Entre austeridade, “liberdade” de mercado e radicalização política, a direita bolsonarista tenta se reinventar sob o verniz de Flávio. Mas com o mesmo DNA do governo Bolsonaro.
Por Marcos Verlaine – de São Paulo
A Argentina de Javier Milei virou, para a direita radical latino-americana, mais do que caso nacional: tornou-se experimento ideológico. Como foi o Brasil, na trágica e triste “gestão” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O presidente argentino vende ao mundo a narrativa do “choque de capitalismo”, com cortes drásticos no Estado, desregulamentação e ajuste fiscal apresentado como cura inevitável para décadas de crise.
É precisamente aí que o bolsonarismo mira: no modelo de “remédio amargo” aplicado de cima para baixo, com aplausos do mercado e sofrimento concentrado nas maiorias sociais. Milei virou vitrine. Bolsonaro, referência.
E Flávio Bolsonaro, preposto mais “ameno” no estilo, tenta se apresentar como herdeiro viável do mesmo projeto.
A forma pode ser menos explosiva. O conteúdo, porém, segue tão ou mais radical.
Reinvenção bolsonarista
A agenda econômica desenhada para 2026 repete o coração do bolsonarismo: austeridade fiscal, privatizações, desregulamentação e redução do papel do Estado.
A busca por um novo “Posto Ipiranga” não é detalhe técnico. É símbolo político. Significa devolver a condução econômica ao receituário neoliberal, agora embalado como solução “responsável”.
O problema é que o Brasil já assistiu a esse filme. O governo Bolsonaro combinou neoliberalismo retórico com desorganização administrativa, ataques institucionais e Estado frequentemente capturado por interesses específicos. A promessa de eficiência virou precarização. A “liberdade econômica” virou permissividade para desigualdades estruturais.
Milei, nesse sentido, surge como inspiração de ultraliberalismo sem freios: menos Estado para direitos, mais Estado para repressão.
Segurança pública
Diferente de 2022, quando costumes e guerra cultural dominaram o debate, o bolsonarismo de 2026 tenta deslocar o eixo para a segurança pública.
É escolha calculada: a violência urbana mobiliza medo, gera engajamento e permite agenda de endurecimento penal e expansão do armamento civil. Uma das bandeiras do bolsonarismo.
O discurso é conhecido: ordem, punição, armas como liberdade individual. Mas por trás da retórica está a lógica de sempre: a transformação do Estado social em Estado policial.
Segurança vira instrumento eleitoral, não política pública estruturada. E o risco é evidente: soluções fáceis para problemas complexos, com alto custo democrático.
Programas sociais
Outro movimento tático é reformular a política social sem abandoná-la formalmente. A proposta bolsonarista aponta para programas de transferência de renda vinculados à digitalização e à chamada “inclusão produtiva”.
Na prática, trata-se de redesenho que mantém assistência mínima, mas reduz o Estado como garantidor de direitos. O social deixa de ser cidadania e passa a ser mecanismo de ativação econômica individual.
É a pobreza tratada como falha de empreendedorismo. E não como desigualdade estrutural.
Vitimização e guerra
No plano político, o bolsonarismo mantém seu motor principal: a narrativa de perseguição.
O STF segue como inimigo simbólico. A democracia liberal, como obstáculo. A imprensa, como adversária.
A estratégia é dupla: mobilizar a base radical e ampliar bancada parlamentar para bloquear pautas progressistas e tensionar o sistema por dentro.
É a institucionalização do conflito permanente. Não se trata apenas de disputar eleições, mas de deslegitimar previamente qualquer resultado que contrarie o grupo.
Flávio: “moderado”
Flávio Bolsonaro tenta operar como face menos intempestiva do bolsonarismo. Herdeiro com tom controlado, sem os arroubos do pai. Mas a história recente ensina: moderação estética não significa moderação política.
O bolsonarismo não é temperamento. É projeto. Projeto de Estado mínimo para direitos, máximo para repressão; de liberalismo para cima, dureza para baixo; de mercado como moral e democracia como incômodo.
Flávio pode parecer mais palatável. Mas é exatamente isso que o torna perigoso: a radicalidade com embalagem institucional.
Choque como destino
A aproximação com Milei não é casual. É afinidade ideológica. O bolsonarismo vê na Argentina laboratório do que deseja para o Brasil: ajuste fiscal severo, Estado social encolhido, conflito político como método e conservadorismo como cola cultural.
A pergunta central para 2026 é simples e decisiva: o Brasil quer importar o choque permanente como horizonte? Ou aprender com o que já viveu e com o sofrimento que essas cartilhas costumam impor às maiorias?
Marcos Verlaine, é jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil