusalém Oriental, as Colinas de Golan e a Cisjordânia, bem como na rejeição sistemática de soluções que impliquem a criação de um Estado palestino plenamente soberano.
Contudo, quando falo em Grande Israel, não me refiro necessariamente a um projeto de expansão territorial imperial nos moldes clássicos do século XIX. O que parece emergir é algo distinto: uma forma de hegemonia regional sustentada por superioridade tecnológica, militar e econômica. Israel não busca apenas ser uma potência militar dominante na região. Seu objetivo estratégico parece ser também consolidar se como o principal polo econômico, tecnológico e financeiro do Oriente Médio. Nesse sentido, o projeto sionista contemporâneo se apresenta menos como um expansionismo territorial direto e mais como um projeto de liderança estrutural sobre a região.
Para compreender esse horizonte político, considero indispensável explicar o que é o sionismo. O sionismo surgiu no final do século XIX como um movimento nacional moderno que defendia a criação de um Estado judeu. Ele nasceu em um contexto europeu marcado pelo crescimento do nacionalismo e pelo agravamento do antissemitismo. Intelectuais e ativistas judeus passaram então a defender que a única forma de garantir segurança coletiva ao povo judeu seria a construção de um Estado próprio.
Ao longo do tempo, o sionismo assumiu diferentes correntes internas. Houve um sionismo socialista, um sionismo liberal e um sionismo religioso. Apesar dessas diferenças ideológicas, todas essas correntes compartilhavam uma convicção fundamental: a de que o retorno à terra de Israel deveria constituir a base de um projeto nacional de reconstrução histórica. Com a fundação do Estado de Israel em 1948, o sionismo deixou de ser apenas um movimento político e passou a tornar se também a ideologia estruturante de um Estado que se percebia simultaneamente como refúgio nacional e como projeto histórico de reconstrução civilizacional.
Nas últimas décadas, esse projeto encontrou uma nova configuração regional com os chamados Acordos de Abraão. Esses acordos representaram a normalização das relações diplomáticas entre Israel e diversos Estados árabes que durante décadas haviam se apresentado como defensores da causa palestina. No entanto, sua importância ultrapassa em muito o plano diplomático. Eles revelam uma profunda reconfiguração das alianças estratégicas no Oriente Médio.
Diversos regimes árabes passaram a perceber que a cooperação tecnológica e militar com Israel poderia oferecer vantagens estratégicas superiores à manutenção de um antagonismo político permanente. A partir daí começou a emergir um novo eixo de segurança regional que aproxima Israel de várias monarquias do Golfo. Nesse contexto, torna se evidente que, no mundo contemporâneo, os interesses econômicos e estratégicos frequentemente falam mais alto do que as identidades religiosas ou as narrativas ideológicas.
Quando examino esse processo com maior atenção, não posso deixar de destacar o caráter profundamente conservador e oligárquico de muitos Estados do Oriente Médio. Em grande parte da região, o poder político permanece concentrado nas mãos de dinastias familiares que controlam simultaneamente os aparelhos de Estado, os recursos econômicos e os instrumentos militares. Esses regimes frequentemente apresentam se como defensores da tradição islâmica e da solidariedade entre os povos árabes. Contudo, quando observamos sua política externa concreta, torna se evidente uma lógica pragmática de preservação do poder.
A cooperação com Israel demonstra que os princípios religiosos proclamados por esses regimes podem ser rapidamente relativizados quando entram em jogo interesses estratégicos e econômicos. Surge assim uma contradição evidente entre o discurso público de defesa do Islã e a integração prática dessas elites em um sistema regional de poder que inclui Israel como parceiro fundamental.
A base econômica dessa estrutura regional continua profundamente ligada ao petróleo e ao capital financeiro global. Durante décadas, as monarquias do Golfo sustentaram sua estabilidade política por meio da renda petroleira. Essa renda permitiu a formação de Estados altamente centralizados capazes de distribuir benefícios econômicos e reduzir tensões sociais internas. Entretanto, o mundo contemporâneo caminha rapidamente para uma transição energética e para uma profunda reorganização do capitalismo global.
