Análise conecta crise social, financeirização e complexo militar à ascensão autoritária, mostrando como elites econômicas moldaram o cenário político global.
Por Thiago Modenesi – de Brasília
A eleição e o retorno triunfante de Donald Trump à Casa Branca em 2024 não foram uma aberração da história, mas sim o desfecho lógico de meio século de hegemonia neoliberal. O neoliberalismo, com sua financeirização, desmantelamento do Estado social e guerra permanente contra os direitos populares, criou o terreno fértil para o neofascismo trumpista. Mais do que isso: as mesmas oligarquias que lucraram com as políticas de Reagan, Bush pai e Bush filho, Clinton, Obama e Biden, incluindo as indústrias bélicas e petrolíferas beneficiadas pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã, foram as que, diante da crise orgânica do capital, apoiaram Trump como seu mais eficiente carrasco da democracia.

A partir dos anos 1970, o neoliberalismo impôs a cartilha da desregulação, da flexibilização trabalhista e do Estado mínimo para os pobres, mas máximo para o capital financeiro. Nos EUA, isso significou a destruição de sindicatos, a estagnação salarial por quatro décadas e a concentração de renda em níveis nunca vistos. Como consequência, vastas camadas da classe trabalhadora branca e de setores médios empobrecidos perderam qualquer horizonte de futuro. Nesse vácuo de esperança, a raiva contra o “sistema” foi canalizada não para a esquerda, mas para o discurso neofascista de Trump: xenofobia, racismo, misoginia e outros absurdos. O neoliberalismo matou o sonho do progresso social, o neofascismo ofereceu o bode expiatório.
Um dos pilares do neoliberalismo é a acumulação por espoliação via complexo industrial-militar. Desde os anos 1980, os EUA e Israel construíram uma narrativa de ameaça existencial iraniana, alimentada por interesses geopolíticos e, sobretudo, econômicos: controle do petróleo, venda de armas e hegemonia no Oriente Médio. As décadas de sanções contra o Irã, o assassinato de Qasem Soleimani (2020) e as constantes ameaças de bombardeio a instalações nucleares foram operações lucrativas para a Lockheed Martin, a Raytheon e o lobby israelense nos EUA (AIPAC). Trump, já em seu primeiro mandato, rompeu o acordo nuclear (JCPOA) e pavimentou o caminho para uma escalada que, em 2026, levou ao confronto direto. Essa política não é antagônica ao neoliberalismo, é sua expressão mais crua: a guerra como negócio, financiada com dinheiro público e executada por empresas privadas.
Parece paradoxal: o candidato que dizia atacar as “elites globais” foi o mesmo que cortou impostos para os super-ricos (a reforma de 2017 beneficiou o 1% mais rico com US$ 60 bilhões anuais) e desregulou Wall Street. Mas não há paradoxo. As oligarquias (financeira, agroindustrial, bélica e de tecnologia) perceberam que Trump era mais eficiente que os democratas em garantir suas três demandas centrais de repressão ao trabalho e aos movimentos sociais (com a cumplicidade do judiciário e da polícia), das guerras lucrativas (como a contra o Irã, que eleva os preços do petróleo e vende mísseis) e o desmonte de qualquer regulação ambiental ou trabalhista.
Além disso, Trump oferecia um bônus: a destruição dos restos do Estado de bem-estar social e a criminalização da oposição de esquerda. Para as oligarquias que enriqueceram com o neoliberalismo, Trump não era uma ameaça, mas o segurança particular do capital.
Neofascismo
O neofascismo trumpista não é uma ruptura com o neoliberalismo, é seu ápice. Enquanto o neoliberalismo clássico (Friedman, Hayek) até tentava ter uma fachada democrática para operar, o neofascismo dispensa as formalidades. Sob Trump, o governo é abertamente uma filial das corporações: secretários do petróleo, da educação, da saúde saídos diretamente dos conselhos de administração. A guerra contra o Irã serve a dois propósitos neoliberais: 1) destruir mais um Estado que ousa ter soberania sobre seus recursos naturais; 2) fornecer um espetáculo bélico que desvia a atenção da crise interna e legitima o autoritarismo.
A lição para o Brasil, para a América Latina e para o mundo é inequívoca: não se combate o neofascismo de Trump (ou de seus equivalentes, como Bolsonaro, Milei ou Kast) com uma volta ao neoliberalismo “de rosto humano”. O neoliberalismo, em sua lógica de exploração, desigualdade e guerra, é o ventre que gestou o monstro.
Apoiar a guerra dos EUA e Israel contra o Irã, ou mesmo manter-se neutro diante dela, é alimentar a mesma máquina que financia o trumpismo. Por isso, a luta pelo socialismo e pela democracia em 2026 passa necessariamente pela derrota eleitoral de Trump e seus aliados pelo mundo e pela construção de uma alternativa anti-imperialista calcada em amplitude nas alianças e na política para derrotar o câncer neoliberal. Sem enterrar o neoliberalismo, o neofascismo sempre voltará, com novas roupagens e velhas bombas.
Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.
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