Rio de Janeiro, 18 de Junho de 2026

Alemanha teve média de 24 casos de antissemitismo por dia

Relatório revela que a Alemanha registrou 8.725 casos de antissemitismo em 2025, com 68% relacionados a Israel. Críticas à definição de antissemitismo e à metodologia da Rias ganham destaque.

Quinta, 18 de Junho de 2026 às 15:11, por: CdB

Das mais de 8,7 mil denúncias registradas por associação, 68% eram hostilidades relacionadas a Israel. Críticos questionam definição de antissemitismo usada para embasar estatísticas.

Por Redação, com DW – de Berlim

Com 8.725 casos em 2025, a Alemanha registrou quase uma centena a mais de denúncias de antissemitismo em comparação com 2024. E manteve, portanto, praticamente o mesmo número médio de cerca de 24 ataques antissemitas por dia no país, segundo relatório anual divulgado na quarta-feira pela Associação Nacional de Centros de Pesquisa e Informação Sobre Antissemitismo (Rias, na sigla em alemão).

Em uma Alemanha cada vez mais plural, judeus dizem que, muitas vezes, têm medo de se identificar como tal

Fundada em 2018, em Berlim, a Rias está presente em 11 dos 16 estados alemães e documenta atos de hostilidade verbais e físicos contra judeus na Alemanha e também contra indivíduos ou instituições que possam ser percebidos como judeus, além de pessoas que não são judias.

No estado de Hesse, no centro-oeste da Alemanha, por exemplo, um rabino foi empurrado na frente de seus filhos, e teve o celular arrancado de suas mãos. Com ataques verbais, os agressores culparam o rabino pelas ações do governo israelense.

Entre diversos incidentes, a Rias cita principalmente relatos de judeus que foram vítimas de agressões verbais na Alemanha, e alguns disseram ter recebido ameaças de morte nas redes sociais.

No Facebook, uma mulher judia recebeu a foto de um recipiente de Zyklon B com a descrição “Ainda em estoque”. O Zyklon B foi o gás usado pelos nazistas nos campos de concentração para assassinar judeus e outras pessoas perseguidas durante o Holocausto.

Críticas à Rias

A Rias se baseia no conceito de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocaust (IHRA), uma definição questionada por muitos estudiosos do tema devido à distinção entre crítica legítima ao Estado de Israel e antissemitismo.

Os incidentes são classificados por tipo e motivações, o que também tem gerado críticas à metodologia, bem como ao fato de que nem todo incidente registrado formalmente constitui um crime.

Os dados apresentados em seu relatório anual não são representativos, já que a Rias atua como um ponto de coleta das denúncias recebidas em seus diversos escritórios e no portal online e, depois, tenta categorizar os resultados.

Críticas significativas ao trabalho e à metodologia da Rias também vieram da organização internacional Diaspora Alliance, sediada em Berlim, que acusou a associação, financiada pelo governo alemão, de dar destaque desproporcional ao que chama de “antissemitismo relacionado a Israel” e de subestimar as atividades de extremistas de direita, que estão em ascensão na Alemanha, o que ameaçaria a luta contra o antissemitismo.

A Rias rejeitou essas alegações. Julia Kopp, gerente de projetos da Rias Berlim, afirma que o antissemitismo não começa no momento em que se apresenta como um crime.

Oriente Médio

Fato é que o número de incidentes registrados pela Rias como antissemitas na Alemanha aumentou drasticamente após o ataque do grupo radical islâmico Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, quando mais de 1,2 mil israelenses foram mortos e 251 pessoas foram feitas reféns.

No conflito que se seguiu na Faixa de Gaza, mais de 70 mil pessoas foram mortas, a maioria civis. A conduta de Israel na guerra foi considerada genocídio por muitas organizações internacionais de direitos humanos e por uma comissão da Organização das Nações Unidas (ONU).

Os pesquisadores da Rias afirmam que judeus na Alemanha relataram ter recebido mensagens de ódio antissemitas, mesmo tendo criticado abertamente o atual governo israelense.

A associação também destaca no relatório que os recentes acontecimentos no Oriente Médio – como o cessar-fogo acordado entre Israel e o Hamas em outubro passado – não se refletem no número, no momento e na intensidade dos ataques antissemitas.

Alerta

A equipe da Rias atribui 68% de todos os incidentes ao que classifica como “antisemitismo relacionado a Israel”.

Embora o Estado de Israel tenha sido fundado após a Segunda Guerra Mundial para servir como refúgio ou pátria para o povo judeu, nem todos os judeus do mundo são cidadãos israelenses e nem todas as pessoas com passaporte israelense são judias. E, por isso, especialistas alertam contra generalizações.

Josef Schuster, presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, destacou isso em entrevista à DW: “Em Israel, há uma minoria cristã e muçulmana que não é de forma alguma pequena. E os judeus na Alemanha possuem, em sua maioria, passaportes alemães”.

Violência

No relatório sobre 2025, a Rias registrou pelo menos quatro casos de violência extrema na Alemanha. Um deles, de grande repercussão, ganhou as manchetes na imprensa: foi o ataque a faca, em fevereiro de 2025, contra um turista espanhol no Memorial aos Judeus Assassinados da Europa, em Berlim.

O homem foi salvo por um paramédico, e o agressor, que é da cidade de Leipzig, no leste do país, foi condenado a 13 anos de prisão em março deste ano. Ele disse ter confundido o espanhol com um judeu.

As instituições judaicas em Berlim estão sob proteção policial há décadas. Mas, desde a eclosão do conflito entre Israel e o Hamas, a atmosfera na capital alemã tornou-se visivelmente mais tensa.

A mais recente cerimônia pública de acendimento de velas para o feriado de Chanucá, em dezembro de 2025, no Portão de Brandemburgo, contou com proteção policial reforçada. Anos atrás, as pessoas podiam assistir ao ritual de perto.

Outra demonstração visível das medidas de segurança mais amplas são os pesados postes de proteção instalados em frente aos centros culturais judaicos em vários bairros de Berlim.

Por que é tão difícil acabar com o antissemitismo?

“O antissemitismo ameaça a democracia”.

Felix Klein, comissário do governo federal para a Vida Judaica na Alemanha e o Combate ao Antissemitismo, está alarmado com os números apresentados pela Rias.

– O relatório mostra que o antissemitismo parece estar em ascensão na Alemanha, sem qualquer sinal de desaceleração – afirmou. “O antissemitismo não visa apenas o povo judeu. Ele ameaça nossa democracia, nossa liberdade e o núcleo moral do nosso país.”

De acordo com o relatório, a hostilidade disseminada nas redes sociais é alarmante. O número de incidentes relatados aumentou de 1.996 em 2024 para 2.314 no ano passado. Segundo os dados, 43% de todas as ameaças explícitas relatadas ocorreram online, e as pessoas visadas afirmaram ter sofrido efeitos duradouros no cotidiano.

À agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW) , Schuster disse que cada vez mais membros da comunidade judaica estão compartilhando suas preocupações com ele.

– Eles temem ser reconhecidos como judeus na rua, por exemplo, quando usam uma quipá ou uma estrela de Davi como joia. Também é importante observar, e isso é especialmente importante para mim, que essa situação não é a mesma em toda a Alemanha. No entanto, ela é particularmente negativa e especialmente alarmante nas áreas urbanas – conclui.

Edições digital e impressa
 
 

 

 

Jornal Correio do Brasil - 2025