A abertura, nesta quinta-feira, terá a presença da mestra Marciana Dias, guardiã desse saber tradicional. As louças são feitas com matéria orgânica do solo amazônico. A produção reúne técnicas de origem indígena e africana.
Por Redação – do Rio de Janeiro
Retrato do Brasil profundo, a exposição Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum será inaugurada nesta quinta-feira, às 17h, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan). Nova exposição do programa Sala do Artista Popular (SAP), Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum apresenta pela primeira vez no Museu de Folclore Edison Carneiro essa tradição do Amapá, hoje perpetuada por 26 pessoas, a maior parte mulheres, que vivem num conjunto de 16 vilas no distrito rural de Maruanum, a 80 km de Macapá. As cerâmicas são feitas a partir de matéria orgânica do solo amazônico unindo conhecimentos e práticas indígenas e de matriz africana.

Toda a importância desta tradição converge para a abertura do pedido para reconhecimento ao ofício tradicional de produção de louças de barro no território quilombola do Maruanum, localizado no estado do Amapá. É a primeira etapa para o registro como Patrimônio Imaterial do Iphan. “A solicitação de registro do ofício das Louceiras do Maruanum, protagonizada pela comunidade junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, não apenas assegura a salvaguarda desse saber, mas também reposiciona o Amapá no cenário nacional, evidenciando sua centralidade na produção cultural brasileira e garantindo, além da visibilidade, instrumentos concretos de proteção – como a defesa dos territórios de coleta, a transmissão intergeracional do ofício e a valorização econômica alinhada aos seus sentidos culturais e espirituais”, declara o arqueólogo Michel Bueno Flores da Silva, Superintendente do Iphan no Amapá.
De complexa realização – tanto pelos aspectos ancestrais envolvido na produção das cerâmicas, bem como a fragilidade das obras, Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum une Iphan e Instituto Federal do Amapá para ser apresentada no Rio. Ao todo, 208 peças formam a exposição. A antropóloga Ana Carolina Nascimento é a autora da pesquisa de campo em Maruanum, realizada em outubro de 2025. Todo o levantamento culmina com o texto do catálogo da exposição. Na abertura, dia 30 de abril, Ana Carolina, que é Coordenadora Técnica de Pesquisa e Projetos Especiais do CNFCP/Iphan, irá fazer a mediação da roda de conversa em torno da mestra Marciana Dias, de 85 anos, guardiã desse fazer ancestral, da louceira Castorina Silva e Silva, em conjunto com a pesquisadora Céllia Costa e do Reitor Romaro Silva, ambos do IFAP.
Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum amplia um olhar sobre o Brasil profundo com ênfase na região amazônica. “A arte das louceiras envolve conhecimentos tradicionais sobre a biodiversidade amazônica no uso de matérias-primas essenciais para a feitura deste tipo de louça: o barro, as cinzas obtidas da queima da casca da árvore chamada de caripé ou caraipé (Licania scabra), e a jutaicica, resina vegetal extraída do jutaieceiro ou jatobá (Hymenea courbaril)”, esmiúça Ana Carolina. A antropóloga e o fotógrafo Francisco Moreira da Costa passaram uma semana acompanhando todo o processo de feitura das cerâmicas em Maruanum.
Segundo a antropóloga, os conhecimentos de toda a elaboração das louças formam um complexo sistema. “É um complexo sistema de que fazem parte também as relações com a natureza e seus donos – seres que controlam os domínios da água, da caça e do barro –, e com os quais há regras de convívio. Há uma série de cuidados e restrições a serem obedecidos para fazer as louças, especialmente na retirada do barro e na queima. O momento ritual mais importante da feitura das louças acontece após a retirada do barro, em que as mulheres modelam pequenas peças e as depositam no buraco de onde retiraram o barro, em oferecimento à mãe do barro, ou vovó do barro. Agradecem, pedem proteção para a queima e cantam ladrões (versos) de marabaixo.”
