Filme de Glauber Rocha rompe radicalmente com qualquer preceito de equilíbrio tonal clássico.
Por Leonardo Varela Milreu – de São Paulo
Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), com direção de Glauber Rocha e fotografia de Waldemar Lima, estabelece um marco fundamental na plástica visual brasileira ao transformar a luz em um elemento de agressão física e estética.

A obra rompe radicalmente com qualquer preceito de equilíbrio tonal clássico. O sertão não é retratado como uma paisagem natural, mas como uma superfície árida e hostil onde a superexposição solar age como um ácido, corroendo os contornos das figuras e estourando o branco do céu até o limite da abstração. A luz não revela o ambiente; ela o incinera.
Em resposta a essa luminosidade violenta, emergem sombras de uma dureza gráfica implacável. Sem o recurso de graduações tonais suaves, o contraste se torna absoluto. As figuras humanas são frequentemente reduzidas a silhuetas recortadas de forma abrupta contra a brancura ofuscante do horizonte. Esse tratamento visual aproxima os quadros da estética da xilogravura nordestina e da literatura de cordel, onde o entalhe profundo na madeira dita a relação geométrica e binária entre o preto entintado e o vazio do papel.
A sombra, aqui, não é um subproduto da iluminação, mas uma massa espessa e sólida que ancora o peso dos corpos ao chão rachado.
Campo visual
A arquitetura do enquadramento reforça essa brutalidade monumental. Os rostos, mapeados por rugas profundas e sulcos de suor e poeira, preenchem a tela como verdadeiras topografias geológicas, remetendo aos traços fortes das telas de Portinari. Os ângulos escolhidos são intencionalmente desestabilizadores, fragmentando as silhuetas com planos que sufocam a composição de forma assimétrica. A geometria dos quadros é pontiaguda, angular e cortante, refletindo a aridez do espaço não apenas no que é mostrado, mas na própria estruturação opressiva do campo visual.
A materialidade do registro atinge seu apogeu na textura tátil que impregna o alto contraste do celuloide. Cada quadro parece carregar a aspereza da terra seca, o peso do linho encardido e o craquelado do couro desgastado sob o sol.
Ao abdicar do refinamento cosmético em favor de uma visualidade áspera, calcária e superiluminada, o filme forja uma identidade plástica genuinamente brasileira. É o momento em que a imagem abandona os padrões de suavidade europeus para provar que a luz tropical, quando levada ao seu limite máximo de exaustão gráfica, é capaz de esculpir a forma mais crua e autêntica da nossa arte visual.
Leonardo Varela Milreu, é comunicador e crítico de cinema.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil