Quem esperava virar muitos votos com o debate de ontem, na Band, está frustrado. Mas era o esperado. O Flávio é malandro diplomado e todo mundo sabia que iria tentar de tudo para atrapalhar o Lula. Mas suas trapalhices poderiam ser dribladas pelo pela sagacidade e experiência de Lula. Porém, o formato da realização proposta pela TV Bandeirantes poderia ter sido aceita como inovadora, criativa, o que seja, talvez para se diferenciar do que será o debate da sexta pela Globo, mas foi uma catástrofe.
Por Rui Martins, editor do Direto da Redação
A TV Band perdeu a grande chance de mostrar um bom debate presidencial
Sou um homem de imprensa, acostumado a ver debates políticos, isso há anos e anos, não só no Brasil, como em outros países. Nunca vi algo tão mal feito e tão mal dirigido, com uma câmera em movimento permitindo uma invasão do campo de vista do entrevistado, desviando a atenção dos telespectadores.
Tudo bem, se o tema em debate fosse o jogo do Corinthians contra o Flamengo, mas, por favor, não se tratava de uma brincadeira, e sim de um debate político de primeira grandeza, às vésperas do segundo turno de uma eleição, na qual se vai decidir o futuro do Brasil! Que irresponsabilidade!
E decidi externar meu descontentamento e mesmo indignação, diante de algumas cenas colocando o presidente Lula fora do foco principal, quando respondia, enquanto a tela abrangia a figura de Flávio sempre em movimento.
Mesmo no debate Biden -Trump não se viu tamanho absurdo. Haveria o desejo oculto de se impedir ao Debate a possibilidade de Lula desmascarar Flávio?
Não acredito, mas imagino ter sido o desejo da produção da Band de fazer algo novo na forma, talvez até inédito, porém o resultado foi um fiasco, mesmo com explosão no número de espectadores, além de ter favorecido ao candidato Flávio, junto ao seu público que considera como espertezas as suas safadezas.
Um debate de tão grande importância não poderia ser um ensaio ou uma inovação. O exemplo norteamericano e francês é o de face-a-face dos candidatos ou dos candidatos em pé diante de uma tribuna ou púlpito. Cada resposta ou intervenção tem tela cheia com o rosto do candidato.
Para quem ler este texto, coloquei embaixo os links para os debates com os finalistas no segundo turno, nos EUA e França. Não quero ensinar padre nosso pro vigário, mas ao ver o debate de ontem, senti que o formato escolhido permitiu ter havido mesmo desrespeito ao nosso presidente. (Rui Martins também está em versão sonora no Youtube, em seu canal – https://www.youtube.com/@rpertins)
Referências ignoradas:Cenas do debate Macron x Marine Le Pen, na tv francesa, antes das eleições.
https://www.youtube.com/watch?v=4_olpemc3P8
https://www.youtube.com/watch?v=dH9uXWh3n-Y
Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.