Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Fim da ‘Era Bolsonaro’ abriria espaço para a direita, avalia o FT

O diário econômico de maior repercussão na Inglaterra publicou, neste fim de semana, uma extensa reportagem de capa em que detalha as dinâmicas internas, os escândalos e os desdobramentos políticos em torno do clã Bolsonaro.

Domingo, 27 de Setembro de 2026 às 17:55, por: CdB

O diário econômico de maior repercussão na Inglaterra publicou, neste fim de semana, uma extensa reportagem de capa em que detalha as dinâmicas internas, os escândalos e os desdobramentos políticos em torno do clã Bolsonaro.

Por Redação, com Financial Times (FT) – de Londres

Uma eventual derrota do candidato de ultradireita Flávio Bolsonaro (PL) decretaria o fim da ‘Era Bolsonaro’, abrindo espaço para uma direita mais moderada e sugerindo uma possível atenuação da polarização política no país ao longo da próxima década. A análise está publicada na Revista de Domingo do tradicional jornal britânico Financial Times (FT).

Eduardo, Flávio Bolsonaro
Eduardo e Flávio Bolsonaro são avaliados pelo Financial Times

O diário econômico de maior repercussão na Inglaterra publicou, neste fim de semana, uma extensa reportagem de capa em que detalha as dinâmicas internas, os escândalos e os desdobramentos políticos em torno do clã Bolsonaro. A publicação, que também ocupou a manchete do site do veículo ao longo deste domingo, faz uma comparação direta entre os Bolsonaros e a família do presidente norte-americano Donald Trump, ao destacar que os brasileiros incorporam um estilo político “paranoico”, oscilando entre o conservadorismo e o caos na busca pelo poder.

A matéria do periódico britânico é assinada pelo jornalista Michael Pooler e recebe o título ‘Scandal and succession in the House of Bolsonaro’ (‘Escândalo e sucessão na Casa dos Bolsonaro’). O texto enquadra o momento político brasileiro lembrando que Jair Bolsonaro (PL) encontra-se preso por liderar um golpe de Estado fracassado, em uma trama que incluía planos para assassinar o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entre outros próceres da República. Flávio Bolsonaro (PL) foi, então, entronizado pelo pai para a disputa eleitoral, na tentativa de consolidar uma dinastia política de ultradireita.

 

Depoimentos

A reportagem mapeia os integrantes da família a partir de depoimentos obtidos com fontes ouvidas pela revista. Jair Bolsonaro é retratado como um demagogo da extrema-direita e líder de um movimento populista conservador com apelo religioso. O texto rememora as mais de três décadas do ex-mandatário neofascista no Congresso como um legislador extremista e exótico, citando episódios em que ele defendeu a tortura, elogiou a ditadura militar e atacou colegas parlamentares, como a declaração dita à deputada Maria do Rosário de que não a estupraria porque ela “não merecia”. Também são destacadas sua má gestão durante a pandemia de covid-19, ao tratar a doença como “gripezinha” e promover tratamentos ineficazes; além do avanço no desmatamento da Amazônia durante seu governo.

A reportagem toma como ponto de partida para abordar a disfuncionalidade do grupo um vídeo publicado por Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, no qual ela acusa ’01′ de humilhá-la publicamente em meio a uma disputa do PL sobre alianças políticas. A manifestação escancarou um racha duradouro no seio familiar. A relação de Michelle com Flávio e Eduardo Bolsonaro é definida por fontes ouvidas pela publicação como fria e civilizada, enquanto o contato com Carlos Bolsonaro é nulo.

A ex-primeira-dama é descrita como uma cristã devota, de infância humilde e que vendeu laranjas na infância, servindo como uma “arma secreta” durante o mandato do marido. Para enfatizar o distanciamento familiar, a matéria cita o pastor Silas Malafaia, que declarou:

— Uma madrasta não é parente. Eles não partilham do mesmo sangue.

 

Gafes

Os outros filhos de Jair Bolsonaro também foram analisados pelo jornal britânico. Flávio Bolsonaro é apresentado como o autointitulado “Bolsonaro moderado” ou “Bolsonaro vacinado”, que tenta se equilibrar entre manter o espólio do pai e apresentar um novo projeto político, ainda que enfrente rejeição do setor empresarial e da centro-direita, que preferiam um nome sem o sobrenome considerado tóxico, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A reportagem expõe, ainda, sérias gafes na campanha de ’01′, quando o senador pediu dinheiro ao então banqueiro Daniel Vorcaro, preso em um escândalo de fraude financeira com o Banco Master. A solicitação visava financiar o filme ‘Dark Horse’, uma produção sobre Jair Bolsonaro que recebeu ao menos US$ 12,3 milhões do empresário.

O presidenciável da ultradireita também foi classificado como “traidor da pátria” por governistas após divulgar uma foto com Donald Trump no Salão Oval poucos dias antes de os Estados Unidos aplicarem tarifas comerciais contra o Brasil.

 

Armas

Carlos Bolsonaro, por sua vez, é caracterizado pelo jornal britânico como o ‘pit bull da família’, responsável por uma atuação agressiva nas redes sociais e que possui o rosto de Jair tatuado no braço. O texto lembra que ’02’, como é conhecido, ingressou na política aos 17 anos a pedido do pai para disputar a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no ano 2000, após um desentendimento familiar.

E Eduardo Bolsonaro, o ’03’, é apontado como o filho que mais se assemelha ao pai em termos de estilo ideológico. Descrito como surfista e entusiasta de armas, Eduardo é creditado pelas conexões com o clã Trump. No entanto, por estar residindo no Texas, ter sido cassado do Congresso e correr o risco de ser preso se retornar ao Brasil, a publicação o considera fora do cenário sucessório.

No campo das perspectivas eleitorais, o FT aborda também a figura do presidente Lula, caracterizando-o como um ex-sindicalista com amplo apelo popular que prioriza o combate à desigualdade social através de auxílios e valorização do salário mínimo. O jornal calcula que, caso Flávio Bolsonaro seja vitorioso na disputa eleitoral, a primeira medida da dinastia será pressionar o Congresso por uma anistia ampla aos envolvidos no golpe falido e aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro.

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