Variante endêmica na Argentina e Chile foi detectada entre passageiros no navio. Cruzeiro segue à deriva, com briga política nas Ilhas Canárias sobre receber passageiros ou não.
Por Redação, com DW – de Genebra
A cepa Andes do hantavírus, que circula na América do Sul, foi identificada como a causa da infecção em ao menos dois passageiros do cruzeiro de luxo MV Hondius. Os testes foram realizados pelo Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul (NICD).

“Esta é a única cepa conhecida por causar transmissão de humano para humano, mas esse tipo de transmissão é muito raro e, como dito anteriormente, só ocorre em situações de contato muito próximo”, dizia uma apresentação do ministro da Saúde sul-africano para o Parlamento desta quarta-feira.
Os passageiros são uma mulher holandesa, que morreu em Joanesburgo após desembarcar do navio com o corpo do marido – a morte dele, em 11 de abril, fora a primeira na embarcação – e um homem britânico, que está hospitalizado. Ambos tiveram os primeiros sintomas durante a viagem.
A Suíça confirmou também nesta quarta-feira que um passageiro que desembarcou do navio na África do Sul foi diagnosticado com o hantavírus em Zurique. Ele está sendo tratado em um hospital da cidade.
O hantavírus é mais comumente transmitido a humanos por meio do contato com roedores infectados ou com sua urina, fezes ou saliva. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o caso do navio representa baixo risco para o público geral. A agência da ONU afirmou que até o momento foram registrados 8 casos suspeitos de infecção, com três já confirmados.
Na costa de Cabo Verde, no Atlântico, o MV Hondius segue à deriva, sendo incerto o próximo destino das suas quase 150 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulação.
Argentina e Chile
Uma infecção pela cepa Andes foi identificada pela primeira vez em 1995, na Argentina e no Chile. Os dois países são considerados os seus maiores focos, com o contágio quase sempre associado ao contato com um roedor cujo nome científico é Oligoryzomys longicaudatus.
Um relatório de autoridades sanitárias do Reino Unido cita quatro zonas endêmicas da cepa Andes na Argentina, que incluem as províncias de Salta, Jujuy, Buenos Aires, Santa Fé, Entre Rios, Misiones, Neuquén, Rio Negro e Chubut.
Entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, a cidade de Epuyén, em Chubut, viveu um surto de hantavirose, colocando a província em alerta. Foram confirmados 29 casos, com onze mortes associadas, dentro de uma população de 2 mil pessoas. Havia indícios de contaminação entre humanos.
Já no Chile, as infecções ocorrem sobretudo no sul do país, sendo endêmica a região de Los Lagos.
Histórico
Existem outras variantes do hantavírus nas Américas do Sul e do Norte. Mas, para elas, são conhecidos apenas casos de infecções por animais.
Já na cepa Andes, “foram relatados casos de transmissão limitada entre pessoas dentro da mesma família e em ambientes de saúde durante surtos anteriores no Chile e na Argentina”, segundo a agência de saúde do Reino Unido. Tampouco esta é a primeira vez que viajantes dos Estados Unidos e da Europa voltam para casa infectados pela cepa, depois de viajarem pelos dois países sul-americanos.
Dados do Ministério da Saúde apontam que, no Brasil, houve 31 casos confirmados de hantavirose no ano passado, em comparação a 44 em 2024 e 115 em 2015. De 2015 a 2025, foram 948 casos confirmados. A mortalidade média é de 46,5% no país, que registrou o primeiro caso da doença em 1993. A região Sul é o epicentro de infecções diagnosticadas, com 17 casos em 2025.
Cruzeiro
A emissora estatal espanhola TVE reportou, mais cedo nesta quarta-feira, que o navio atracaria na ilha de Tenerife, nas Ilhas Canárias, citando fontes do Ministério da Saúde da Espanha. A ideia já havia sido citada também pela OMS.
O governo regional responderia, entretanto, negativamente. “Essa decisão não se baseia em nenhum critério técnico, nem há informações suficientes para tranquilizar a população ou garantir sua segurança”, disse Fernando Clavijo, presidente regional, à rádio COPE.
Ele acrescentou que solicitou uma reunião urgente com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, para discutir o assunto. Clavijo é membro do conservador Partido Popular, principal força de oposição ao Partido Socialista, de Sánchez.
Enquanto isso, a diretora nacional de Saúde de Cabo Verde, Angela Gomes, disse a uma rádio nacional anteriormente nesta semana que estavam sendo elaborados planos para possivelmente retirar algumas pessoas do navio.
Depois de partir de Ushuaia, no sul argentino, a viagem passou pela Península Antártica, pela Geórgia do Sul e por Tristan da Cunha, algumas das ilhas mais remotas do planeta.