Retaliações de Teerã em bases norte-americanas nos países do Golfo Pérsico levanta dúvidas sobre a segurança gerada, ou não, por abrigar essas instalações militares.
Por Redação, com DW – de Riad
As declarações feitas após uma reunião de emergência dos ministros das relações exteriores dos países árabes e islâmicos, realizada na quinta-feira em Riad, na Arábia Saudita, tiveram um único tema: o Irã.

No dia anterior, em uma grave escalada da guerra que teve início no final de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram o país persa, uma ofensiva iraniana atingiu um importante centro de produção de energia no Catar. O fato ocorreu após um ataque israelense contra o campo de gás de South Pars, no Irã.
A paciência da Arábia Saudita está se esgotando, afirmou o ministro do Exterior do país, o príncipe Faisal bin Farhan, em uma coletiva de imprensa após a reunião. O reino saudita prefere uma solução diplomática e deixou claro que não permitirá que o país seja usado para lançar ataques contra o Irã, acrescentou Farhan. Mas a Arábia Saudita também pode utilizar todos os meios para fazer com que o Irã pare de atacar países vizinhos que não estão diretamente envolvidos no conflito, declarou.
Os sinais são claros: os países do Golfo Pérsico estão cada vez mais perto de serem arrastados para uma guerra da qual nunca quiseram fazer parte.
Países do Golfo
Embora o Irã seja o país que os está atacando, há também, no Golfo, uma crescente desilusão com os Estados Unidos. Observadores afirmam que a ideia de que o Washington defenderia os Estados do Golfo por terem importantes bases militares na região revelou-se ilusória, ou pelo menos não tão eficaz quanto se esperava. Muitos dos mísseis e drones iranianos que tinham como alvo o Golfo Pérsico não foram interceptados pelas forças armadas da região nem pelos EUA.
O Irã justificou os ataques aos países do Golfo alegando que eles abrigam essas bases norte-americanas – embora mísseis iranianos também tenham atingido infraestrutura petrolífera e instalações civis, como aeroportos e hotéis.
– Essa guerra é de Netanyahu – afirmou o príncipe Turki al-Faisal, ex-chefe dos serviços de inteligência da Arábia Saudita, em entrevista à CNN no início de março, referindo-se ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. “De alguma forma, ele convenceu o presidente [Donald Trump] a bancar suas intenções.”
Aparentemente, os EUA também ignoraram os alertas dos países do Golfo ao decidirem prosseguir com a guerra, informaram fontes anônimas da região à agência norte-americana de notícias Associated Press (AP), em março.
Foi assim que os países do Golfo aprenderam uma lição amarga: que essas bases norte-americanas não garantem necessariamente dissuasão ou proteção. Pelo contrário: na verdade, elas transformam o país que as abriga também em um alvo.
“Neutralidade”
De fato, as bases norte-americanas têm levado os países do Golfo a perderem a autonomia, diz um artigo em árabe publicado no jornal Al Araby Al Jadeed, financiado pelo Qatar. As bases americanas não protegem os países do Golfo, argumentou o periódico, mas os impedem de tomar decisões de forma independente e de se defenderem.
A guerra com o Irã deu início a um debate sobre estratégia e segurança, afirmam os observadores. O Middle East Council on Global Affairs, um think tank com sede no Qatar, define a atitude pré-guerra como de “neutralidade cautelosa”. Tal postura tinha como objetivo impedir que os países do Golfo se tornassem campos de batalha e evitar que o conflito colocasse em risco os planos de desenvolvimento futuro na região.
– A percepção inicial era de que Israel – e, em certa medida, os EUA – eram responsáveis pela escalada – afirma Bruno Schmidt-Feuerheerd, cientista político e pesquisador da Universidade de Oxford. Depois que o Irã começou a atacar os países do Golfo, ficou claro que a segurança desses países dependia de terceiros, diz ele. “Nesse sentido, a frustração é direcionada principalmente a atores externos”, acrescenta.
Pauline Raabe, analista sênior da consultoria Middle East Minds, com sede em Berlim, também aponta que as críticas dirigidas aos Estados Unidos estão se tornando mais vocais e públicas. “Os países do Golfo estão unidos, antes de tudo, pelo choque que sentiram.” A Arábia Saudita, em particular, “criticou abertamente Trump e Netanyahu”, enquanto o Qatar reagiu com mais cautela, continua.
Nesta semana, o ministro do Exterior de Omã, Badr al-Busaidi, escreveu em um artigo de opinião no semanário britânico The Economist que “os Estados Unidos perderam o controle de sua própria política externa” e que os aliados de Washington devem ajudar a livrar o país “desse emaranhado indesejado”.
Os Emirados Árabes Unidos têm sido alvo de ataques particularmente intensos por parte do Irã.”Logo, talvez não se trate apenas das bases norte-americanas, mas também de colocar sob pressão os modelos [econômicos] de sucesso na região – como o de Dubai”, aponta Schmidt-Feuerheerd.
A reputação de Dubai como um local seguro para negócios e como atração turística é um pilar central dos planos dos Emirados Árabes para desenvolver setores não petrolíferos de sua economia. E é por isso que a cidade é particularmente sensível ao tipo de instabilidade que a guerra traz, como já havia apontado anteriormente o think tank americano Atlantic Council.
EUA
A longo prazo, é provável que a guerra no Irã leve os países do Golfo Pérsico a reavaliarem suas relações com Washington. “Acredito que isso acontecerá após a guerra”, afirma Schmidt-Feuerheerd. Segundo ele, os países do Golfo terão de decidir “se as bases militares dos EUA representam um benefício para a segurança ou um risco”.
No entanto, acrescenta o especialista, a integração militar com os EUA é tão profunda que uma mudança levaria anos. “Enquanto isso, o acordo de décadas que prevê petróleo barato em troca de garantias de segurança dos Estados Unidos está começando parecer um modelo ultrapassado”, argumenta Raabe.
A pesquisadora também acredita ser improvável uma ruptura repentina. Segundo ela, os laços entre os EUA e os países do Golfo evoluíram ao longo de décadas e vão muito além da cooperação militar.
No entanto, diz, já havia sinais, antes mesmo da guerra, de que uma nova orientação estava surgindo. A Arábia Saudita vem desenvolvendo parcerias com o Paquistão e a Turquia, enquanto o Catar se aproximou de países europeus como o Reino Unido e a França.
– Esses desenvolvimentos já estavam em andamento – explica Raabe. “Mas, dada a situação atual, eles se tornaram ainda mais significativos.”
Schmidt-Feuerheerd concorda. “Nos últimos anos, os observadores têm falado sobre uma estratégia de diversificação”, conta ele. Essa nova abordagem levou ao desenvolvimento de laços mais estreitos com vários outros parceiros, incluindo a China, a Turquia e países europeus.
O termo “diversificação” (“hedging”, em inglês) tem origem na economia. No entanto, não está muito claro como ele funciona quando se fala de segurança e defesa. É difícil, por exemplo, que a segurança no Golfo possa ser diversificada tão facilmente quanto um portfólio de investimentos.
– Nenhum desses [novos] parceiros representa uma alternativa militar genuína – aponta Schmidt-Feuerheerd. Além disso, os países do Golfo nem sempre estão unidos quando se fala de orientação política. “De forma alguma é certo que eles agirão como uma entidade unificada”, explica.
Antes do início da guerra, que os obrigou a se unir novamente, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, por exemplo, vinham caminhando para uma relação cada vez mais antagônica. Há, porém, algo que eles têm em comum. “A estabilidade regional é o fator decisivo para todos os países do Golfo”, diz Raabe.
Todos os planos desses países para desenvolver suas economias longe do petróleo e rumo a um futuro próspero – desde o Visão 2030 da Arábia Saudita até as ambições globais de Dubai e Doha – dependem da paz e de um ambiente regional estável e, portanto, também da capacidade deles de se defender.