Rio de Janeiro, 08 de Maio de 2026

Ausência de Hollywood marca nova edição do Festival de Cannes

Descubra como a ausência de Hollywood no Festival de Cannes 2026 marca uma nova era para o cinema autoral, com grandes cineastas em destaque.

Sexta, 08 de Maio de 2026 às 12:17, por: CdB

Nenhum grande potencial sucesso de bilheteria americano fará sua estreia mundial em Cannes em 2026. O maior festival de cinema do mundo estaria esnobando a indústria cinematográfica dos EUA, ou o contrário?

Por Redação, com DW – de Paris

O festival de cinema mais importante do mundo começa em 12 de maio com uma programação repleta de novos filmes de alguns dos cineastas mais celebrados do circuito internacional de cinema, como Pedro Almodóvar, Asghar Farhadi, Paweł Pawlikowski, Cristian Mungiu, mas sem um único título de um grande estúdio de Hollywood.

Ausência de Hollywood marca nova edição do Festival de Cannes | Preparação do pavilhão do festival de Cannes em 2025
Preparação do pavilhão do festival de Cannes em 2025

Não passará pelo tapete vermelho da Croisette nenhum espetáculo capaz de rivalizar com a estreia, no ano passado, de Missão: Impossível – O Acerto Final ou com outros lançamentos de grande bilheteria como Top Gun: Maverick e Mad Max: Estrada da Fúria.

Estaria o Festival de Cannes esnobando Hollywood? Não exatamente.

Há filmes norte-americanos na seleção. Na competição principal, Ira Sachs apresenta o musical fantástico The Man I Love, estrelado por Rami Malek, ao lado de Paper Tiger, de James Gray, com Scarlett Johansson e Adam Driver. Fora da competição, John Travolta faz sua estreia como diretor com Propeller One-Way Night Coach, um projeto pessoal centrado na aviação, enquanto Andy Garcia dirige e protagoniza o drama policial Diamond. Os lançamentos ainda não têm títulos traduzidos no Brasil.

O que está de fora neste ano são as grandes produções de estúdio, de alto orçamento. Os blockbusters, pensados para atrair grandes públicos, servem geralmente de contraponto à programação tradicional de Cannes, marcada por obras mais densas.

Estúdios 

O fenômeno não se restringe a Cannes. O Festival de Berlim, em fevereiro, também chamou atenção pela ausência de produções de grandes estúdios, para decepção dos fãs de celebridades e da imprensa de entretenimento. A diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, afirmou que os grandes estúdios de Hollywood estão cada vez mais cautelosos em lançar seus filmes em festivais, temendo que uma recepção negativa ou uma cobertura desfavorável prejudiquem o desempenho nas bilheterias meses antes da estreia.

Ela cita, em parte, o Festival de Veneza de 2024, onde a Warner Bros. lançou Coringa: Delírio a Dois, sequência musical de Todd Phillips para o sucesso bilionário Coringa. A crítica foi dura. O filme acabou arrecadando cerca de 200 milhões de dólares no mundo, abaixo das expectativas e do orçamento estimado. Avaliações mornas em Cannes para Indiana Jones e a Relíquia do Destino também podem ter prejudicado seu desempenho, tornando-o, em valores atualizados, o título menos rentável da franquia.

A política também pesa. Grandes festivais se tornaram palco frequente de protestos e debates, com coletivas de imprensa dominadas por questões como Gaza, Donald Trump e Irã. Em Berlim, neste ano, tensões políticas muitas vezes se sobrepuseram às discussões sobre os filmes. Para os estúdios, o risco de ver suas estrelas ou produções envolvidas em discórdias globais pode superar os benefícios de uma estreia de alto nível.

Cinema autoral

Sem os estúdios, Cannes aposta ainda mais no cinema autoral. O iraniano Asghar Farhadi – vencedor de dois Oscars por A Separação e O Apartamento – retorna com Parallel Tales, drama ambientado em Paris com Isabelle Huppert, Catherine Deneuve e Vincent Cassel.

O espanhol Pedro Almodóvar, mestre do melodrama, segue em busca de sua primeira Palma de Ouro, principal prêmio do festival, com Natal Amargo, sobre uma mulher abandonada pelo parceiro durante o Natal. É seu sétimo filme na competição principal.

O russo Andrey Zvyagintsev, ausente há anos no evento, volta com Minotaur, a história de um empresário cuja vida desmorona. O húngaro László Nemes apresenta Moulin, ambientado na França ocupada pelos nazistas, com Lars Eidinger no papel de Klaus Barbie, o chamado Açougueiro de Lyon.

O polonês Paweł Pawlikowski traz Fatherland, cinebiografia de Thomas Mann estrelada por Hanns Zischler e Sandra Hüller, enquanto o belga Lukas Dhont dá sequência ao indicado ao Oscar Close com Coward, situado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

O romeno Cristian Mungiu, que venceu a Palma de Ouro com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, estreia no inglês com Fjord, reunindo Sebastian Stan e Renate Reinsve em um drama sobre um casal cuja nova vida no interior da Noruega se deteriora.

A Alemanha também volta à disputa. Após O Som da Queda, de Mascha Schilinski, conquistar o Prêmio do Júri no ano passado, outra diretora alemã, Valeska Grisebach, entra na competição com The Dreamed Adventure, seu primeiro longa desde Western (2017), vencedor na mostra Un Certain Regard.

Fora de competição, o dinamarquês Nicolas Winding Refn apresenta Her Private Hell, enquanto, na mostra paralela Un Certain Regard (Um Certo Olhar), a cineasta independente norte-americana Jane Schoenbrun exibe Teenage Sex and Death at Camp Miasma, um terror queer que já desperta expectativa como possível destaque da mostra.

Neste ano, apenas uma coprodução brasileira foi selecionada para o festival. O filme Elefantes na Névoa, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah e produzido pelas brasileiras Bubbles Project e Enquadramento Produções, fará sua estreia mundial na mostra paralela.

Sem a presença massiva de Hollywood na Croisette, o Festival de Cannes deste ano se aproxima mais de sua vocação original: ser uma vitrine para cineastas que deixam uma marca singular em seus filmes.

 

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