O que nossas pesquisas sobre neurobots revelam sobre a fabricação de consensos e a liberdade de escolha.
Por Marcelo Senise – de Brasília
Passei quase quatro décadas estudando como as pessoas formam opiniões e tomam decisões políticas. Trabalhei com persuasão, desconstrução de adversários e construção de narrativas. Talvez por isso os resultados de nossas pesquisas recentes tenham me inquietado muito: já não é necessário apenas convencer alguém. É possível tentar manipular o ambiente no qual essa pessoa acredita estar formando livremente suas convicções.

Inventavam-se notícias, distorciam-se declarações. A inteligência artificial introduz outro risco: fabricar não apenas conteúdos, mas a aparência da própria opinião pública.
Não é preciso fazer você acreditar que uma mentira é verdade. Pode bastar fazê-lo acreditar que milhões de pessoas já pensam assim.
Em estudos desenvolvidos pelo Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA), com Gisele Meter e Coriolano Camargo e apoio tecnológico da plataforma integrada Sentinela Eleitoral/Polijetro, examinamos mais de 33 mil contas de ecossistemas políticos brasileiros, das quais 24% apresentaram indícios de provável automação.
Esse dado exige precisão: não significa que 24% dos brasileiros conversem com robôs nem que uma em cada quatro interações nacionais seja artificial. É um resultado restrito ao universo analisado. Mas abre perguntas que não podemos ignorar: quantas manifestações de apoio são espontâneas? Quantos consensos são autênticos? Quanto da popularidade visível pode ser artificialmente ampliada?
Sistemas automatizados baseados em IA podem conversar, ajustar argumentos e simular comportamentos humanos. Os chamados neurobots tornam concebível uma operação em que perfis aparentemente comuns reforçam as mesmas posições, respondem a críticas e produzem sinais de adesão. Isso não prova, por si só, que tal operação tenha alterado votos. Comprovar seus efeitos exige investigação.
O risco, porém, é claro: uma operação de influência não precisa mudar diretamente o que você pensa. Pode tentar mudar o que você acredita que todos os outros pensam.
A psicologia social conhece nossa tendência de observar o grupo antes de formar juízos. A impressão de maioria pode gerar conformidade, desencorajar divergências e mudar expectativas. Nas redes, essa impressão é filtrada também por sistemas de recomendação. Pesquisas internacionais mostram que algoritmos podem amplificar desigualmente conteúdos políticos. Visibilidade, portanto, não é sinônimo de representatividade.
Milhões de visualizações não equivalem a milhões de eleitores convencidos. Uma enxurrada de comentários não comprova consenso. Confundir repetição com verdade e engajamento com vontade popular é um erro que a democracia não pode se permitir.
É fundamental distinguir mobilização legítima de simulação enganosa. Apoiadores, movimentos sociais e comunidades de fãs têm pleno direito de se organizar e disputar espaço público. A fronteira preocupante surge quando identidades sintéticas ou automação encoberta são utilizadas para fingir uma participação humana espontânea. A regra deve valer para todos os grupos políticos.
Voto
Nossos estudos não mediram mudança de voto. Mostram sinais que justificam pesquisas adicionais e medidas proporcionais de transparência. Precisamos conhecer melhor o funcionamento dos sistemas de recomendação, facilitar a identificação de operações coordenadas e assegurar acesso responsável de pesquisadores a dados. Proteger a integridade cognitiva não é tutelar opiniões, é defender as condições para que possa pensar sem ser enganado sobre quem fala e sobre quantos realmente concordam.
Depois de 38 anos trabalhando com comunicação política, é desconcertante perceber essa mudança. Antes, procurávamos a mensagem capaz de convencer o eleitor. Agora, precisamos compreender quem organiza o ambiente em que a mensagem será recebida. E há uma diferença enorme entre disputar argumentos e fabricar a aparência de que o debate já terminou.
Uma eleição não começa quando o cidadão entra na cabine. Começa antes, nas conversas, nos vínculos e na realidade que ele acredita compartilhar com os outros.
De que adianta assegurar que ninguém altere um voto registrado se não investigarmos como a percepção da realidade pode ser artificialmente distorcida antes da escolha?
A urna precisa ser inviolável. A liberdade de escolha, também. Talvez a manipulação mais sofisticada não seja obrigar alguém a pensar de certa maneira, mas fazê-lo acreditar que chegou sozinho a uma conclusão construída num ambiente artificialmente deformado.
Marcelo Senise, é sociólogo, estrategista político e presidente do IRIA. Com 38 anos de experiência em campanhas, é especialista em comportamento humano e IA aplicada à comunicação política.
Autor de ‘A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política’ e da trilogia ‘Blindagem Essencial’, pesquisa neurobots e integridade cognitiva.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil