Vida e lenda do mestre do frevo Levino Ferreira atravessam gerações, entre sucessos como Mexe com Tudo e o episódio de catalepsia que reforçou sua aura de imortal no Recife.
Por Urariano Mota – de Brasília
Nascido na cidade pernambucana de Bom Jardim, em dois de dezembro de 1890, Levino Ferreira da Silva já era imortal antes do acontecimento que vou narrar. Seus frevos de rua se tornaram os maiores do Recife, isso numa terra de gênios da música das multidões nas ruas, como Nelson Ferreira, Maestro Nunes, Zumba, Lídio Macacão…. toda uma geração de ouro da música instrumental de Pernambuco.

Sem muita pesquisa, lembramos Mexe com tudo, abaixo.
Lágrimas de Folião
E tantos, que não se encontram registrados no YouTube, apesar da ilusória crença de que a internet tem tudo. Mas Mestre Levino Ferreira é maior que toda Inteligência Artificial. E devemos seguir agora para a sua mais incrível imortalidade.
Conta-se que em 1950, espalhou-se no Recife a triste notícia de que o genial maestro havia morrido. Veio gente de todos os bairros da cidade e de outras cidades também. Água Fria, Cajueiro, Beberibe, Cordeiro, Fundão, Campo Grande, Arruda, Encruzilhada, João Pessoa e Salvador. O desassossego e desconforto eram sem medida e universais. O problema, ou melhor, a maior solução da tragédia, foi que na altura ou na descida cruel quando o caixão do maestro se dirigia para o cemitério, o que aconteceu? O maestro levantou a tampa, sentou-se no caixão, e com a cara mais simples do mundo notou que estava entre flores. Que foram ao chão, segundo alguns frios, valentes e gélidos espectadores. Era inexplicável aquela ressurreição! Mas uma coisa do outro mundo? Não. O que aconteceu: o maestro havia sido vítima do mal que chamam de catalepsia, a doença em que o indivíduo apresenta sinais de morto e fica com a respiração imperceptível. Então houve o pânico. Foi gente correndo para todos os lados, menos para o caixão. Contam que até hoje existem pessoas correndo por Água Fria, Arruda, Encruzilhada e sertão do São Francisco.
O mais fecundo, de todas as coisas entre o céu e a terra, foi que o gênio do maestro, em vez de compor uma história macabra de Edgard Allan Poe, compôs o seu mais belo frevo, em que pôs o feliz nome de Último Dia. Melhor prova não há da sua imortalidade.
Urariano Mota, é Escritor e jornalista. Autor do Dicionário Amoroso do Recife, Soledad no Recife, O filho renegado de Deus e A mais longa duração da juventude (traduzido para o inglês como Never-Ending Youth). Colunista do Portal Vermelho e do Brasil 247. Colaborador do Jornal GGN.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil