Rio de Janeiro, 10 de Junho de 2026

Morreu Jean Ziegler, o inimigo n.1 dos bancos suíços

Jean Ziegler, sociólogo e inimigo dos bancos suíços, faleceu aos 92 anos. Conhecido por suas críticas à elite financeira e seu ativismo pelos direitos humanos, ele deixou um legado importante.

Quarta, 10 de Junho de 2026 às 18:48, por: Rui Martins

Morreu, nesta quarta-feira, dia 10 de junho, aos 92 anos, o suíço Jean Ziegler, um suíço como nenhum outro. Professor, sociólogo, escritor, político e, o mais importante, o inimigo número 1 dos bancos suíços, cujo livro A Suíça Lava mais Branco, foi denúncia internacional, editado também no Brasil.

Por Rui Martins, editor do Direto da Redação.
Os livros de Jean Ziegler eram publicados pela Brasiliense

Ziegler foi o intelectual suíço mais detestado e mais criticado na Suíça e, ao mesmo tempo, o mais amado e respeitado no que se chamava de Terceiro Mundo. Foi amigo de Sartre, de Simone de Beauvoir, de Guevara e dos grandes líderes de esquerda da época.

Quando num encontro com Guevara, disse querer ir lutar na América Latina, Guevara lhe respondeu – “Não, você tem de ficar na Suíça, onde está a cabeça do monstro”.

Ziegler foi professor universitário, deputado federal suíço e relator especial da ONU sobre direito à alimentação.

Era detestado na Suíça

O nome de Jean Ziegler começou a ser detestado pelos financistas, pela elite financeira e bancos suíços em 1976 com a publicação do livro Uma Suíça Acima de Qualquer Suspeita, no qual Ziegler denunciava os lucros das multinacionais suíças às custas dos países pobres, o segredo bancário incentivador da sonegação de impostos com a fuga para a Suíça de capitais estrangeiros e o controle das instituições suíças pelos meios financeiros.

Alvo de numerosos processos por bancos e entidades financeiras, Ziegler revelava, no fim da vida numa entrevista para Swissinfo, ter perdido seus bens nas condenações de que fora alvo. Felizmente, tinha o cargo de relator da ONU para a Alimentação e havia a publicação de uma vintena de livros com bastante sucesso no Exterior.

No dizer da imprensa, seus livros eram suas armas, tanto que o jornal suíço Le Temps chamou-o de “guerrilheiro da sociologia”, ao noticiar sua morte.

Um desses livros, responsável por processos e notoriedade no Exterior, foi A Suíça Lava mais Branco, pelo qual seus colegas deputados federais lhe tiraram a imunidade parlamentar. Veio a seguir A Suíça, o Ouro e os Mortos, tratando da neutralidade suíça, durante a Segunda Guerra Mundial. Os livros de Jean Ziegler eram publicados no Brasil pela Editora Brasiliense.

Embora de família suíço-alemânica protestante e conservadora, Ziegler aderiu ao marxismo ao estudar Direito em Paris.

Eu havia lido, em Paris, seu livro Uma Suíça Acima de Qualquer Suspeita, e ao me mudar para a Suíça, onde trabalhei para a Rádio Suíça Internacional, quis logo conhecer e entrevistar Jean Ziegler. Fiz diversas reportagens sobre ele para a Rádio Suíça Internacional e, mais tarde, para jornais e rádios brasileiros e portugueses.

Acabamos ficando amigos e quando estourou o escândalo do desvio de dinheiro público para bancos suíços pelo ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf, recebi o convite do Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial para contar num livro minhas reportagens para a CBN sobre Maluf. Foi Jean Ziegler quem escreveu o prefácio desse livro, cujo título é Dinheiro Sujo da Corrupção.

Essas reportagens tinham custado minha demissão da CBN,como contou para o Observatório da Imprensa o jornalista paraibano Carlos Aranha.
Também o jornalista Lúcio Vilar, no texto Políticos Viraram Marionetes, publicado no Correio da Paraíba e Observatório da Imprensa, escreveu: “Se o dinheiro é o sangue dos pobres… os milhões de dólares transferidos por Maluf e escondidos na Suíça, com a cumplicidade dos banqueiros suíços, são o sangue e as lágrimas dos favelados de São Paulo” assim escreveu Jean Ziegler…no prefácio do livro O Dinheiro Sujo da Corrupção.
Algumas referências:

Le Temps
https://www.letemps.ch/suisse/geneve/jean-ziegler-guerillero-de-la-sociologie-et-maitre-a-penser-des-resistances-est-mort?srsltid=AfmBOooeV899sJn3_xwKmpzcY6hpczltex7nJHUMuOna438wVM_jcmbhSwissinfo
https://www.swissinfo.ch/por/economia/jean-ziegler-porque-o-capitalismo-%c3%a9-t%c3%a3o-ruim/47452664Entrevista com Jean Ziegler
https://www.swissinfo.ch/fre/economie/jean-ziegler-le-cerveau-du-monstre-est-en-suisse/47661314

Morte de Ziegler
https://www.rts.ch/audio-podcast/2026/audio/jean-ziegler-figure-de-la-gauche-suisse-est-decede-a-l-age-de-92-ans-29269865.html

Observatório da Imprensa
https://www.observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/politicos-viraram-marionetes/

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

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