Rio de Janeiro, 18 de Abril de 2026

Genocídio praticado em Gaza atinge saúde mental de tropas israelenses

O genocídio em Gaza afeta a saúde mental das tropas israelenses, revelando traumas e dilemas morais enfrentados por soldados após experiências de combate.

Sábado, 18 de Abril de 2026 às 14:50, por: CdB

Yuval está sentado, roendo as unhas, com as pernas inquietas. É meio-dia em Tel Aviv e a rua está cheia de gente. Às vezes, ele olha em volta, observando ansiosamente as pessoas que passam.

Por Redação, com Haaretz – de Tel Aviv

Alguns militares mataram civis em Gaza; outros apenas observaram ou testemunharam abusos e acobertamentos em nome da vingança. Agora, eles estão tentando lidar com algo um pouco diferente do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Trata-se da consciência pesada.

Genocídio praticado em Gaza atinge saúde mental de tropas israelenses | Militares israelenses prendem suspeitos palestinos, posteriormente torturados
Militares israelenses prendem suspeitos palestinos, posteriormente torturados

Yuval está sentado, roendo as unhas, com as pernas inquietas. É meio-dia em Tel Aviv e a rua está cheia de gente. Às vezes, ele olha em volta, observando ansiosamente as pessoas que passam.

— Desculpe. Meu maior medo é uma vingança — diz ele.

 

Inferno

Mas Yuval (um pseudônimo, assim como todos os nomes neste artigo) não nasceu em uma família ligada ao crime. E ele não é um criminoso. Tem 34 anos, cresceu no subúrbio de Ramat Hasharon, em Tel Aviv, e se tornou programador de computadores. Até recentemente, trabalhava em uma das maiores empresas de alta tecnologia do mundo, mas não vai lá há meses.

— Eu estava no inferno, mas não tinha consciência disso — afirmou.

O inferno de que ele está falando aconteceu em Khan Yunis, no sul de Gaza, quando ele era soldado, em dezembro de 2023.

— Havia ataques aéreos o tempo todo. Uma bomba de uma tonelada cai perto de você e faz seu coração disparar — lembrou.

Sua unidade estava se deslocando para oeste, em direção ao centro da cidade. 

— Havia intensos combates… Você age no piloto automático. Não faz perguntas — continuou.

 

Drone

As perguntas somente viriam e o assombrariam meses depois.

— Não tenho boas respostas; não tenho resposta nenhuma. Não há perdão para o que fiz. Não há expiação — lamenta.

O incidente ocorreu perto da estrada Salah al-Din, a principal rodovia de Gaza. Usando um drone, um pelotão avistou figuras suspeitas. A unidade de Yuval avançou.

— Eu estava atirando como um louco, como ensinam nos exercícios de pelotão no treinamento básico. Talvez, de alguma forma, eu queira morrer, para acabar logo com isso. Não me mato porque prometi à minha mãe, mas admito que não sei por quanto tempo consigo aguentar — confessa.

 

Monstro

E segue adiante.

— Quando chegamos ao nosso destino, percebi que não eram terroristas. Era um senhor de idade e três rapazes, talvez adolescentes. Nenhum deles estava armado. Mas seus corpos estavam crivados de balas; seus órgãos estavam expostos. Eu nunca tinha visto nada parecido tão de perto. Lembro-me de que houve silêncio; ninguém disse uma palavra. Então o comandante do batalhão chegou com seus homens e um deles cuspiu nos corpos e gritou: ‘É isso que acontece com quem mexe com Israel, seus filhos da puta.’ Fiquei em choque, mas me calei porque sou um perdedor, um covarde sem coragem — admite.

Yuval recebeu alta cerca de três meses depois. Tirou duas semanas de folga e voltou ao trabalho.

— Fizeram uma festa para mim quando recebi alta, me aplaudiram e me chamaram de herói. Mas eu me sentia um monstro. Não suportava o que me diziam. Sentia que não percebiam que eu não era uma boa pessoa; pelo contrário — recorda.

Vergonha

Durante alguns meses, ele tentou se agarrar ao emprego, para escapar do peso no coração, mas desistiu. O sentimento de vergonha piorou.

— Tento não sair de casa, e se saio, uso um moletom com capuz para que as pessoas não me reconheçam. Até joguei os espelhos fora. Não suporto me olhar no espelho. Tenho um medo profundo de que alguém se vingue de mim pelo que fiz, embora saiba que isso é impossível. Quem em Gaza pode me encontrar? Quem sequer sabe que sou eu? — questiona.

Dois dias depois de falar com o diário israelense Haaretz, Yuval foi internado em uma ala psiquiátrica.

 

Perguntas

Alguns soldados dizem que seu trauma moral decorre dos métodos empregados nos combates em Gaza, muitos dos quais foram relatados primeiramente pelo Haaretz. Vários atiradores da Brigada Nahal, por exemplo, atiraram em palestinos que buscavam ajuda; eles haviam cruzado a linha arbitrária estabelecida pelo exército.

— Quando você atira através da mira de um atirador de elite, tudo parece perto, como em um jogo de computador. Você não esquece os rostos das pessoas que matou. Isso fica gravado na sua memória. Desde que recebi alta, tenho urinado na cama todas as noites; sinto que fui abandonado, que ninguém pode me ajudar. Passei um mês no hospital. Tentaram me explicar que eu tinha que aceitar, que não se pode voltar atrás. Fácil para eles dizerem. Eles não são o tipo de pessoa que, sempre que fecham os olhos, vê alguém levando um tiro na testa — lembrou.

Alguns soldados relatam traumas psicológicos após presenciarem palestinos sendo usados ​​como escudos humanos, ou após testemunharem saques e vandalismo.

— Nós entrávamos em casas palestinas e as pessoas simplesmente sentiam prazer em destruir tudo. Eu vi pessoas levando eletrodomésticos, colares de ouro, dinheiro, tudo. Alguns diziam que todos os árabes eram nazistas e que roubar de nazistas era uma bênção. Fiquei enojado, mas não disse nada. Me doía particularmente quando as pessoas queimavam fotos de palestinos ou urinavam nelas. Que bem há nisso? — perguntou a si mesmo.

E responde:

— Certa vez, um soldado percebeu que eu estava desconfortável com a situação e disse: ‘Qual é o seu problema? Eles não vão voltar para cá de qualquer maneira; a história deles acabou.’ Eu não respondi; apenas assenti com a cabeça.

 

Tortura

Havia também as operações da Unidade 504, cuja função era interrogar prisioneiros.

— Estávamos em ação no norte de Gaza e prendemos um operativo do Hamas em uma das casas. Recebemos ordens para vigiá-lo até que o interrogador da Unidade 504 chegasse. Eles sempre se movem em duplas – um interrogador e um soldado de combate. Quando chegaram, estávamos de guarda na entrada da casa, e eu pude ouvir e ver todo o interrogatório — lembra Eitan.

O militar conta que, em determinado momento, o interrogador tirou as calças e a roupa íntima do prisioneiro.

— Ele pegou duas abraçadeiras de nylon e prendeu uma no pênis e outra nos testículos. Fez uma pergunta e, como o prisioneiro não respondeu, apertou as abraçadeiras com mais força. Eles repetiram isso várias e várias vezes; havia gritos ensurdecedores. Ele não parava de gritar, como se sua alma estivesse deixando seu corpo. No fim, ele falou; tudo veio à tona, e o interrogador removeu as abraçadeiras de plástico e o colocou em uma caminhonete. Devem tê-lo levado para a detenção — presume.

 

Holocausto

Desde então, diz Eitan, os gritos não param.

— Isso destruiu tudo o que eu pensava sobre o exército, tudo o que eu pensava sobre nós, sobre mim. Se somos capazes de fazer algo tão terrível sem que os civis saibam, o que mais está acontecendo nos porões? Que outros segredos estamos escondendo? Quando se falava que todos os terroristas tinham sido mortos pelos métodos especiais usados ​​pela unidade nos túneis, as pessoas ficavam entusiasmadas, enquanto eu me lembrava do Holocausto — resume.

“Lembro-me exatamente do momento em que a ficha caiu, quando o cheiro (de carne humana queimada) me lembrou o que senti em Be’eri. Isso me fez pensar: em que nos transformamos? Em que me transformei? Até hoje, tenho medo de responder a essa pergunta”, conclui um outro militar.

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