Amapá
Expressão cultural do Amapá, as louças de Maruanum integram crenças e rituais na perspectiva indígena e africana, como enfatiza a pesquisadora Céllia Costa, do IFAP, figura central para a exposição se tornar realidade no Rio. Desde 2011, a estudiosa acompanha e desenvolve iniciativas de preservação, em conjunto com as artesãs. No mestrado de Direito Ambiental e Políticas Públicas da Universidade Federal do Amapá (Unifap), em 2012, estudou os saberes das louceiras, no âmbito do princípio intergeracional, que é o direito que a comunidade tem de repassar seus conhecimentos para a atual e as futuras gerações. “Eu comecei a viver o Maruanum desde então”, conta.
Em 2016, na continuidade da pesquisa de mestrado, passou a desenvolver uma análise voltada para a questão de uma estratégia educacional para a transmissão de conhecimento pelo viés pedagógico em seu doutorado na PUC-PR. “A partir de 2020, me tornei ainda mais uma agente cultural e de políticas públicas, por meio de um grupo de pesquisa que eu coordeno, o Centro sobre Cerâmica do Maruanum, Mulherismo, Decolonialidade, Relações Étnico-Raciais, o CEMADERE. Assim, se torna possível promover ações de educação patrimonial e políticas públicas para a comunidade”, contextualiza.
Alguns pesquisadores se preocuparam com um possível risco da extinção do ofício. Atualmente, há expectativa de renovação. “O ofício é histórica e majoritariamente feminino. Na pesquisa de campo tivemos notícias de 26 pessoas que sabem fazer a louça do Maruanum atualmente, sendo 20 mulheres, dois homens e quatro crianças (sendo duas meninas e dois meninos). Dentre os homens, um deixou de fazer porque enfrentou a quebra de diversas das suas peças, e um não publiciza o ofício, por ter vergonha de ser um homem fazendo a louça. O orgulho dos meninos que encontramos lá nos leva a imaginar uma possível ampliação de gênero no futuro da louça do Maruanum”, analisa Ana Carolina.

Foram necessários quase 15 anos para a viabilidade da mostra. A sazonalidade da produção, que depende da obtenção do caripé, uma das matérias-primas, está entre as razões para o longo tempo. A logística foi outro fator importante. As 208 peças que compõem a mostra são de extrema fragilidade. Esta é a SAP de número 216, desde 1983 apresentando arte popular de todo o país. Peças que são vendidas no Espaço de Comercialização do Museu de Folclore, com arrecadação inteiramente revertida para os criadores. “Está sendo uma grande realização fazer essa exposição. Apesar do Maruanum ser próximo à Macapá, há dificuldades de transporte entre as vilas da comunidade e dispêndio no transporte das louceiras para a capital. Assim, só contando com a parceria da pesquisadora Céllia Costa, do Instituto Federal do Amapá, pudemos fazer chegar até lá o material para embalagem das peças, e para coletar as peças na comunidade e levar até a transportadora. Atualmente, a louça é comercializada através de encomendas diretas com as louceiras, que residem no Maruanum e em Macapá, e só há um ponto de venda fixo, que é a Casa do Artesão Amapaense. Parte das louceiras participa, eventualmente, de feiras de artesanato em Macapá, e tiveram oportunidades pontuais de venda em feiras de artesanato de outros estados. Assim, consideramos de grande importância apresentar a louça do Maruanum ao nosso público e abrir este ponto de venda no Rio de Janeiro”, explica Ana Carolina.
Serviço
Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum
Abertura dia 30 de abril, às 17h. Encerramento: 1º de julho
Programação do dia de abertura:
Roda de conversa, às 15h, com a participação de Marciana Dias (louceira, fundadora da Associação de Louceiras do Maruanum – ALOMA, e Mestra do Marabaixo de Santa Luzia do Maruanum), Castorina Silva e Silva (louceira), Romaro Silva (Reitor, professor e pesquisador do Instituto Federal do Amapá – IFAP) e Céllia Costa (professora e pesquisadora do IFAP), sob a mediação de Ana Carolina Nascimento, Coordenadora de Pesquisa e Projetos Especiais do CNFCP
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular | Museu de Folclore Edison Carneiro – Rua do Catete, 179. Catete – RJ. Tel. 21 3032.6052
Dias e horários de visitação: Terça a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. Entrada franca.
Realização: Associação Cultural de Amigos do Museu do Folclore Edison Carneiro (Acamufec) | Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto de Patrimônio e Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan). Parceria: Instituto Federal do Amapá.