Aos 67 anos, a cantora reencontra o produtor Stuart Price e revisita o universo disco e house que marcou uma das fases mais bem-sucedidas de sua trajetória.
Por Redação, com RFI – de Nova York
Rainha indiscutível do pop, Madonna retorna oficialmente às pistas nesta sexta-feira com Confessions II, sequência direta de Confessions on a Dance Floor, álbum de 2005 que vendeu mais de 10 milhões de cópias em todo o mundo.

Aos 67 anos, a cantora reencontra o produtor Stuart Price e revisita o universo disco e house que marcou uma das fases mais bem-sucedidas de sua trajetória, agora combinado a letras mais pessoais sobre família, luto, envelhecimento e reinvenção.
Poucos artistas do pop demonstraram tanta disposição para reinventar a própria obra quanto Madonna. Em vez de perseguir tendências passageiras, a cantora norte-americana passou mais de quatro décadas transformando sua trajetória em matéria-prima para novos projetos. É justamente esse movimento que guia Confessions II, lançado nesta sexta-feira.
O lançamento teve Paris como um dos principais centros de promoção do álbum. Nos últimos dias, Madonna participou da campanha de divulgação na capital francesa, onde jornalistas tiveram acesso antecipado ao disco e a Warner Music France organizou uma festa oficial de lançamento na véspera da chegada do álbum às plataformas digitais, no clube parisiense Virage.
Em 23 de junho, Madonna compareceu à Semana de Moda Masculina de Paris, no desfile primavera-verão 2027 da Yves Saint-Laurent, de Anthony Vaccarello, sentada na primeira fila ao lado de convidados como Kate Moss, Charli XCX, Austin Butler e Rami Malek. Ela estava acompanhada de Stuart Price, produtor de Confessions II.
O álbum funciona como continuação direta de Confessions on a Dance Floor, trabalho lançado em 2005 que se tornou um dos maiores sucessos comerciais e críticos da carreira da artista. Produzido originalmente por Stuart Price, o disco vendeu mais de 10 milhões de cópias, alcançou o topo das paradas em dezenas de países e consolidou faixas como Hung Up entre os maiores sucessos do pop dos anos 2000.
A nova obra retoma não apenas o título da produção anterior, mas também parte de sua arquitetura musical. Madonna volta a trabalhar com Price, colaborador-chave da fase original, para construir um álbum centrado na cultura das pistas de dança, em faixas que se encadeiam de forma contínua, evocando a experiência de um DJ set.
O reencontro entre os dois não ocorreu por acaso. Segundo Price, a aproximação aconteceu durante a turnê retrospectiva Celebration Tour, realizada entre 2023 e 2024, quando os antigos parceiros voltaram a trabalhar juntos após anos de distância profissional. O resultado é um álbum fortemente ancorado na house, na disco music e em diferentes vertentes da música eletrônica, dialogando tanto com referências dos anos 1970 e 1980, quanto com a produção contemporânea de clubes e festivais.
A principal diferença em relação ao álbum de 2005 talvez esteja na perspectiva. Naquela época, Madonna tinha 47 anos e respondia aos que a julgavam artisticamente esgotada. Hoje, aos 67, ela já não precisa provar permanência. A questão passou a ser outra: como transformar experiência em música pop sem soar solene. Em Confessions II, a resposta aparece em faixas que equilibram vulnerabilidade e euforia, sem abandonar a vocação dançante que sempre definiu sua obra.
Reinvenção
Embora o projeto faça referências explícitas ao álbum de 2005, Confessions II não tenta reproduzir integralmente a fórmula que transformou Madonna em um fenômeno global há duas décadas. A cantora incorpora ao repertório elementos autobiográficos mais presentes do que na obra original. Diversas faixas tratam de relações familiares, amadurecimento, perdas e reconciliações, temas que ganharam espaço em sua produção recente.
Um dos exemplos mais comentados é The Test, gravada ao lado de Lola Leon, filha mais velha da cantora. A música aborda a relação entre mãe e filha e está entre os momentos mais pessoais do álbum, segundo as primeiras resenhas publicadas na imprensa internacional.
Outra faixa destacada pela crítica é Fragile, descrita como uma homenagem ao irmão Christopher Ciccone, que morreu em 2024 após anos de uma relação marcada por afastamentos e reconciliações. Mesmo quando mergulha em experiências pessoais, Madonna mantém a pista de dança como cenário principal. O disco foi concebido como uma celebração da transformação individual por meio da música, tema recorrente em sua trajetória artística.
Colaborações aproximam diferentes gerações do pop.
As parcerias também ajudam a explicar o interesse em torno do lançamento. O álbum reúne participações de Sabrina Carpenter, Stromae, Feid e Martin Garrix, aproximando Madonna de artistas de diferentes gerações e mercados musicais. Entre elas, a mais aguardada era Bring Your Love, gravada com Sabrina Carpenter. A música ganhou projeção depois que as duas artistas se apresentaram juntas durante o festival Coachella, em abril deste ano.
Também chama atenção a presença do cantor belga Stromae, uma das principais referências da música pop francófona contemporânea, e do produtor holandês Martin Garrix, nome associado à música eletrônica global. A estratégia reforça uma característica constante da carreira de Madonna: dialogar com artistas mais jovens sem abrir mão do papel central na condução estética do projeto.
Retorno à Warner encerra ciclo e abre outro.
Confessions II é o primeiro álbum de estúdio da cantora desde Madame X, lançado em 2019. Também marca seu retorno à Warner Records, gravadora responsável pelos trabalhos mais importantes de sua carreira. A volta tem um valor simbólico importante. Foi pela Warner que Madonna lançou seus principais discos, construiu sua imagem como estrela global e consolidou uma das carreiras mais duradouras da história da música popular.
Aos 67 anos, a artista poderia ter recorrido apenas à nostalgia para revisitar um dos momentos mais bem-sucedidos de sua trajetória. O que Confessions II sugere, ao menos em sua concepção, é algo um pouco diferente: uma tentativa de reler aquele passado a partir da experiência acumulada ao longo de duas décadas.
O resultado recoloca Madonna em um território que ajudou a definir sua identidade artística desde os anos 1980, agora atravessado por experiências, perdas e reflexões que não estavam presentes quando a cantora lançou o primeiro Confessions, em 2005.