Rio de Janeiro, 24 de Julho de 2026

João Bosco faz gol contra

Por Marcos Aurélio Ruy – Em vez de analisar a crítica, o autor preferiu atacar quem o critica como se ele fosse acima de crítica.

Sexta, 24 de Julho de 2026 às 09:47, por: CdB

Em vez de analisar a crítica, o autor preferiu atacar quem o critica como se ele fosse acima de crítica.

Por Marcos Aurélio Ruy – de São Paulo

Porque Teresa Cristina disse que não canta mais a canção Gol Anulado, de 1976, autoria de Aldir Blanc (1946-2020) e João Bosco, que acaba de completar 80 anos, viraliza na internet um debate sobre a importância de se atentar ao que se está dizendo ou escrevendo. O debate cresceu devido à reação intempestiva de Bosco à crítica, em entrevista ao Estadão.

João Bosco

Em vez de analisar a crítica, o autor preferiu atacar quem o critica como se ele fosse acima de crítica. Usou o termo censura, como a direita e ainda mais a extrema direita usam para defender qualquer coisa que escrevam ou digam, mesmo incitamento à discriminação, ao ódio e à violência.

Há que se reconhecer sim que a parceria Aldir Blanc e João Bosco produziu relevantes canções da MPB, mas isso não dá direito ao autor de esbravejar taxando o movimento feminista de puramente “identitário” e acentuar que o seu ataque é principalmente a setores de esquerda, de gente que “precisa ser medicada”, ou seja dopada para não se pronunciar. Onde está a censura?.

A estrofe criticada é: “Quando você gritou Mengo/No segundo gol do Zico/Tirei sem pensar o cinto/E bati até cansar”. E como defensores do autor afirmam que não se pode analisar uma poesia apenas por um trecho dela, o que tem fundamento, fui ver a letra toda, de uma música que não conhecia. Até porque sempre aprecem “defensores” de autores já com carreira consolidada.

E para meu espanto a situação piorou, e muito, porque não encontrei a antítese mencionada por Bosco na referida entrevista. E mesmo ele tentando se defender com a dialética de Hegel, me falta capacidade ou talvez medicamentos para encontrar a antítese nessa poesia.

Toda focada na visão do agressor, a segunda estrofe afirma que “três anos vivendo juntos/E eu sempre disse contente/Minha preta é uma rainha/Porque não teme o batente”. Não há nada na letra que esboce uma reação da vítima. Ela não corre, não foge, não grita, não pede para parar. Não se defende de forma alguma. Sua reação inexiste, como a personalidade dela nunca existiu para o agressor.

Porque essa mulher negra só existe para não temer o batente, ou seja, cuidar da casa como é sua obrigação. E o agressor nem se atenta ao fato de terem três anos de vida conjugal, pois que importância poderia ter os desejos as vontades e as opiniões dela?

E ainda é boa cozinheira, jamais companheira porque ela “se garante na cozinha/E ainda é Vasco doente/Daquele gol até hoje o meu rádio está desligado/Como se irradiasse o silêncio do amor terminado”.

Gol anulado

Quer dizer que ela não aparece nem aqui para que ela termine o casamento e talvez denuncie o agressor, aí sim feito um gol anulado por falta descabida merecedora de cartão vermelho. E isso mesmo no contexto histórico de 1976.

Porque Chico Buarque sofreu uma crítica de feministas a Com Açúcar, Com Afeto, de 1975 por naturalizar a submissão da mulher e ele explicou o contexto da música e que naqueles anos não se pensava muito sobre esses temas, mas reconheceu e deu razão à crítica das feministas.

Aí a letra se encerra: “Eu aprendi que a alegria/De quem está apaixonado/É como a falsa euforia/De um gol anulado”. Pobre vítima. Mas em nenhum momento ele coloca a vítima como uma pessoa que importe, que tenha sentimentos, opiniões, desejos, vontades e necessidades. Só o sofrimento dele tem importância.

Até porque pior do que um gol anulado é um gol contra — e João Bosco fez um gol contra.

 

Marcos Aurélio Ruy, é Jornalista.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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