Diante desse cenário, as elites da região procuram novas formas de inserção no sistema internacional. Fundos soberanos, investimentos financeiros globais e parcerias tecnológicas tornaram se instrumentos centrais dessa estratégia. Israel surge nesse contexto como um parceiro particularmente atrativo devido à sua capacidade de inovação tecnológica e à sua profunda integração com o capitalismo global.
Para compreender a dimensão mais ampla dessas transformações, considero útil recorrer ao conceito de “guerra de ordenamento mundial”desenvolvido pela crítica do valor dissociação. Autores como Robert Kurz argumentam que o capitalismo contemporâneo entrou numa fase de crise estrutural da valorização do valor, na qual o avanço tecnológico reduz progressivamente a necessidade de trabalho humano e enfraquece a base da produção de valor que sustenta o sistema. Como consequência, regiões inteiras do mundo entram em processos de desintegração econômica e social.
Nesse contexto, as guerras contemporâneas deixam de ser apenas disputas territoriais clássicas e passam a funcionar como mecanismos de gestão dessa crise global. Elas procuram reorganizar regiões instáveis dentro de uma ordem internacional cada vez mais fragmentada. O Oriente Médio tornou se um dos principais cenários dessa dinâmica. Conflitos prolongados, intervenções externas e alianças voláteis refletem a tentativa de administrar uma região onde os processos de modernização ocorreram de forma profundamente desigual.
Dentro desse quadro também é necessário observar a política externa dos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump. A retórica do movimento Maga enfatizava a prioridade aos interesses internos americanos e uma relativa distância em relação a conflitos externos. Entretanto, quando analisamos as decisões concretas daquele governo, percebemos que muitas delas acabaram reforçando posições estratégicas favoráveis ao projeto geopolítico israelense.
O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e o apoio decisivo aos Acordos de Abraão foram exemplos claros dessa orientação. Essa postura produziu uma tensão evidente com a própria narrativa populista que havia levado Trump ao poder, pois parte significativa de sua base política esperava uma redução do envolvimento americano em conflitos externos.
A escalada das tensões com o Irã introduziu um novo elemento de instabilidade regional. Os interesses estratégicos do regime iraniano entram em choque direto com os projetos de expansão regional de Israel e de seus aliados árabes. Diante de pressões militares e sanções econômicas, o Irã passou a responder por meio de uma estratégia de expansão indireta do conflito. Em vez de confrontar diretamente os Estados Unidos, procura aumentar o custo da presença americana na região por meio de ataques a bases militares e a aliados regionais.
Essa estratégia amplia o risco de uma guerra regional de grandes proporções e revela os limites da capacidade americana de controlar completamente a dinâmica política do Oriente Médio. Além disso, alimenta a oposição interna nos Estados Unidos contra a continuidade do conflito e provoca divisões dentro do próprio movimento Maga.
Quando reúno todos esses elementos e os apresento aos leitores, chego a uma conclusão que considero inevitável. O Oriente Médio atravessa uma transformação histórica profunda. As alianças que existiam há poucas décadas estão sendo substituídas por novas configurações de poder. A combinação entre crise econômica global, transformação energética e rivalidades geopolíticas cria um cenário no qual nenhuma força consegue impor uma ordem definitiva.
Por essa razão, acredito que a região dificilmente voltará a ser o que foi no passado. Depois desta guerra aberta ou latente, o Oriente Médio continuará sendo um centro decisivo da política mundial, mas sua estrutura de poder já está sendo redesenhada de maneira irreversível.
Quem viver verá.
Serra da Mantiqueira
Março de 2026
Arlindenor Pedro
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Arlindenor Pedro é ex-preso político e anistiado. É também professor de história, filosofia e sociologia, além de editor do Blogue: Utopias Pós-